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sábado, 22 de maio de 2010

Carta do Dia: 10 DE ESPADAS

                                                      ÉDIPO
     “… Mas ninguém mais me arrancou os olhos; fui eu mesmo!”
      “Desgraçado de mim! Para que ver, se já não poderia ver mais nada que fosse agradável a meus olhos?”
                                                  CORIFEU
     “Realmente! É como dizes!”
                                                     ÉDIPO
     “Que mais posso eu contemplar, ou amar na vida? Que palavra
poderei ouvir com prazer? Oh! Levai-me para longe daqui, levai-me depressa para bem longe. Eu sou um réprobo, um maldito, a criatura mais odiada pelos deuses, entre os mortais!”

                                       ……………………………

     “…..por que mostraste um dia um pai irmão de seus filhos, filhos irmãos de seu pai, e uma esposa que era também mãe de seu marido?! Quanta torpeza pôde ocorrer entre criaturas humanas! Vamos! Não fica bem relembrar o que é hediondo fazer-se; apressai-vos - pelos deuses! –em esconder-me longe daqui, seja onde for! Matai-me, atirai-me ao mar, ou num abismo onde ninguém mais me veja! Aproximai-vos: não vos envergonheis de tocar num miserável; crede, e não temais; minha desgraça é tamanha, que ninguém mais, a não ser eu, pode sequer imaginá-la!”

                         ………………………………………………….

                                                    CORIFEU
     “Habitantes de Tebas, minha Pátria! Vede este Édipo, que decifrou os famosos enigmas! Deste homem, tão poderoso, quem não sentirá inveja? No entanto, em que torrente de desgraças se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida.”

Édipo e Corifeu, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords10 (5) Se me perguntarem qual é o lado positivo do 10 de Espadas, creio que diria ser o fato que pior do que está não pode ficar. Chegamos ao fundo do poço. Descemos ao mais profundo da miséria humana. Chegamos ao limite das nossas forças. Mais não poderemos suportar. Então, o que nos resta fazer? Eu diria que a solução viável é firmar bem os pés no chão e utilizar a realidade como mola propulsora para nos reerguermos.

     Algumas pessoas têm grande dificuldade de ultrapassarem a barreira do 9 de Espadas. Só quando reconhecemos que chegamos ao limite e aceitamos o fato, sem ficarmos inventando desculpas do gênero “eu sou assim mesmo”, “eu nunca vou conseguir”, “não posso acreditar que tenha acabado”, eu não vou deixar isso acabar assim não”, “não é tão ruim como parece”, só mesmo quando aceitarmos o fato de que não há mais nada, naquela situação, pelo que lutar, é que vamos conseguir nos libertar da âncora que nos arrasta ao fundo do oceano e tomar impulso para emergirmos novamente.

     As cartas numeradas com o valor 10 encontram-se na base da Árvore da Vida cabalística, numa Sephirah (esfera) denominada Malkuth, ou o Reino. Malkuth é o plano terreno, o planeta Terra, nosso mundo, nossa realidade. O 10 de Espadas, como as demais cartas desse valor, representa o fim de um ciclo, mas não o nosso fim. Como a seiva de uma árvore, nós continuaremos a circular, pois os caminhos da Árvore da Vida tanto são ascendentes como descendentes. A cada ciclo nós nos renovamos, acumulando experiências que nos servirão na vivência de outros, e outros, e outros ciclos mais.

     A trágica história do rei Édipo chega ao seu final. Ele, cego, pede para Creonte, seu tio e cunhado, para ser banido de Tebas. Implora para ir para o monte Citerão, local onde, ainda bebê, havia sido abandonado, pois crê que deve ser lá o local onde deverá aguardar a morte, aquela que não aconteceu quando seus pais o quiseram:

     “Quanto a mim, não queiras que a cidade de meu pai me tenha como habitante, enquanto eu vivo for; ao contrário, deixa-me ir para as montanhas, para o Citéron, minha triste pátria, que meus genitores escolheram para meu túmulo, para que eu morra por lá, como eles queriam que eu morresse. Aliás, eu bem compreendo, que não será por doença, ou coisa semelhante, que terminarei meus dias; nunca foi alguém salvo da morte, senão para que tenha qualquer fim atroz.”

