Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Benditos aqueles que vêm em nome do Senhor

Andrea_Mantegna_reis_magosQuando desci, nesta manhã, os porteiros já estavam desmanchando os enfeites natalinos colocados desde o início de dezembro passado no hall do prédio.

Fui caminhar pensando que o mesmo acontecia, todo dia 6 de janeiro, na casa dos meus pais. Voltava-se a embrulhar com todo o cuidado cada peça do presépio, removia-se a areia, guardava-se o grande espelho que lhe servia de base e que ajudava a criar riachos de águas cintilantes naquela Belém doméstica. As bolas de aljôfar eram removidas com todo o cuidado do grande pinheiro que chegava a tocar o teto, e fios de luzes, laços, festões dourados e muitos enfeites de pendurar, tudo era novamente acondicionado para esperar outro Natal.

Por que dia 6 de janeiro? Por que Dia de Reis? O que significam esses, assim chamados, Reis Magos?

Apenas no Evangelho de Mateus há menção a eles e nunca são tratados como “reis”, mas como “visitantes vindos do Oriente” que se prostraram aos pés da criança e a adoraram. Finalmente, abrindo seus baús, presentearam-na com ouro, incenso e mirra. Sem dúvidas, fossem quem fossem, viessem de onde viessem, reconheceram naquele menino o rei, o sacerdote e o profeta, ou pelo menos é o que seus presentes indicam. Mirra era uma resina muito utilizada para embalsamar os corpos, preservando-os para uma vida futura, para novos tempos, para um retorno da alma ao corpo, à matéria. O fumaça perfumada do incenso ascendendo às alturas é associado à oração, a prece, que eleva nossos agradecimentos, nossos pedidos e nossas intenções ao Divino. E finalmente o ouro, matéria nobre, retirada das profundezas da terra, dos leitos dos rios, representa a sabedoria e a nobreza de caráter, digno dos grandes e sábios dignitários. Fossem reis, mensageiros, astrólogos babilônicos ou sábios, esses homens reverenciaram Jesus como a um rei, de nobre caráter e sabedoria, e de grande espiritualidade. O “Dicionário de Símbolos” do Chevalier-Gheerbrant diz, textualmente na página 776 da sua 2ª edição, o seguinte sobre o simbolismo da figura de Rei:

“O rei é também concebido domo uma projeção do eu superior, um ideal a realizar. Não tem mais, então, nenhuma significação histórica e cósmica, torna-se um valor ético e psicológico. Sua imagem concentra sobre si os desejos de autonomia, de governo de si mesmo, de conhecimento integral, de consciência. Nesse sentido, o rei é, com o herói, o santo, o pai, o sábio, o arquétipo da perfeição humana, e ele mobilizava todas as energias espirituais para se realizar.” (o grifo é meu)

Esses viajantes estrangeiros ao ajoelharem-se frente à criança, reconheciam a sua autoridade, que é o verdadeiro poder e toda lei deriva dele. O que permite atribuir-se autoridade a alguém é o reconhecimento de que essa pessoa é, de que essa pessoa sabe e de que ela pode. Talvez possamos associar a mirra, ao Ser Alguém, ou seja, à idéia de um corpo físico que é um depositório de conhecimentos e experiências refinados através de muitas vidas, de várias encarnações. O Saber Algo podemos livre-associar ao ouro, no sentido de uma rara sabedoria, um grande senso de justiça e nobreza de intenções. Finalmente, ter Poder poderia estar ligado à idéia da força da vontade, do desejo, do incenso que ao ser queimado cumpre a função de oloroso mensageiro, do fogo que dá vida e que transmuta.

Gaspar, Melquior (ou Belchior) e Baltazar são os nomes atribuídos a esses 3 visitantes e lhes foram concedidos somente no século VIII d.C., podendo terem sido escolhidos devido a uma corruptela da expressão latina Christus mansionem benedicat, ou seja, “Cristo abençoe este lar”, usada então como saudação pelos visitantes ao adentrarem uma casa.

