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sábado, 15 de maio de 2010

Carta do Dia: 3 DE ESPADAS

                                                         TIRESIAS

     “Digo-te, pois, já que ofendeste minha cegueira, - que tu tens os olhos abertos à luz, mas não enxergas teus males, ignorando quem és, o lugar onde estás, e quem é aquela com quem vives. Sabes tu, por acaso, de quem és filho? Sabes que és o maior inimigo dos teus, não só dos que já se encontram no Hades, como dos que ainda vivem na terra? Um dia virá, em que serás expulso desta cidade pelas maldições maternas e paternas. Vês agora tudo claramente, mas em breve cairá sobre ti a noite eterna.

     Que asilo encontrarás, que não ouça teus gemidos? Que recanto da terra não vibrará com tuas lamentações quando souberes em que funesto consórcio veio terminar tua antiga carreira? Tu não podes prever as misérias sem conta que te farão igual, na desdita, a teus filhos. E agora... podes lançar toda a infâmia sobre mim, e sobre Creonte, porque nenhum mortal, mais do que tu, sucumbirá ao peso de tamanhas desgraças!”


                                                           ÉDIPO
     “Quem poderá suportar palavras tais? Vai-te daqui, miserável!
Retira-te, e não voltes mais!”


                                                             ”Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

        Swords03 (5) Quando Creonte retorna de Delfos com a mensagem de que os deuses estavam punindo Tebas pelo fato da cidade estar abrigando o homem que matou Laio, seu antigo rei e primeiro marido de Jocasta, Édipo exige que esse assassino seja capturado. Como ninguém parece saber quem ele possa ser, manda chamar Tirésias, cego vidente para lhe dizer quem possa ser esse homem. Tirésias recusa-se e Édipo, o Rei, ameaça-o. Enfurecido com a ousadia e prepotência real, o adivinho lhe responde que o homem que ele tanto busca está ali mesmo. Que é ele, Édipo, o assassino de Laio e o causador das desgraças que se abateram sobre Tebas. Édipo, por sua vez, acusa-o de estar unido a Creonte, seu cunhado, num complô para desestabiliza-lo e roubarem dele o poder. Expulsa o velho cego da sua frente e Tirésias, enfurecido, lhe diz:

                                               TIRÉSIAS
     “Vou-me embora, sim; mas antes quero dizer o que me trouxe
aqui, sem temer tua cólera, porque não me podes fazer mal. Afirmo-te, pois: o homem que procuras há tanto tempo por meio de ameaçadoras proclamações, sobre a morte de Laio, ESTA AQUI! Passa por estrangeiro domiciliado, mas logo se verá que é tebano de nascimento, e ele não se alegrará com essa descoberta. Ele vê, mas tomar-se-á cego; é rico, e acabará mendigando; seus passos o levarão à terra do exílio, onde tateará o solo com seu bordão. Ver-se-á, também, que ele é, ao mesmo tempo, irmão e pai de seus filhos, e filho e esposo da mulher que lhe deu a vida; e que profanou o leito de seu pai, a quem matara. Vai, Édipo! Pensa sobre tudo isso em teu palácio; se me convenceres de que minto, podes, então, declarar que não tenho nenhuma inspiração profética.”

     A essência das cartas do Naipe de Espadas é a dor que advém do fato de se encarar a verdade e, com isso, avançar no crescimento pessoal. Não é de se estranhar, então, que se considerarmos alguns aspectos religiosos que ao definirem nossa passagem por esta existência afirmam que nascemos neste “vale de lágrimas”, o 3 de Espadas é a quintessência do Naipe. Essa carta sugere problemas e dificuldades em quase todos os aspectos da vida.

     Para compreendermos melhor o aspecto positivo do 3 de Espadas é necessário que raciocinemos a respeito do que Espadas realmente significam, qual o seu propósito: O que é dor e para que serve? Como devemos lidar com as nossas angústias, nossas aflições, nosso desespero, nossas frustrações? Qual é a mais apropriada reação ao sofrimento?

