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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A JUSTIÇA

 

Justiça é consciência.

Não uma consciência individual72PRJustice, mas a consciência de toda a humanidade.

Aqueles que claramente reconhecem a voz de suas consciências

frequentemente reconhecem a voz da Justiça.

 

 Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008)

 

 

 

O exercício do Equilíbrio no uso da Razão, em cartas criadas por diversos artistas.

 

Imagem: Robert M. Place

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Carta do Dia: 2 DE PAUS

Título Senhor do Domínio
Elemento Fogo
Arcanjo Ratzkiel
Nome Divino  Yahveh
Mundo Cabalístico Atziluth (mundo da emanação)
Sephirah Chokmah (Sabedoria)
Correspondência Astrológica Marte em Áries
Pedra Turquesa

  Wands02 (2)    Nosso amigo, dono de uma grande cadeia de churrascarias espalhadas em diversas capitais e em algumas grandes cidades brasileiras, recebeu um convite quase que irrecusável: o de expandir seu bem sucedido negócio além fronteiras, com um investimento de capital estrangeiro, na forma de sócios, e a abertura de filiais em diversos estados norte-americanos.

     “É a culminação de uma vida inteiramente devotada ao trabalho e aos mais altos critérios de qualidade de serviços”, lê-se, impresso, numa dessas revistas dedicadas à área financeira e dos negócios. Com certeza o jornalista estava correto em sua afirmação. Esse nosso amigo trabalhou a vida toda na construção desse império gastronômico, tendo começado, ainda muito jovem, a aprender as artes do ofício com seu pai, que tinha uma pequena churrascaria de beira de estrada no Sul do país.

     Agora, reconhecido nacionalmente como um grande empresário do setor, com uma numerosa família, recebe esse selo de aprovação internacional. De deixar qualquer um extremamente orgulhos, envaidecido mesmo, e causando inveja a muita gente, não é mesmo? Entretanto, não foi exatamente o que aconteceu com esse nosso amigo.

     Sua expressão sempre radiante, entusiasta, de alguém que retira sua própria energia dos labores do trabalho, tornou-se sombreada, como se um véu de preocupações insistisse em cobrir-lhe o eterno sorriso. Aos mais íntimos, em sua honesta simplicidade, confessava: “Será que eu devo? Será que não vai ser um passo largo demais para as minhas pernas? E, sócios?… puxa, nunca os tive! Logo agora, que tudo está pronto, evoluindo a contento… Pra que é que eu vou querer arranjar uma dor de cabeça?”

     Indiscutivelmente ele vivia um momento de 2 de Paus. Um momento de dúvidas que requer uma grande análise e reavaliação do caminho percorrido para ter-se uma idéia de como será o processo evolutivo. Existe, embutida nesta carta, um paradigma pelo fato que, por um cuidadoso planejamento e organização, foi alcançado um ponto onde confronta-se a sensação de plenitude fornecida pelo sucesso da ação (Paus = Fogo) e a sensação oposta,  de vazio, a desmotivação depois de atingida a meta. O 2 de Paus espelha as nossas vidas, pois vivendo-as ativamente conquistamos tudo o que desejamos mas… será que isso nos faz felizes? Acabam, por vezes, surgindo sentimentos ambíguos sobre o conteúdo das nossas vidas e que precisam serem resolvidos.

     Trabalhar e investir, por muitos anos, na tentativa de atingir um patamar muito alto, aquilo que muitas vezes chamamos de o “ápice da carreira” pode nos roubar a motivação quando o alcançamos. “Continuar daqui para onde mais?”. E é aqui, nesse ponto, que verificamos se fizemos realmente o “dever de casa”, isto é, se nossa evolução material, se a paixão que lhe dedicamos  foi idêntica à investida no âmbito espiritual. Estamos preparados, equilibrados, harmonizados para a colheita dos frutos? Estamos prontos para continuarmos em nosso caminhar? Consideramo-nos satisfeitos com o que temos e recompensados pelo nosso investimento?