Mateus nos diz que depois de seu encontro com Herodes, esses viajantes vindos do Leste, tornaram a avistar a estrela que haviam visto anteriormente, e a seguiram, tendo ela parado “acima do lugar onde o menino estava. Quando viram a estrela, eles ficaram muito alegres e felizes. Entraram na casa e encontraram o menino com Maria, sua Mãe”. Isso é uma Epifania, ou seja, uma manifestação. Ao ser reconhecido como mortal (mirra), Deus (incenso) e rei (ouro), acaba, finalmente, a procura daqueles homens. À sua frente está a resposta. Acabam por compreender, na presença daquela criança, o sentido da sua busca, e subitamente têm a compreensão da sua natureza divina.

Mas o que exatamente motivou esta postagem foi o significado da estrela nessa história. Esse corpo celeste que, navegando na escuridão do universo, atua como um farol a nos guiar para margens seguras. Esse corpo celeste, que carrega consigo a idéia de futuro, do novo, de uma mudança para melhor.

Esperança, é o atributo do Arcano XVII do Tarot, a Estrela. Ela anuncia que o que passou é uma preparação para o que há de vir. Que cada dia vem pleno de novas oportunidades, de outras possibilidades e que devemos dirigir nossas forças para o futuro, para o porvir.

Numa leitura, essa carta não prediz necessariamente uma grande e imediata mudança, mas nos faz refletir sobre esperança e cura. O rio que corre do passado para o futuro, onde se debruça a Esperança, despida de qualquer artifício que possa atrapalhar a clareza de sua visão, ali está para saciar a sede do Consulente, seja através de uma ajuda inesperada, ou mesmo com uma revelação, uma epifania que lhe iluminará o caminho a seguir.

Acredito ser essa a imagem bíblica da visita desses homens vindos de outras direções, guiados por uma luz: a fé que devemos ter de que o futuro nos reserva grandes e importantes revelações. Provavelmente eles não tenham vivido o suficiente para verem as modificações ocasionadas por aquele menino, mas certamente, ao seguirem a luz da Esperança, puderam antever, numa epifania, o que Ele representaria para o futuro.

Creio que seja essa uma das lições contidas nesse Arcano XVII: que devemos manter acesa dentro de nós essa luz que nos guiará pelos caminhos que levarão ao nosso crescimento e realização, tanto humano como espiritual.

Feliz Dia de Reis!

Ilustração: “Os Reis Magos”, de Andrea Mantegna (1431 – 1506)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Carta do Dia: OS AMANTES

Então Pedro disse a Jesus:

_”Nunca abandonarei o senhor, mesmo que todos o abandonem"!”

Mas Jesus lhe disse:

_”Eu afirmo a você que isso é verdade; nesta mesma noite, antes que o galo cante duas vezes, você dirá três vezes que não me conhece”.

Mas Pedro repetia com insistência:

_”Eu nunca vou dizer que não o conheço, mesmo que eu tenha que morrer com o senhor!”

Marcos, 14: 29, 30 e 31

     Também, de acordo com Marcos (14: 66 a 72), quando uma das empregadas do Grande Sacerdote, horas mais tarde, reconheceu Pedro como um dos seguidores de Jesus, ele negou veementemente, por três vezes:

_”Juro que não conheço esse homem de quem vocês estão falando! Que Deus me castigue se não estou dizendo a verdade!”

Naquele instante o galo cantou pela segunda vez, e Pedro lembrou que Jesus lhe tinha dito: “Antes que o galo cante duas vezes, você dirá que não me conhece.”

Então Pedro caiu em si e começou a chorar.

     Enamorados Na carta dos Amantes, entre tantos significados simbólicos que representa, o de escolha, de opção, de livre-arbítrio é um dos mais importantes e instigantes. E para fazermos boas escolhas é necessário que tenhamos experiência, estejamos maduros o suficiente para podermos avaliar, com clareza, os reflexos que toda e qualquer opção que tomamos tem em nosso futuro e nas vidas das pessoas que nos cercam.