     Quando surge a dor é também tempo de afligir-se, de lastimar-se, de lamentar. E o que é mais fascinante é que quando paramos de negar a dor, de recusar-nos a vê-la e vivenciá-la, de resistir a ela, quando permitimos que ela nos tome de assalto o coração, ela nunca vem sozinha. Alguma coisa sempre a acompanha. Algumas vezes é uma sensação de paz e de fé, de amor e de esperança. Uma sensação da Divina presença. A pior parte da experiência de vivenciar a dor é resistir a ela. Enquanto lutamos contra ela, só a tornamos mais forte, mais cruel e poderosa. Quando nos entregamos, quando decidimos aceitá-la como parte de estarmos vivos e do equilíbrio natural entre todos os aspectos que precisamos vivenciar em nossa evolução, algo acaba sendo liberado. provavelmente o pânico, o medo que sentimos em não conseguir continuar. O sofrimento, as feridas causadas pela dor acabam sendo limpas pelas nossas lágrimas, pelo sangue que escorre das nossas mágoas. Nada supura, nada estagna ou apodrece, tudo se limpa. Dói muito, e continua a doer bastante. Dói sem parar. E então… cicatriza.

     Não há como evitar a dor, nem há como ignorá-la ou adiá-la. Ela estará sempre lá, esperando por nós. O tempo não a dissolve. É a nossa forma de encará-la, de lidar com ela, de deixar que ela invada o nosso coração e promova a mudança da qual ela é o agente, só assim ela terá alguma razão de ter existido. É para isso que a dor serve: para nos transformar. Subitamente não somos mais as mesmas pessoas que éramos. Aceitando a dor, não nos tornamos amargos, cínicos, indiferentes ou duros. Nos tornamos sábios. O 3 de Espadas pode, então, ser visto como o cumprimento, a compleição, a realização, a verdadeira essência do Naipe de Espadas porque ele subentende a complacência, a coragem, a boa vontade, a honestidade de permitir-se vivenciar as dores, as perdas, os sacrifícios que naturalmente surgem em nossas vidas.

     Quando o 3 de Espadas aparece numa leitura de tarot, levando-se sempre em consideração a questão proposta pelo Consultante, as demais cartas que o acompanham na jogada e suas posições na disposição escolhida, essa carta pode simbolizar sofrimento emocional, amor não correspondido, interrupção de uma relação afetiva. Mágoas. Ressentimentos. Situações que ainda estão em andamento, que ainda não se completaram (faltam ainda mais 7 cartas para completar o Naipe). O Consulente pode estar passando por um momento de alta emotividade, de dor, de dificuldades, mas ele não está isolado e nem mesmo ele está acomodado à situação. Ele se move. Não é hora dele esconder seus verdadeiros sentimentos, mas também não deve usá-los para magoar os outros. O Consultante deve estar atento para não usar a espada para abrir velhas feridas. É sempre bom lembrar que o coração reina supremo. Quaisquer sejam os problemas que o Consultante possa estar vivendo, ele será capaz de resolvê-los com as armas da mente e com os olhos do amor. O coração e a espada devem relacionar-se bem e isso significa, também, amor pela verdade e pela honestidade. É hora de iluminar as memórias e clarear as expectativas, sem medo de encarar algumas verdades mais dolorosas. Todos os ferimentos se cicatrizam se não os ignorarmos e cuidarmos deles.

     Neste sábado, sob a influência de Saturno, o persistente, o disciplinador patrono do dia, a carta do 3 de Espadas nos recomenda não desistirmos facilmente. Que devemos arriscar sermos mais honestos e autênticos conosco e com as outras pessoas. É um bom momento para abandonarmos o preconceito, a pretensão e as limitações, permitindo-nos sentir o coração elevar-se e voar livremente.

     Tenham todos um ensolarado fim de semana! 

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassos

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Carta do Dia: ÁS DE ESPADAS

 36-Minor-Swords-Ace-newage     Durante muitos anos me senti frustrado nas minhas tentativas de meditação, sozinho ou acompanhado de um mestre, porque nunca conseguia atingir aquilo que sempre me pareceu o propósito mais básico dessa prática: o silenciar da mente. Um estado que, para mim, era de um absoluto vazio, um não pensar total, uma total ausência de formas, cores, ausência de lembranças, paralisia completa. Quanto mais eu tentava esse vazio absoluto, mais minha mente me atormentava com verdadeiros tsunamis de pensamentos desconexos. Frustração total.

     Como alguém controla a sua mente? Como alguém controla o inexorável fluxo de pensamentos? Como você decide o ritmo ou as condições do que pensar, se a simples opção por uma forma de pensamento já significa a construção mental daquela que lhe opõe?

     O Ar é elemento que associado ao raciocínio, às elaborações que a nossa mente cria, surgindo do nada, impalpável, às vezes brisa suave, nos transportando a lembranças alegres, a projeções de sonhos a serem um dia realizados. Noutras, verdadeiros tornados, nos trazendo fortes e arrasadoras emoções e reações, momentos obsessivos, raiva incontida. Tudo isso criado nesses poucos centímetros cúbicos que abrigam nossa mente de dimensões universais.

