domingo, 31 de julho de 2011

ÂNCORA




ÂNCORA

O que é que lhe dá a sensação de segurança? Dinheiro no banco? Casa própria? Jóias e objetos de arte? Um bom emprego? Um casamento sólido? Uma família unida? Amigos poderosos? Um diploma na parede? Certeza de seus talentos e habilidades? O que quer que seja, é algo que lhe proporciona uma confortável sensação de que não está à deriva, nesta vida.

Ainda que tudo o que acreditamos como estável, certo, confiável, possa vir a falhar ou perecer, buscamos sempre maneiras de nos protegermos das possíveis intempéries da vida, criando vínculos e raízes que nos permitam ter com o que contar, para onde e a quem voltar, se algo nos frustar ou mesmo se tudo falhar. É como o fio de Ariadne, que sabemos estar lá à nossa disposição, como um recurso extra e, talvez, imprescindível para que saiamos da zona de sombras e encontremos novamente a luz. É o que nos permite arriscarmos, avançarmos um pouco mais, explorarmos algumas possibilidades, pois confiamos que, se lograrmos sorte ou não, sempre teremos alguém que nos socorrerá, uma reserva guardada para dias difíceis, uma habilidade bem desenvolvida com a qual poderemos recomeçar quando e onde quisermos.

Mas Âncoras também podem ser limitadoras, tal como as coleiras e correntes que permitem que, aqueles que vivem em cativeiro, avancem apenas até um certo ponto. Se, por um lado nos prendem a algo que reconhecemos como nosso, como estável, seguro, tradicional, radicado e confiável, por outro podem nos impedir de arriscar, progredir, castrando nossa criatividade diante de novas situações. Talvez o ideal seja que fossemos como os navios, que lançam e recolhem suas âncoras à medida de seus interesses em desvendar novos horizontes. Que pudéssemos sempre ancorar, à nossa vontade, em portos onde nos sentíssemos em casa. Mas que isso não impedisse que, a qualquer vento de renovadora inspiração, as recolhêssemos e nos aventurássemos, novamente, na imensidão do mar.

Alex Tarólogo
www.elementosdotarot.com.br

sábado, 30 de julho de 2011

PÁSSAROS



PÁSSAROS


Tomava um cafezinho na padaria aqui perto quando noto uma aglomeração se formando na calçada. Em menos de um minuto havia gente entrando e saindo da padaria, vozes mais ou menos exaltadas, funcionários completamente alheios dos seus clientes e quase subindo no balcão para ter uma melhor visão do que acontecia.

As pessoas iam rapidamente até lá fora para voltarem, em segundos, com uma expressão de espantosa excitação, gesticulando e contando o pouco que viram, algo do que ouviram e o muito do que deduziram. Em menos de 5 minutos a padaria assemelhava-se a uma central de jornalismo em dia de catástrofe internacional. Foi um homem que agrediu a mulher, foi uma senhora que passou mal e caiu, foi o morador do prédio em frente que brigou aos socos com um mendigo morador de rua, foi assalto, atropelamento, foi... Alguém gritava para o gerente da padaria ligar para os bombeiros. Dezenas de celulares informavam namoradas, patrões, colegas de trabalho, a mãe, as vizinhas do crime... acidente... atentado...sei lá! Todos no local conversavam, atropelando-se nos comentários feitos em altas vozes, numa eufórica melodia dissonante, com a intimidade conivente de um grupo que houvesse sobrevivido, juntos, a um letal ataque de extraterrestres.

Em 10 minutos a multidão já se dispersara e os bombeiros já começavam a ir embora depois de terem explicado, que a pouca fumaça saindo do bueiro nada mais era do que papéis queimando lá embaixo devido a um cigarro aceso displicentemente jogado. Estávamos livres do risco de explosões, de bandidos armados, de velhinhas feridas, de criança perdida, de marido traído querendo lavar a honra com sangue. Tal como entusiasmados Pássaros, meus companheiros de balcão bateram as asas, arrulhando saltitantes, piando seus comentários, suposições, opiniões e se espalharam pela cidade. Fiquei eu, só, com minha xícara de café, frio, por sinal, esperando pela minha vez, obviamente, de recontar o fato para vocês.

Alex Tarólogo
www.elementosdotarot.com.Br.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

MONTANHA



MONTANHA

Na vida, nem sempre podemos evitar depararmos com grandes problemas que, quase sempre, parecem insolúveis, intransponíveis ou insuportáveis. São aqueles acidentes de percurso, as pedras no caminho, os deslizamentos, as barreiras, as pontes caídas, tudo o que nos faz parar, respirar fundo, cogitar desistir para, na melhor das situações, buscar soluções alternativas ou, até mesmo, enfrentar.