     Pede que Creonte enterre Jocasta e lastima a sorte dos filhos, que sofrerão o desprezo de todos, especialmente as filhas, Antígona e Ismênia:

    “… E quando atingirdes a idade florida do casamento, quem será... sim! - quem será bastante corajoso para receber todos os insultos, que serão um eterno flagelo para vós, e para vossa prole? Que mais falta para vossa infelicidade? Vosso pai? Mas ele matou seu pai, casou-se com sua mãe, e desse consórcio é que vós nascestes. Eis as injúrias com que vos perseguirão...
Quem vos quererá por esposa? Ninguém! Ninguém, minhas filhas!
Tereis de viver na solidão e na esterilidade…”

     Pede, finalmente, que Creonte permita que ele se faça acompanhar, no exílio, pelos filhos, para que lhe sirvam de guia e de consolo, obtendo do tio e cunhado a seguinte observação:

                                                  CREONTE
     “Não queiras satisfazer todas as tuas vontades, Édipo! Bem sabes que tuas vitórias anteriores não te asseguraram a felicidade na vida!”

     Com essa frase, Sófocles, há 2.500 anos, demonstrou seu conhecimento sobre a chamada Roda do Destino, onde as posições se alternam à medida que a roda gira e onde o único lugar de estabilidade e paz (nirvana) é o centro da mesma. As vitórias anteriores (derrotar a Esfinge) não garantiram a Édipo a permanência do seu status, a continuidade da sua glória, o equilíbrio do seu raciocínio, a harmonia das suas emoções.

     O surgimento de um 10 de Espadas numa leitura de tarot, sempre levando-se em consideração a sua posição na jogada, bem como as das demais cartas, e a questão proposta pelo Consultante, pode simbolizar um momento de azar e de sofrimento. Um aviso de que a situação está para explodir sob seus pés. Medos, paranóia e pessimismo. Pesar, dor. O Consultante pode estar empregando muita energia com pensamentos destrutivos, ou mesmo, criando sua própria derrota. Reagir de maneira exagerada, extremamente dramática e muito teatral a uma situação. Um relacionamento que termina subitamente. Problemas a serem enfrentados em todas as áreas. As coisas caminham para o pior. Uma sequência de doenças inesperadas. O fim dos sonhos e das esperanças.

     Apesar de seu aspecto extremamente negativo, essa carta também pode, em determinadas situações, simbolizar o fim dos tempos difíceis, com a situação melhorando um pouco. Um sucesso temporário. Um favor recebido. O Consultante começa, vagarosamente, a sentir-se mais confiante e recomeça a sua caminhada para recuperar a força interior perdida, utilizando-se para tanto, o que aprendeu com os episódios passados. O Consultante pode ter uma pequena iluminação, uma breve revelação sobre o problema, que o ajudará a recomeçar. Pode significar uma significativa recuperação de problemas causados por terceiros. O pior já aconteceu, e para continuar o Consultante deve aceitar a sua dor, tendo o tempo como aliado em sua cura. Tal como um pássaro que sai da casca do ovo, o Consultante ainda tem que aprender (ou reaprender) a voar.

     Neste sábado, com Saturno como regente do dia e a Lua em Libra, é aconselhável que não nos envolvamos em confrontações de nenhuma espécie. Manter uma disposição mental bastante alerta e receptiva, cuidando para não cultivar pensamentos, definições ou decisões negativas, irreais ou precipitadas, conservar uma atitude equilibrada, harmoniosa, pacífica e bastante diplomática, só pode trazer benefícios, hoje e em qualquer outro dia das nossas vidas. Abra-se para o fluxo da vida e sinta a sua seiva percorrer o seu corpo!

     Um ótimo e muito esperançoso final de semana para todos!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Carta do Dia: 7 DE ESPADAS

                                                        ÉDIPO
     (A Jocasta.) “Senhora, acreditas que o homem a quem mandamos há pouco chamar, seja o mesmo a quem este mensageiro se refere?”
                                                     JOCASTA
     “De quem te falou ele? Ora... não penses nisso; o que ele diz não tem importância alguma.”
                                                       ÉDIPO
     “É impossível que com tais indícios eu não descubra, afinal, a verdade acerca de meu nascimento.”
                                                     JOCASTA
     “Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação. (À parte.) Já é bastante o que eu sei para me torturar.”
                                                      ÉDIPO
     “Tranqüiliza-te! Mesmo que eu tivesse sido escravo desde três gerações, tu não serás humilhada por isso!”
                                                   JOCASTA
     “Não importa! Escuta-me! Eu te suplico! Não insistas nessa indagação!”
                                                      ÉDIPO
     “Em caso algum desistirei de elucidar esse mistério.”
                                                   JOCASTA
     “No entanto, é para teu bem que assim te aconselho.”