     Esse fato é bastante comum quando os filhos crescem e saem de casa para construírem suas próprias vidas. Os anos de investimento para que eles crescessem preparados para o mundo, aptos a enfrentarem seus desafios e habilidosos o suficiente para evitarem maiores percalços; prontos para contribuírem com os seus semelhantes e com a preservação do planeta. Imbuídos de sólidos princípios éticos e morais, e no entanto, sem lhes roubar a individualidade, toda a formação que lhes foi dada será suficiente para que eles caminhem com suas próprias pernas? E, qual será agora a evolução do nosso papel, como pais?

     O 2 de Paus representa alguém que não confia tanto na sua intuição quanto ele pensa que o faz. Costuma ser uma pessoa que está acostumada a estar no comando, controlando a tudo e a todos e nunca se arriscaria a deixar alguma coisa à mercê da sorte. É alguém que não deposita a fé na sua intuição da forma  que ele gostaria de acreditar que tem. Para que a nossa intuição nos preste um serviço é necessário que a acatemos, ao invés de tentar governá-la.

     Essa carta, como todos as cartas de número 2, encontra-se na esfera (sephirath) de Chochmah no reino de Atziluth (o Mundo do Puro Espírito), e enquadra-se dentro da idéia de balanço, de equilíbrio. O significado de Chochmah é “sabedoria” e se refere a relacionamentos. Os 2, em seu melhor aspecto, refletem a sabedoria de estabelecer-se uma relação equilibrada entre as nossas naturezas espirituais e terrenas. Já nos acostumamos e tomamos como clichê a imagem do poderoso executivo, industrial ou banqueiro, cuja vida é um imenso vazio, o tão propalado “vazio existencial”. Da mesma forma, aquelas pessoas que pensam que, se forem espiritualmente corretos ou devotados o Universo irá prover-lhes de tudo, também estão em desiquilíbrio. Certamente o Universo irá prover, mas de que? O que o Universo pode lhes oferecer pode não ser o que eles querem. Vê-se nas ruas das cidades exemplos inúmeros de sonhos partidos e corpos sofridos, não obstante as elevadas intenções espirituais. Saber equilibrar é uma arte que promete grandes recompensas.

     Numa leitura de tarot, dependendo das cartas que a acompanham, da sua posição na jogada e da questão proposta pelo Consultante, o 2 de Paus pode simbolizar sucesso no plano mundano. Riquezas amealhadas com grande esforço. Projetos que se desenvolveram devido a uma vontade férrea. A sensação de orgulho pela posse. Uma personalidade dominadora (podendo ser, inclusive, o próprio }Consultante) que gosta de apreciar e de ter apreciado aquilo que conquistou. Ter alcançado seus objetivos através de coragem e perseverança. Pode também simbolizar parcerias e sociedades, além de comprometimentos; ter autoridade, poder de comando, chefia, controle e domínio; pontos de vistas diferente, debates.

     Mal posicionada essa carta nos remete à sinalizar a alguém que está insatisfeito, com medo de se arriscar ou de prosseguir. Pode significar também uma má parceria ou sociedade. Discussões e incapacidade de alargar a visão ou de reconhecer e acatar a opinião alheia também devem ser consideradas. Creio que o pior aspecto é aquele que nos remete à idéia de perder a fé em sua capacidade. O tédio que advém às conquistas. Há também um aspecto negativo que encontramos naquelas pessoas que continuam a agir de maneira bastante orgulhosa mesmo quando, por simples perda de autoconfiança, não conseguem terminar o que começaram. Problemas causados pela perda de confiança que os outros depositam em nós, em nossa capacidade, em nosso trabalho, também podem ser anunciados por esta carta, quando lida como “obstáculo”. Desistência, tristeza e depressão completam o quadro.

     Aproveite, nesta sexta-feira, dia regido pela gratificante Vênus, com a expansividade da Lua Nova em Touro, para meditar sobre o quão satisfeito com o que conseguiu até agora e como pretende evoluir. Considere se está utilizando plenamente a sua capacidade de liderança e a razão associada à sua intuição na condução de seus negócios, independente do tamanho dele, lembrando-se sempre que todos os nossos esforços e aquilo que adquirimos através deles só tem função se nos libertarem. Esse domínio, essa capacidade de liderança, é uma soberania, um estado de plenitude, de harmonia com o Divino (substitua pelo nome que melhor corresponda à sua descrição do que chamamos Deus) conquistada e administrada sem exércitos e nem munição.