Montanhas são majestosas, altivas e frias em sua imponência sobre a paisagem. São desafiadoras, do tipo "quero ver se você consegue!". Belas de serem admiradas a uma certa distancia, sua escalada é cansativa, sofrida e, algumas vezes, fatal. Desafiá-las requer coragem e preparo físico e espiritual. Maleabilidade, teimosia, persistência e obstinação também fazem parte do manual de qualquer alpinista. É o combate da inteligencia ágil contra a ignorância sedimentada. Muitas vezes é mais fácil admitir que somos mais fracos e contorná-las, ainda que levemos mais tempo em nossa jornada e, evidentemente, deixemos que o problema continue lá, intocado, bloqueando nosso caminho de volta. Noutras, não temos escolha: sem rota de fuga, sem túneis, sem estarmos física e moralmente capacitados, somos forçados a enfrentá-las.

Mas para aqueles que as enfrentam e vencem suas íngremes escarpas, a vista do alto é sinal de vitória, de domínio, de conquista. É sentir-se no topo do mundo. É reconhecer-se capaz. É poder avistar melhor o horizonte que se descortina e poder escolher novas rotas alternativas para que a jornada possa ser completada com sucesso.

Alex Tarólogo
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quinta-feira, 28 de julho de 2011

FOICE



FOICE

Tenho estado em "pé de guerra" com uma determinada operadora de telefonia celular. Há meses tenho procurado uma maneira que não me obrigue a recorrer à justiça do homens para resolver a situação, de forma lógica e pacífica, mas sem sucesso.

Já havia ouvido histórias as mais diversas sobre problemas semelhantes enfrentados por amigos, conhecidos de amigos, conhecidos de conhecidos de amigos, etc, mas nunca prestei a devida atenção, até, é claro, quando o problema aconteceu comigo. Quero encerrar minha conta, meu plano, quitar saldo restante de compra de celular, fazer tudo o que necessário for para não mais ter nenhum vínculo com essa empresa. Quero, enfim, me desligar de qualquer tipo de adesão aos seus planos, ofertas, etc. Não quero ter o desprazer de pagar por serviços insipientes que nunca solicitei e, pior, ser obrigado a ficar horas pendurado ao telefone, recontando minha história a dezenas de deferentes atendentes quando tenho que resolver qualquer assunto. Tenho, há anos, um contrato com essa operadora mas nunca imaginei que encerrá-lo em definitivo, fosse tornar-se uma verdadeira odisséia.

A Foice é um primitivo, porém muito efetivo, instrumento de corte, de limpeza, poda, colheita e, em algumas tenebrosas situações, de ferimento, dor e morte. Quero realmente usar uma Foice, cortando, rompendo, desligando meus vínculos com essa determinada empresa. Também sei que, por necessidade imperativa de uso de um celular, isso me levará a um novo contrato, um novo relacionamento com outra operadora. Só me resta, então, torcer para que os frutos pretendidos dos novos serviços valham o dinheiro, o tempo e a energia gastos neste momento de capina.

Alex Tarólogo
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quarta-feira, 27 de julho de 2011

LUA




LUA

Conversando com amigos, o assunto que se estendeu por mais tempo e se desdobrou num maior número de opiniões, declarações e testemunhos foi o de quanto somos volúveis em algumas das nossas escolhas e preferencias.

Pessoalmente, tive uma fase na infância que os selos ocupavam todo o meu tempo livre. Descolá-los cuidadosamente com vapor d'água, deixá-los secar prensados entre folhas de livros e classificá-los em álbuns era um prazer inenarrável. Passados alguns anos e esquecidos em uma estante, cederam lugar aos livros. Os clássicos, os contemporâneos, os de produção independente, não importa, lia tudo o que me caía às mãos. Quando finalmente descobri que havia mais de um tipo de deque de Tarot, que não apenas o de Marseille, literalmente "pirei": queria-os todos. Meu primeiro salário profissional foi para pagar alguns que havia encomendado a uma amiga que estava indo a Buenos Aires. Até hoje continuo interessadíssimo pelos novos designers, pelos lançamentos de novos produtos sempre comprometendo meu orçamento além do razoável. Mas confesso que, entre essas enormes e arrebatadoras, vivi outras intensas "paixonites" por outros assuntos e interesses, durante todos esses anos.

Temos fases, como a Lua, em que estamos mais propensos ou sensíveis a algo. Necessariamente não perdemos o interesse pelo que gostamos, mas descobrimos e acrescentamos algo novo, que nos excita e encanta. No fundo, tudo acaba fazendo parte de uma grande coleção pessoal, que podemos chamar como quisermos: experiência, conhecimento, sabedoria, inconstância, fase, ilusão, superficialidade... sei lá. E nesse vai e vem continuamos, dissipando sombras, nessa nossa cambiante busca pela própria luz.

Alex Tarólogo
www.elementosdotarot.com.br