     É uma carta que demanda um grau de responsabilidade que muitas vezes ainda não adquirimos, através da vida, através dos mecanismos necessários que nos habilitem a fazermos as escolhas corretas. Ainda não conhecemos de cor o caminho para sabermos, com certeza, qual das direções optar, ao chegarmos numa bifurcação. O que fazer em situações como essas? Podemos tomar o caminho da direita e acabarmos nos perdendo, mas conhecendo uma nova região, com uma espetacular paisagem. Ou podemos optar pelo da esquerda e chegarmos ao nosso destino pretendido. Não há garantias.

     O mesmo ocorre quando assumimos compromissos. Apaixonar-se por alguém ou por um ideal traz uma série de consequências que nos fazem, muitas vezes inseguros de assumi-las, por não nos considerarmos aptos de cumprirmos com elas e, sobretudo, as assumirmos e nos responsabilizarmos por elas e pelos rumos que possam tomar. É muito importante que percebamos que nessas escolhas nunca estamos completamente sós, envolvendo outras vidas, atrelando o destino de outras pessoas ao nosso.

     Tenho um conhecido que foi cartorário durante muitos anos, construindo uma carreira notarial ilibada e um patrimônio bastante considerável. Mas vivia frustrado. Nada lhe agradava e queixava-se que, mesmo com todo o conforto e garantia de uma vida financeiramente segura, ele detestava os serviço que fazia e daria tudo para viver o seu sonho de juventude que era o de ser artista plástico.  Solteiro, filho único e vivendo com sua mãe viúva e idosa, num rompante de coragem, devolveu o cargo para o governo, reviu o aluguel dos imóveis que possuía, atualizando-os, abriu uma poupança para a sua mãe, reservou um pouco de dinheiro para si próprio e pois o pé na estrada. Mudou-se para a Europa, onde foi estudar e procurar realizar seu sonho.

     Em pouquíssimos anos, a inflação havia consumido com grande parte dos valores poupados, os imóveis estavam novamente com seus aluguéis defasados e precisando de grandes reformas estruturais e, para culminar, o Plano Collor, deixou a ele e à velha mãe com R$50,00 no banco. Ele, cuja tão sonhada carreira como artista plástico não deslanchou, viu-se obrigado a trabalhar em empregos muito mal pagos e sem nenhuma perspectiva, por ser imigrante. Não conseguiu, sequer juntar o dinheiro para voltar ao país. Sua mãe, vivendo em condições muito precárias, aceitou uma oferta enganosa de uma construtora que lhe oferecia dois ou três apartamentos em um novo empreendimento a ser construído em troca dos seus  imóveis, inclusive o que ela morava. Escritura assinada e a construtora estava nas páginas de todos os jornais por ter falido. Nem casa, nem cobertura, nem onde morar. Sim, restava-lhe o direito de apelar na Justiça, mas isso tem custos e ela não tinha como pagá-los. Foi morar na casa de uma ex-empregada, que a acolheu e dela cuidou até a sua morte.

     O filho continua morando no exterior, mudando ocasionalmente de cidade ou de país, sempre em trabalhos temporários. Hoje, mais velho e apresentando os desgastes naturais da idade, vive um estado de depressão crônica, lamentando-se pela opção feita no passado, pela forma impetuosa e cega de paixão que conduziu suas escolhas, e pela falta de um olhar mais claro, mais atento, menos tendencioso sobre as possíveis consequências de suas decisões. O remorso o consome e o sentimento de culpa que nutre, especialmente, pela forma que sua mãe viveu seus últimos anos, o atormenta e o mantém preso a uma vida auto-destrutiva não se permitindo, ainda que seu arrependimento seja sincero, o necessário perdão.

     Há momentos na vida de todos nós que tomamos decisões das quais nos arrependemos. Sempre há riscos a serem considerados e aceitos. O importante é essa aceitação. Estarmos preparados, o melhor possível, para recebermos as alegrias, os benefícios, ou as tristezas e as perdas que nossas escolhas possam resultar. No exemplo do evangelho de S. Marcos, transcrito no início desta postagem, vemos Pedro, conscientizando-se do erro cometido, ao tentar esquivar-se do fato de conhecer a Jesus. Reconhece, chora, lastima-se, mas segue adiante, procurando extrair uma lição positiva daquele engano e fazer algo que, mesmo que não possa apagá-lo definitivamente, proporcione uma forma de compensação equivalente. Pedro tornou-se um dos maiores evangelizadores de seu tempo, levando a palavra do Mestre por grandes regiões, deixando-se capturar e pedindo que não fosse martirizado como o seu Senhor, por não sentir-se digno. Foi crucificado de ponta-cabeça. Pedro buscou perdoar-se.

