terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A Folia dos Arcanos Maiores: (XVI - TORRE)




_”Quando a gente ouviu na TV que os barracões estavam queimando, a gente nem acreditou. Não podia estar acontecendo aquilo, meu Deus! Minha comadre é que veio me dizer pra ligar a televisão. A gente ficou juntas, assistindo aquilo e sem saber nem o que pensar. A gente só chorava…O senhor pode imaginar o aperto no coração de ver que todo o nosso trabalho, todo o trabalho da comunidade estava perdido? Pode imaginar isso? Um ano inteiro trabalhando para, depois, ver o fogo acabar com tudo em poucas horas. Sabe, eu sou costureira e tenho o maior orgulho de ver as fantasias que eu faço desfilarem no carnaval. Minha vida toda eu trabalhei para a nossa escola e já fomos bi-campeões do carnaval. Tenho o maior orgulho. A gente é uma comunidade unida, de gente trabalhadora e que tem seu dia de glória na hora que pisa a avenida, moço. É tudo o que a gente tem para alegrar a vida… Quando a camera da TV mostrava aqueles rolos de fumaça saindo do barracão eu ficava pensando em toda aquela beleza que estava lá dentro… as fantasias, os adereços… os carros alegóricos quase prontinhos… Tudo virando cinzas, moço…Mas daí a gente foi se encontrar e ver o que dava para salvar. Muito pouco. Quase nada… Nosso presidente pediu nossa colaboração pra gente fazer o que podia para conseguir desfilar ainda este ano. Nós nem pensamos duas vezes, o senhor sabe. No dia seguinte já tava todo mundo junto de novo, trabalhando feito louco para poder dar conta de fazer este carnaval. Foi um tal de juntar um pedaço daqui, outra coisa dali, inventar umas modas, reformar alguma coisa que não tinha queimado tudo e… o senhor viu o resultado, não foi? A gente conseguiu entrar na avenida, mesmo com todas as dificuldades que a gente passou. Não foi mole não, moço… não foi não. Mas a gente conseguiu! Sabe, minha falecida mãe sempre dizia que a gente devia tirar uma lição de tudo que acontecia, mesmo das coisas ruins. Eu acho que, apesar da tristeza, do desgosto que tivemos com tudo o que perdemos naquele incêndio inexplicável, a gente aprendeu que consegue as coisas quando quer. Que a gente quando se une consegue fazer o impossível. O senhor não acha? Sabe, eu chorei muito quando a tragédia aconteceu, mas eu chorei também de muita alegria quando pisei na avenida e vi nossa escola inteira, unida, cantando nosso samba-enredo e a arquibancada se levantando para aplaudir. Foi muita emoção, moço, muita emoção. A gente pode ter perdido quase tudo, mas a gente não perdeu a coragem de começar tudo de novo! A escola estava linda! Não é mesmo, moço? _ entrevista concedida pela integrante de uma das escolas de samba que sofreram com o incêndio em seus barracões, poucas semanas antes do carnaval



Este texto foi criado em 2011 para ser postado durante os dias de Carnaval.
É apenas um exercício associativo entre os 22 Arcanos Maiores do Tarot e personagens fictícios, sempre relacionados à festa de Momo.
Na ocasião em que foram publicados pela primeira vez havia um subtítulo: "O que se ouviu durante o Carnaval", pois o exercício compreendia criar um "monólogo" para cada personagem de tal forma que, através da sua fala, pudesse ser identificado não apenas o Arcano Maior que havia inspirado a sua criação, mas algumas das possíveis características, ou interpretações, desse mesmo Arcano.


(As imagens utilizadas foram retiradas da internet e tem motivo unicamente ilustrativo, em nada comprometendo ou relacionando o texto com  a conduta ou personalidade da pessoa retratada)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A Folia dos Arcanos Maiores: (XV - DIABO)




_"Olha, amigão, eu não tenho nada a ver com isso não. Sei lá quem autorizou essa gente toda a subir no carro alegórico sem roupa. Não sei quem disse isso pro amigo, mas eu é quem não foi. Claro que eu sei as normas, mas norma é assim mesmo, né, a gente fica tentado a desobedecer. E o amigo tá sabendo, é carnaval. O pessoal quer mesmo é se divertir, esquecer os problemas e, se o amigo me permite dizer, fazer umas extravaganciazinhas... sabe como é, né? Às vezes é até bom abusar um pouco, extravasar umas energias, cometer umas loucuras... o amigo sabe do que eu estou falando, né? E, vamos ser sinceros, só aqui entre nós: tá muito lindo esse carro com toda essa gente bonita mostrando esses corpos que parecem esculturas, não é mesmo? Eu sei que tem uns carolas que acham tudo isso um desrespeito, uma pouca vergonha, o fim do mundo, mas, sejamos francos, se o mundo vai terminar assim, que termine agora! Não é mesmo? Concorda comigo? Então, como é que ficamos? Podemos entrar com o carro assim na avenida? O amigo autoriza? É pra alegrar a galera, dar uma injeção de ânimo nessa gente toda... sabe como é que é, né? Vamos lá... sua autorização...Venha depois tomar um uisquinho com a gente. Vai ser um prazer recebê-lo. Uma satisfação. Vou lhe apresentar uma galera muito animada, o amigo vai gostar, podes crer! E então... combinados? Agora a sua autorização pra gente poder entrar na avenida... isso... isso mesmo... Bela assinatura! É isso aí! Obrigado, amigão! Liberou geral! Agora sai da frente que a passarela do samba vai pegar fogo! Literalmente! (risos)" _ ouvido num canto mais discreto da concentração, sem identificação dos envolvidos