     O Ás de Espadas, como todos os ases, significa começo. É sempre o símbolo de uma idéia que parece surgir do nada, do Grande Vazio, e que, dada a devida atenção e circunstâncias favoráveis, poderá se desenvolver num plano completo e perfeitamente realizável. O pensamento é um poder, uma primeira elaboração de um desejo concretizável. Digamos ser ele uma maquete invisível de algo que queremos, desejamos, temos vontade ou, mesmo, tememos, venha a se realizar. Não é um fim e sim mesmo, mas o germinal de algo extremamente poderoso.

     Vivemos a energia dessa carta quando temos uma boa idéia, quando idealizamos algo ou inventamos uma nova forma de lidar com alguma situação. A dona de casa que cria uma nova receita, o aluno que escreve de maneira sensível e coerente uma redação escolar, o artista que depois de horas de considerações refinando uma idéia, opta por uma combinação de cores, um tipo de técnica e executa um trabalho artístico de valor. Quando, depois de longos meses consultando diversos prospectos de viagens optamos por uma que venha a suprir ao máximo os nossos interesses, ou mesmo quando agimos com justiça, honestidade e clareza ao resolvermos uma pendência legal, na elaboração de um contrato, numa partilha de bens.

     O símbolo da Carta do Dia é, hoje, a espada, com seus dois gumes, a nos lembrar que os nossos pensamentos, a nossa razão, nossa lógica, nossa inteligência pode ser usada tanto para o bem (paz) ou para o mal (sofrimento). Faltando uma dose de intuição à lógica ela pode acabar distanciando-se da realidade, e com isso nos levando pelos caminhos da pura fantasia obsessiva, das confusões mentais, da ansiedade, raiva, negatividade. Se lhe faltar compaixão, estaremos lidando com uma força altamente destrutiva, arrogante, juiz e carrasco numa só pessoa. As cartas do naipe de Espadas nos remetem, quase sempre, à idéia de conflitos, até mesmo porque nossa mente é um grande campo de batalha, um grande laboratório onde idéias são testadas, onde dúvidas, anseios, esperanças e desilusões são vividos em pé de igualdade. Onde novas idéias chocam-se com outras mais antigas e, até que essa energia transformadora se manifeste, maiores ou menores lutas são travadas.

     Num sentido simplesmente de predições, o aparecimento do Ás de Espadas, dependendo de sua localização e das cartas que o acompanham, pode também significar, ferimentos, cirurgias, internações hospitalares, estados depressivos, esgotamento nervoso, autoridade, busca da verdade, facilidade de comunicação. Aliás, vemos na comunicação o uso mais concreto da energia de Espadas, especialmente quando sabemos que as palavras ferem muitas vezes mais intensamente que as ações. Fofocas, malidicências, mentiras, sugestões inapropriadas podem ser, literalmente, fatais, acabando com relacionamentos, carreiras e, até mesmo, a própria vida. Por outro lado, lembremos sempre da frase que inicia o Gênesis: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus”. Deus, o Criador, como palavra (Logos = a palavra de Deus). A palavra, expressão de uma atividade inteligente, tem o poder de criar, de dar forma e sentido. De trazer luz ao caos.

     Voltando ao início deste texto, devo dizer que hoje, com muitos anos de prática continuada, eu entendo que meditar não é fechar uma torneira ou estancar um rio de pensamentos e idéias, mas deixá-los fluir livremente, sem apego, sem análise, sem utilizar aquele tempo para desenvolver novas idéias ou debater antigas. Deixar as imagens passarem, como num filme que você assiste na TV, mas sem estar prestando a mínima atenção.  É manter a mente em estado de alerta, mas silenciosa, procurando nessa não-discussão, nessa aceitação, nesse desapego, procurar compreender o que eu realmente quero da vida, educando-a a ser mais receptiva, mais contemplativa, sem cair no fácil engôdo das ilusões ou alucinações.

     Hoje promete ser um dia para deixarmos de lado o medo do novo, experimentando novos caminhos, outras maneiras de realizarmos determinadas funções, procurando sermos claros em nossos pensamentos, analisando ambos os lados de uma mesma situação e, melhor ainda, dividindo-a em partes para examinarmos cada aspecto com bastante lógica. Mas, tudo isso, sem perder contato com a nossa emoção, com a nossa intuição, com os nossos sentimentos. E, se uma frase bastante conhecida pode ser relida sob uma nova luz, aqui vai:

“Hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas”.   Ernesto “Che” Guevara

     Tenham um excelente dia e início de final de semana.

Ilustração: NEW AGE TAROT