     Meu amigo viveu e continua a viver (ou seria preferível dizer, suportar) uma situação biblicamente semelhante a de Judas Iscariotes, outro apóstolo, que também arrependido de ter traído a Jesus, atraindo-o, identificando-o e entregando-o a seus algozes, é incapaz de aceitar sua errônea decisão e procurar transmutá-la em uma experiência a ser compreendida, aceita e, evidentemente, ser evitada futuramente. Decide, ao contrário, entrega-se à negatividade das consequências de seu ato e recusa-se a viver. Não reagir, não assumir as responsabilidades de seus atos e procurar de alguma forma saná-los ou então buscar novas opções, é também não viver.

     É necessário que enfrentemos com coragem e determinação essas nossas dificuldades, esses nossos erros, o mal uso do nosso livre-arbítrio, assumindo esses aspectos como parte integrante de nós mesmos. Só assim, sabendo com o que estamos lidando, podemos buscar a nossa harmonização, não permitindo viver sob o jugo de nossas más decisões, mas equilibrando-as com aspectos, atitudes e comportamentos mais positivos da nossa personalidade. Os alquimistas chamavam esse procedimento de solve et coagula, ou seja: analise-se bem, reúna e dissolva tudo o que for menor, negativo, inferior que houver em você, ainda que lhe pareça extremamente doloroso o procedimento; em seguida, tendo as suas forças sido renovadas por essa operação, recomponha-se novamente.

     Quando os Amantes aparecem numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua colocação na disposição escolhida e demais cartas que a cercam, além da situação proposta pelo consulente, pode, também, significar vontade ou tendência a comprometer-se; dualidade; contraditório; buscar a complementação de algo; união divina; equilíbrio; discernir; combinar; fazer escolhas; conflitos emocionais; amor e relacionamentos; harmonia, beleza e perfeição; escolher um parceiro, um sócio; ser responsável ou assumir a responsabilidade por algo ou alguém; estar vivendo uma vida dupla; energia sexual ativada; casamento entre opostos; individualidade; gêmeos; ajuda para transpor obstáculos; ter um “caso” fora do relacionamento; todas as formas de amor e de amar; atração mútua; ser fiel a seus princípios; saber o que é bom e o que não funciona para si mesmo, entre muitas outras possibilidades.

     Mal aspectado numa leitura, este Arcano pode representar indecisão; más escolhas; tentação; ser dispersivo; só se interessar pelos aspectos físicos da relação; infidelidade; adultério; ciúme; controle; ligações perigosas; brigas; triângulo amoroso; divórcio, separação; forte oposição.

    06-Major-Lovers Une Tiphareth a Binah, na Árvore da Vida cabalística, o que representa a ligação entre a consciência pura, de onde todas as formas surgem, ao ponto central da Árvore, onde essas formas se manifestam. A principal lição desse 17º caminho é de que uma supraconsciência, uma consciência mais proximamente ligada ao Divino Superior influi, imparcialmente sobre o consciente e o subconsciente, equilibrando-os. É quando as duas metades da psique, o animus e a anima se unem, não escondendo nada um do outro, que se realiza o verdadeiro Casamento Real. É a idéia do Equilíbrio Harmonioso entre pares opostos, que são, na verdade, complementos entre si, não importando quão diferenciados possam aparentar no momento. O correlação astrológica dos Namorados é Gêmeos. Só chegamos à essa união de opostos através de conflitos, que são essenciais a qualquer crescimento espiritual. É lidando com nosso lado “sombra”, com aquilo que normalmente repudiamos ou tentamos não ver em nós mesmos, que acabamos nos vendo como um todo.