 Este texto foi criado em 2011 para ser postado durante os dias de Carnaval.
É apenas um exercício associativo entre os 22 Arcanos Maiores do Tarot e personagens fictícios, sempre relacionados à festa de Momo.
Na ocasião em que foram publicados pela primeira vez havia um subtítulo: "O que se ouviu durante o Carnaval", pois o exercício compreendia criar um "monólogo" para cada personagem de tal forma que, através da sua fala, pudesse ser identificado não apenas o Arcano Maior que havia inspirado a sua criação, mas algumas das possíveis características, ou interpretações, desse mesmo Arcano.

(As imagens utilizadas foram retiradas da internet e tem motivo unicamente ilustrativo, em nada comprometendo ou relacionando o texto com  a conduta ou personalidade da pessoa retratada)

A Folia dos Arcanos Maiores: (XIV - TEMPERANÇA)




_"Olha, eu não quero que meu marido ouça o que eu vou te dizer, mas eu fico muito orgulhosa mesmo quando eu vejo nossa filha saindo pro desfile. Linda demais, vixe! Demais! Meu marido implica porque ele acha que não fica bem pruma moça de família sair assim, só de biquíni fio-dental e com muita purpurina no corpo, mas ele é antiquado, sabe? Ele é militar aposentado e sempre foi bastante rígido com a menina. Não evoluiu, coitado... mas eu sou mais moderna, né? Sou coroa mas sou moderna! Tento de todas as formas convencer ele a deixar a menina se divertir, aproveitar a juventude. Afinal, só se é jovem uma vez, não é mesmo? Nesta época, passo o tempo todo correndo de um lado pro outro, pondo panos quentes, tentando contornar a situação, evitando que eles discutam, briguem. E, convenhamos, tadinha dela..., ela espera tanto por esses dias de carnaval, moço, que o senhor nem sabe! Ela passa o ano todo malhando, fazendo dieta, regime, se olhando no espelho, essas coisas. Que mal que tem, não é mesmo? Além do mais, todo mundo nasceu nu, não é? Então, pra que esconder o que é bonito? Ela não tá linda, moço? Linda demais, né? Deixa ela se divertir com as amigas, não é mesmo? A vida é tão curta..." _ ouvido da mãe de uma ousada foliã, à porta de casa, quando da saída para um desfilar em um bloco de carnaval


Este texto foi criado em 2011 para ser postado durante os dias de Carnaval.
É apenas um exercício associativo entre os 22 Arcanos Maiores do Tarot e personagens fictícios, sempre relacionados à festa de Momo.
Na ocasião em que foram publicados pela primeira vez havia um subtítulo: "O que se ouviu durante o Carnaval", pois o exercício compreendia criar um "monólogo" para cada personagem de tal forma que, através da sua fala, pudesse ser identificado não apenas o Arcano Maior que havia inspirado a sua criação, mas algumas das possíveis características, ou interpretações, desse mesmo Arcano.

(As imagens utilizadas foram retiradas da internet e tem motivo unicamente ilustrativo, em nada comprometendo ou relacionando o texto com  a conduta ou personalidade da pessoa retratada)

A Folia dos Arcanos Maiores: (XII - PENDURADO)