     Sempre acreditando na sua intuição, tenham todos uma excelente sexta-feira!

Ilustração: TAROT DE DALI

sábado, 27 de março de 2010

Carta do Dia: A JUSTIÇA

Justiça      Voltando da minha caminhada matinal e parando no jornaleiro da esquina, não pude deixar de notar, num relance, que esse caso do julgamento do pai e da madrasta da menina que, supostamente, foi torturada e jogada da janela do apartamento onde morava, em São Paulo,  cobre a capa dos nossos periódicos. O jornaleiro, que é meu conhecido há anos, pergunta, pela enésima vez, minha opinião: “Mataram a filha ou não mataram?” Como ele bem sabe que eu não estava presente no local, desconheço qualquer um dos acusados ou mesmo a vítima e que, portanto, não posso testemunhar esclarecendo nada, creio que esteja confundindo tarólogo com vidente ou adivinho. Simpaticamente esquivo-me de responder qualquer coisa, digo que estou com muita pressa para chegar em casa e redigir esta postagem, e bato em retirada, com um calhamaço de material de leitura debaixo do braço, ouvindo-o repetir a mesma pergunta para pessoas muito mais sábias, portadoras de opiniões definitivas e conclusivas e de informações amealhadas sei lá eu onde.

     Agora que o esse infeliz e terrível evento chegou a julgamento  propriamente dito, somos novamente bombardeados, por todas as emissoras de TV, em todos os programas, a qualquer hora do dia, em edições extra, que fornecem material para conversas e apostas, suposições e certezas radicais. Não houve local onde eu tivesse estado nos últimos dias em que esse assunto, num determinado momento, não viesse à toda e inflamasse os ânimos. Muito natural pois duvido que haja alguém que fique indiferente à esse tipo de situação.

     Quando pensamos em Justiça é difícil não associarmos à idéia de crime e castigo, erro e punição, causa e efeito, aqui se faz e aqui se paga. E ela é tudo isso, e muito mais. É, sobretudo, a idéia de equilibrarmos os prós e os contras; de vermos, isentos de tendências, os dois lados de uma mesma questão; de investigarmos o que há por trás das ações cometidas e que as arrazoem. A Justiça, chamada “dos homens”, essa que tem tribunais, acusadores, defensores, juízes e testemunhas, é a física. Existe uma outra, espiritual, que faz parte da nossa alma, que regula as nossas atividades psíquicas, que nos equilibra interiormente, e é essa que, mais frequentemente, o Arcano VIII do tarot, simboliza.

      Métis engravidou de Zeus, mas o Oráculo predisse que essa criança iria ser mais poderosa do que ele. Para evitar esse confronto, ele Zeus engoliu Métis, fazendo com que a gestação ocorresse dentro dele, mais especificamente em sua cabeça. Chegado o momento do parto e sentindo fortíssimas dores na fronte, ele pede a Hefestos (Vulcano), o ferreiro divino, que lhe abra a fronte com um machado. Isso feito, de dentro da cabeça de Zeus surge adulta, altiva e armada, Palas Athena (Minerva). A jovem  pede ao pai que lhe permita permanecer virgem (palas) para sempre, pois só assim, longe das paixões, não se corromperia ou deixar-se-ia seduzir e perder a sua lógica, a sua razão. Essa deusa é um símbolo do combate pelo amor à verdade.