     Nesta quinta-feira, sob os auspícios expansivos de Júpiter, regente do dia da semana, e com a Lua em seu quarto-crescente entrando na casa de Leão, nos promete uma chance de vermos brilhar a nossa personalidade, facilitando com que nos assumamos claramente como somos, iluminando os nossos aspectos mais sombrios para que possamos melhor visualizá-los, conhecê-los, assumi-los e equilibrá-los. É um dia muito favorável às atividades sociais e, muito provavelmente, os lugares públicos tais como praias, shoppings, praças, clubes, bares e restaurantes, deverão estar cheios de gente. É um período excelente para se pensar em uniões, sejam elas comerciais como as sentimentais. Casamento é uma grande possibilidade e inícios de namoros certamente irão ocorrer.

     Aproveite o dia para meditar sobre quem você é e sobre o que valoriza em você e nos outros. Aproveite para observar e apreciar os contrastes e as diferenças  e perceber que tudo existe de forma complementar. Yang e Yin. Não há melhor ou pior. Existem, sim, escolhas mais ou menos apropriadas.

     Um excelente dia para todos!

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Carta do Dia: A IMPERATRIZ

       Imperatriz Não é difícil compreender como a figura da mulher, como um dos aspectos integrantes da Divindade, teve subtraída essa posição através da história da civilização. Esses seres que devem ter causado uma impressão profunda no homem primitivo, primeiro com o sangue menstrual, depois com o seu ventre se dilatando para, após determinado período, sofrendo dores e esvaindo-se em líquidos ainda sem nomes, colocarem um novo ser vivo na superfície da terra. Tudo exatamente igual, em termos de mistério, aos frutos que a cada estação se apresentavam nas árvores, o surgimento de espécies vegetais vindas, sem aparente razão, do solo ou aos animais que se multiplicavam nas estepes.

     Além disso, como verdadeiras primeiras alquimistas, eram elas que preparavam a caça abatida, descobrindo maiores utilidades para o fogo e inventando os utensílios que lhes permitiam o preparo dos alimentos. Também a elas cabia o exercício de, com ervas, raízes e folhas diversas, cuidarem dos ferimentos e prepararem beberagens e infusões diversas para a cura de doenças.

     Com a compreensão de que havia uma participação efetiva do elemento masculino no ato da concepção, e que portanto ele também era parte daquele misterioso evento, o homem começa a perder grande parte da reverência que lhes dedicava e inicia-se, então, a transição do matriarcado para um patriarcado baseado em ação, conquistas, lutas, apagando, com o passar do tempo, grande parte das referências ao poder do feminino. Isso acabou sendo especialmente na Idade Média quando os religiosos, que supostamente muito pouco conheciam das mulheres passaram a vê-las como descendentes diretas de Eva, seres feitos unicamente de carne e sentidos, sendo portanto a causa da Grande Queda, da perda do Paraíso, pois nada mais eram do que a própria Tentação materializada. Por ter sido criada da costela de Adão, conforme os ensinamentos bíblicos, era vista como um ser exclusivamente material, criada exclusivamente para a procriação, e que deveria ser mantida virgem até casar-se, quando passaria a ser posse exclusiva de seu marido, a ele devendo fidelidade e submissão.

     O cristianismo deu às mulheres alguma esperança de salvação e de construção de uma nova imagem, pois afinal, Maria, a mãe virgem de Jesus, era também considerada a mãe de todos aqueles que abraçavam a nova fé, liberando-os da maldição que Eva tinha lhes angariado. A castidade deveria ser mantida, sob qualquer custo, caso desejassem casar. Se preferissem adotar uma vida de reclusão, uma vida religiosa, isoladas nas abadias e “casadas” com Cristo, então a idéia da virgindade era considerada fundamental. Maria passa a ser um ideal de santidade que se contrapõe à materialidade, à realidade representada por Eva.