_"Minha mãe mesmo me disse: Filha, só pode ser trabalho feito. Só pode ser inveja das grandes! E é verdade, querida, só pode ser isso. Outra coisa não explica o que me aconteceu. Você imagina que na hora de sair para a concentração eu peguei o elevador e o infeliz parou no meio do caminho? Pode uma coisa dessas? Eu, minha mãe e meu maquiador esmurrávamos e gritávamos a plenos pulmões por socorro, mas quem disse que o povo ouvia? Todo mundo naquele prédio é velho e, os que não estavam viajando ou dormindo, estavam com o som da TV alto... Um horror, um verdadeiro horror! Levou o maior tempão até que o porteiro percebeu que o elevador tava lá, entalado, sei lá em que andar. E daí? Carnaval, noite, todo mundo na farra... você acha que alguém da manutenção pode ser encontrado numa ocasião dessas? Imagine! Nem em sonho!... Uma loucura. Eu só não enlouqueci porque não era a minha vez. Quando os bombeiros chegaram já era tarde demais. Até eles conseguirem abrir a porta e nos retirar já não tinha mais jeito... Mas isso só acontece mesmo comigo, sabe? Eu não tenho sorte mesmo, mes-mo! Digo e repito: sou uma azarada! Sou! Minha mãe não gosta que eu fale assim, mas é verdade... eu nasci azarada. Sou vítima desse destino cruel que me deixa chegar tão perto dos meus objetivos e daí, só pra me desmoralizar, puxa o meu tapete. É isso aí. Veja você, logo agora que eu ia ter a minha grande chance, destaque principal do carro alegórico de uma escola tri-campeã, me acontecer isso na hora do desfile? Um carro lindo, deslumbrante... A chance de aparecer em todas as revistas, na TV... de vir a ser chamada para participar do BBB... Agora me diz, querida, é ou não é trabalho feito? É ou não é coisa mandada? Sou ou não sou azarada? Não é pra eu me sentir assim... com essa imensa dó de mim?" _ choramingado, numa coletiva para a imprensa, convocada pela própria ex-futuro-destaque de escola de samba, em que só compareceu uma estagiária do jornal


Este texto foi criado em 2011 para ser postado durante os dias de Carnaval.
É apenas um exercício associativo entre os 22 Arcanos Maiores do Tarot e personagens fictícios, sempre relacionados à festa de Momo.
Na ocasião em que foram publicados pela primeira vez havia um subtítulo: "O que se ouviu durante o Carnaval", pois o exercício compreendia criar um "monólogo" para cada personagem de tal forma que, através da sua fala, pudesse ser identificado não apenas o Arcano Maior que havia inspirado a sua criação, mas algumas das possíveis características, ou interpretações, desse mesmo Arcano.

(As imagens utilizadas foram retiradas da internet e tem motivo unicamente ilustrativo, em nada comprometendo ou relacionando o texto com  a conduta ou personalidade da pessoa retratada)

A Folia dos Arcanos Maiores: (XIII - MORTE)




_"Fiquei sabendo pela imprensa. Estava em casa quando me telefonaram de uma emissora perguntando se eu tinha ficado magoada em saber que não era mais a rainha da bateria da escola. Eu não entendi direito quando a repórter falou. Pensei que ela tivesse falando de outra coisa. Pensei até que tivessem me confundido com outra pessoa. Levou um tempinho pra cair a ficha. Magoada? Eu? Imagine... Achei mesmo que foi a maior sacanagem o que fizeram comigo! Tremenda sacanagem! Ora vejam só! Isso lá é coisa que se faça com uma pessoa que deu o melhor de si para que a escola brilhasse na avenida? Eu aceitei esse cargo quando ninguém mais queria. Eu emprestei meu nome, minha fama, meu talento para a escola e é esse tipo de agradecimento que a gente recebe. Nem uma palavra. É uma gentinha sem consideração mesmo... Agora, que estão aí famosos, que estão seguros de si, com grandes chances de serem os campeões neste ano, arranjam uma dessas atrizinhas de novela, cheia de estria, celulite e botox, para ser a rainha da bateria. Só porque está na mídia. Só porque dá ibope. Só porque a novela está bombando! E a gente, que deu anos de trabalho, que não perde um ensaio, que freqüenta a comunidade, a gente onde é que fica? A gente vira traste. A gente é descartada. A gente é cortada de vez, de um golpe só e jogada no lixo. Ah, mas isso não fica assim não! De jeito nenhum! Eu volto. Pode escrever aí: eu volto! Vocês vão ver! Vocês acham que não estou recebendo convites de outras escolas? Claro que estou! Eu vou voltar, pode ter certeza. Eu sou que nem aquele bicho que renascia das próprias cinzas, minha querida... vocês me aguardem!" _ desabafo feito por ex-rainha da bateria para uma apresentadora de um programa de rádio comunitário


Este texto foi criado em 2011 para ser postado durante os dias de Carnaval.
É apenas um exercício associativo entre os 22 Arcanos Maiores do Tarot e personagens fictícios, sempre relacionados à festa de Momo.
Na ocasião em que foram publicados pela primeira vez havia um subtítulo: "O que se ouviu durante o Carnaval", pois o exercício compreendia criar um "monólogo" para cada personagem de tal forma que, através da sua fala, pudesse ser identificado não apenas o Arcano Maior que havia inspirado a sua criação, mas algumas das possíveis características, ou interpretações, desse mesmo Arcano.

(As imagens utilizadas foram retiradas da internet e tem motivo unicamente ilustrativo, em nada comprometendo ou relacionando o texto com  a conduta ou personalidade da pessoa retratada)