     Athena (Minerva) era irmã do solar Apolo, deus da harmonia em cujo templo, lia-se à entrada: “Conhece-te a ti mesmo”. O que isso significa? Que é necessário que reconheçamos nossas verdades, saibamos quem somos realmente e coloquemos às claras as nossas verdadeiras intenções. Devemos nos desmascarar frente a nós mesmos, não tentando encobrir nossos erros e defeitos, ou nossa índole, sob espessa camada de desculpas e justificativas vãs. Palas Athena  fazia-se acompanhar por uma coruja, ave noturna cuja cabeça gira 360º e os olhos devassam a mais densa escuridão garantindo que todos os detalhes, não importa o quão escondidos ou remotos possam estar, serão vistos, coletados e analisados. Um escudo, com a cabeça da Medusa incrustrada, fazia parte do figurino da deusa. Aí também reside uma mensagem pois, diante da Medusa, todos ficavam petrificados. Isso significa que somente aqueles cujas verdadeiras intensões não são motivadas por paixões, tendências ou teimosia, não ficarão paralisados de medo e horror. E, como se todo esse aparato não bastasse, Niké, a deusa alada da vitória, era sua companheira constante, como forma de reafirmar que a verdade sempre triunfa.

     Quando a carta da Justiça surge numa tiragem de tarot, dependendo do local onde ela ocupa e das demais cartas que a avizinham, além da questão proposta pelo consulente, pode significar que o consulente deve parar, dar um tempo e analisar friamente a situação antes de prosseguir; situações legais (jurídicas) podem acontecer na vida do consulente; leia e estude detalhadamente documentos, propostas e compromissos que tiver que assinar, dando seu parecer; tempo de ser honesto, responsável e justo; buscar seu centro físico, emocional e espiritual; prudência; procurar trilhar o caminho do meio, afastando-se das extremidades, dos 8 ou 800, dos excessos; é chegada a hora de colher o que foi semeado; justiça divina; tomada de consciência, agir embasado pela consciência; sabedoria; fidelidade no amor e nas amizades.

     Como todas as outras cartas do tarot, se mal dignificada numa leitura, pode estar alertando para o fato de perder uma ação legal nos tribunais; complicações que surgem devido a arbitragens incorretas; abuso do sistema legal; problemas prolongados nos relacionamentos; ficar aborrecido ao sentir-se avaliado; querer mudar o curso da ação para atrasar o processo de solução dos problemas; falso testemunho; ser injusto, intolerante ou abusivo; preconceito; fanatismo; amor platônico; infidelidade; frigidez; querer ser o dono da verdade e forçá-la, despoticamente, aos demais; indecisão, perfeccionismo e inadequação; excessos; complicações de todos os gêneros; azar; abuso do poder.

     Estejamos cônscios de que, não importa quem vença a batalha, é ele quem escreverá a história. Toda luta, toda guerra, toda batalha, inclusive as legais são, ao mesmo tempo, uma vitória e um massacre, dependendo apenas do ponto de vista de quem dela participa. A Justiça pode existir à luz de diferentes pontos de vista . O que nos parece injusto num determinado momento e sob uma certa ótica, pode ser assumido como algo bastante justo, com o passar do tempo. O que a carta da Justiça, no tarot, nos pede é que nos examinemos de forma lógica e bastante objetiva, que encontremos, em nós, a verdade e nada mais que a verdade, mesmo que a isso esteja condicionado o fato de termos de reconhecer que erramos e devemos corrigir o que fizemos.

     Como hoje é sábado, dia regido pelo controlador, porém sábio, Saturno, devemos assumir as nossas responsabilidades, perdoarmos as nossas fraquezas frente ao nosso próprio tribunal, e nos disciplinarmos em busca de uma maior harmonia, uma consolidação do nosso equilíbrio mental e espiritual. Que nossas ações e julgamentos sejam sempre feitos com sabedoria e amor, visando a harmonia e a cooperação favorecidas por Libra, signo desse Arcano.

     Fica, como tema para uma possível meditação, um pequeno conto sufi:

Certo dia, um juiz perguntou ao mestre Nasrudin:- Mestre, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?

- O dinheiro, é claro - respondeu Nasrudin, sem pestanejar.

- O quê! - disse o juiz. Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Podemos encontrá-lo por aí sem grandes dificuldades. Estou sinceramente espantado com a sua opção, Nasrudin. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!

- Meritíssimo, cada um deseja aquilo que mais lhe falta! - respondeu tranqüilamente o mestre Nasrudin.

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)