     Mas, o que fazer com aquelas, que não resistindo aos seus impulsos naturais, abriam mão da tão preciosa virgindade para depois se arrependerem? Para essas um novo modelo a ser imitado foi criado com a figura de Maria Madalena, a pecadora arrependida, que apesar de seus erros, encontrou a salvação ao abandonar a vida pregressa e submeter-se unicamente à paixão e os êxtases  da fé.

     Assim a Igreja, durante os séculos, nos apresentou três modelos de mulher: Eva, a que representava os instintos mais baixos e que por eles pactuara com o Demônio tramando enganar o Homem; A Virgem Maria, a mãe do Salvador e de todos nós, cuja adoração baseava-se na aceitação do fato da sua concepção ter sido divina, sem intercurso carnal, de ter gerado o Redentor e ter ascendido aos céus, nas mesmas condições do Filho; e, finalmente, Maria Madalena, o exemplo de que a mortificação da carne através de exercícios espirituais e da recusa e desprezo pelo físico, além da submissão aos homens da Igreja, eram o caminho da salvação perdida por aquelas que haviam pecado, tais como Eva, usando o corpo para o prazer.

    Quando nós pensamos em maternidade e sexo nos parece que são coisas opostas, como se para uma mulher engravidar não tivesse que haver sexo, existir uma relação carnal. Ainda assim nos recusamos a pensar nas mães, e em especial na nossa, como puras, assexuadas. Essa atitude pode ser encarada como uma forma de ciúme possessivo da criança que não quer admitir que sua mãe divida seu corpo com outro. Mas também é fruto de quase dois mil anos de uma cultura cristã, que divide as mulheres em dois tipos: a santa, representada pela Virgem Maria, e a prostituta, representada por Maria Madalena. Essa mesma tradição nos ensinou que as mulheres que praticam sexo, que obtém prazer dele e gostam de si e de seu corpo, são fiéis representantes da demoníaca Eva, que na falta de qualquer virtude, coleciona todos os chamados vícios femininos, tais como a gula, a luxúria e a sexualidade.

      E por falar em luxúria, sensualidade e sexualidade, há quem goste da Madonna (a cantora, por favor). Eu, nem tanto. Mas isso não impede que eu reconheça o seu trabalho como importante especialmente no que se refere à estética dos shows, dos vídeo-clipes, na maneira de se auto-promover e na sua capacidade, quase ilimitada, de renovar-se (ou melhor, “repaginar-se” ), sem necessariamente alterar o seu estilo musical. Madonna, hoje uma senhora, vendendo menos discos e excursionando muito menos pelo mundo do que fazia há, digamos, dez anos, ainda consegue manipular a atenção da mídia, evidentemente a seu favor, seja adotando a cabala como foco de interesse espiritual, ou adotando, além de crianças de raças e nacionalidades diferentes,  um jovem consorte com idade para ser mais um de seus filhos e também  utilizando-se da sua fama para ajudar algumas organizações assistenciais. Madonna finalmente tornou-se uma matriarca.

    Versace4 Da exuberante, transgressora e sexualmente liberada  figura que usou para imprimir sua marca no mundo competitivo das celebridades, evoluiu para uma persona pública que assume um caráter muito mais humanitário e bem menos hedonista do que a sua imagem, meticulosamente construída, vendia. É a mãe de muitos filhos que necessariamente não precisa ter gerado; emprega muita gente, criando  condições de sobrevivência para um grupo enorme de assessores, estilistas, maquiadores, cabelereiros, personal trainers, coreógrafos, bailarinos, videomakers, músicos, produtores musicais, iluminadores, cenógrafos, fotógrafos, ilustradores, divulgadores, assessores de imprensa, guarda-costas, etc. Nutre, enfim, com o seu trabalho toda uma indústria de entretenimento, toda uma indústria cultural, que é, também, uma importante característica da arquetípica figura da Imperatriz, afilhada direta de Vênus/Afrodite, em sua incansável busca pelo belo.

     Madonna vendeu cultura e sexo na mesma medida. Utilizou-se de ambos para construir uma carreira extremamente bem sucedida, cuidadosamente planejada e bastante longa. Sempre atual com as tendências da moda, de estilo e da cultura, evoluiu através dos anos como uma verdadeira camaleoa, criando uma nova identidade para cada novo ciclo, para cada nova estação ou temporada de concertos e shows. Chocou propositadamente  alguns segmentos da sociedade com as sequências altamente erotizadas de seus vídeos, das coreografias de seus shows, das letras de suas músicas, das fotos das centenas de editoriais e capas de revistas, tendo-se valido dos mais diversos aspectos fetichistas para estimular a imaginação de seus milhões de fãs, falando uma linguagem que não necessita de tradução: o sexo. Finalmente, mais madura, encarnou a personagem da mulher que é dona de si mesma, que sabe o que quer, que não depende de ninguém, que sabe como, onde e com quem encontrar seu prazer. Dona de seu corpo e de seu destino, Madonna é uma assumida Imperatriz

     Quando a carta da Imperatriz aparece numa jogada de tarot, dependendo da sua posição entre as demais cartas e do assunto abordado pelo consulente, ela pode significar, também, que é chegado um tempo na vida da pessoa em que ela está experimentando o mundo com bastante prazer, satisfação sensorial e de uma maneira maternal; pode ser a chegada de uma época de riqueza, de abundância, de saúde e de muita criatividade. Pode ser também o prenúncio de casamento ou de gravidez, de amor, de romance e de grande e satisfatória atividade sexual. Pode também significar uma grande paixão pela Natureza, pela vida ao ar livre, pelo campo, pelas plantas; uma consciência ecológica e uma tomada de atitudes que possam favorecer as condições de vida do planeta. É a gestação e o dar a luz a novas idéias e projetos, coisas que enriqueçam e tragam mais beleza para o mundo. É um aviso que o processo de maturação está se completando e que o momento da colheita está próximo.´Pode representar uma tomada de consciência do próprio feminino, do seu poder de sedução e da sua capacidade de realização.

     Pode, quando mal dignificada numa leitura, a carta desse Arcano representar desperdício de potencial, falta de criatividade; vaidade excessiva e gastos desnecessários. Pode estar alertando para problemas em relação à própria sexualidade, tais como frigidez, ninfomania, promiscuidade, esterilidade. Simboliza, negativamente, o bloqueio da paixão, seja emocional ou sexual, dificultando-lhe a auto-expressão. Pode também estar indicando problemas com a mãe do consulente, seja na forma de ressentimentos passados ou de carência afetiva; ou então o problema diz respeito à sua relação maternal com seus próprios filhos (se os tiver), por sentir-se distante deles naquele momento da vida.  Se, por exemplo, uma carta como o Eremita ou a Sacerdotisa (Papisa) aparecer próximo, pode estar sugerindo que este não é o momento adequado para o consulente envolver-se numa paixão, recomendando-lhe que talvez devesse retirar-se e concentrar-se em si mesmo.

     03-Major-Empress Nesta segunda-feira, a Lua está em Gêmeos e isso é indicação que haverá um possível aumento na nossa produção de idéias, de sugestões para novos projetos e atividades, ou seja, nossa criatividade estará em alta. Além disso, atividades como cinema, teatro, shows, exposições, visitas a museus e galerias são altamente recomendadas e provocarão um estímulo extra no nosso potencial criador. Não nos esqueçamos que estamos vivendo um ano que numerologicamente nos remete à Imperatriz, portanto suas energias deverão serem sentidas através de uma busca pela criação de algo belo, pela dedicação à uma causa humanitária, pelo trato amoroso dedicado à família e aos amigos, pelo cuidado e carinho com que administramos nossos relacionamentos. Além disso, cabalisticamente, a Imperatriz ocupa o 14º Caminho na Árvore da Vida, unindo Binah (Compreensão, Oceano da Inconsciência) a Chokmah (Sabedoria que domina o Zodíaco e todos os Mundos), que é chamado o Caminho da Inteligência Luminosa. A Imperatriz é, então, uma grande porta de entrada do Sol, um grande e fértil delta, o útero cósmico

     Tenham todos um excelente início de semana e lembrem-se que o Amor é o grande poder da Imperatriz. Nada resiste a ele. Tudo a ele se submete.

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)