                                                       ÉDIPO
     “Acredito... mas esses conselhos teus há muito me importunam!”
                                                   JOCASTA
     “Infeliz! Tomara que tu jamais venhas a saber quem és!”

Édipo e Jocasta, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

    Swords07 (5) Um dos pontos altos da peça “Édipo Rei” é o momento em que Édipo manda buscar o Pastor a quem ele fora entregue, recém-nascido, para ser abandonado no campo, para morrer e assim não cumprir a profecia do Oráculo de Delfos que havia avisado a Laio e Jocasta, seus pais, que um dia o filho mataria o Rei e desposaria a Rainha, sua mãe.

     Édipo percebe que será o depoimento daquele pastor que elucidará os fatos e, principalmente, fará com que ele finalmente compreenda a sua origem. Jocasta, sua esposa e mãe biológica (fato que Édipo ainda não sabe), já consciente da tragédia que estão vivendo, tendo juntado as informações e percebido a terrível verdade que se escondera por tantos anos e que agora, tal qual uma espada, pende sobre suas cabeças, faz o possível para convencer o esposo (e filho) a desistir de seu intento de descobrir a verdade. Sabe que o pastor a quem ela entregara o seu filho para que fosse abandonado à própria sorte, irá fornecer a Édipo subsídios suficientes para que ele solucione a sua crise de identidade. Além disso, ela teme a reação de seu filho e consorte ao saber que ele assassinara o próprio pai e vive como marido e mulher com sua mãe. Ela, agindo mais maternalmente do que como esposa, quer evitar a ele tal sofrimento. Quer evitar que ele saiba que foi mandado à morte, ainda bebê, por ela e por seu pai, Laio. Quer impedir que a verdade venha à tona, porque bem sabe as consequências dessa descoberta. Édipo recusa-se a ouvi-la e, inclusive, acusa-a de dar-lhe conselhos equivocados e, com isso, subtraindo dele a possibilidade de conhecer a sua própria verdade.

     Quando um 7 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que o acompanham, além da questão formulada pelo Consultante, pode simbolizar que, ainda que o Consultante esteja se esforçando, ele não está chegando a nenhum resultado, além de existir uma sensação de que não importa o que ele faça ou deixe de fazer, ele não obtém resultados. Pode ser que o Consultante queira fazer uma mudança em sua vida, mudando-a para melhor, ou mesmo, saber qual é o seu lugar, a sua posição na situação que possa estar vivenciando. Sentir-se inseguro, pessimista ou inquieto em relação aos seus propósitos de vida. Sentir-se deprimido pela sua falta de habilidades, de utilidade. Sente-se dispensável. Sentir-se vivendo uma situação misteriosa. Sentir-se traído. Ser roubado, seja material ou intelectualmente. Também uma mudança física, de residência, de cidade, de estado pode ser considerada.

     Num aspecto positivo, o 7 de Espadas, sempre dependendo da sua posição na jogada, pode significar que o Consultante está se permitindo pensar mais claramente, mais realisticamente, a respeito da situação que está vivendo. Começar novos planos, sentindo que existe um novo propósito em sua vida. Procurar conselho e optar por modificar a vida para melhor. Sentir-se bem consigo mesmo. O mistério que pairava sobre determinada situação começa a se dissipar. O Consultante sente-se, novamente, inteiro, com uma mente aguçada e ágil. As pessoas passam a considera-lo como indispensável.

     Nesta quarta-feira, sob a regência de Mercúrio e com a Lua Nova em Leão, poderíamos usar o conselho expresso pelo 7 de Espadas de encerrarmos velhas lutas, antigos argumentos, discussões ultrapassadas, desavenças mesquinhas. É uma ótima ocasião para afugentarmos os fantasmas do passado, de uma vez para sempre. Tempo de dizer adeus a ambições e objetivos que já não representam mais nada em nossas vidas e prestar mais atenção aos nossos sonhos, nossas intuições, nossa voz interior.

     Que o dia de hoje traga o abandono de velhos hábitos que são nocivos ao nosso estágio de desenvolvimento atual e nos libere para alçarmos vôos mais altos. Tenham todos um ótimo dia!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

terça-feira, 18 de maio de 2010

Carta do Dia: 6 DE ESPADAS

                                      JOCASTA
     “…Mas dize por que vieste, e que notícias nos queres anunciar.”
                                   MENSAGEIRO
     “Coisas favoráveis para tua casa, e teu marido, senhora.”
                                     JOCASTA
     “De que se trata? De onde vens tu?”
                                   MENSAGEIRO
     “De Corinto. A notícia que te trago ser-te-á muito agradável; sem dúvida que o será; mas pode também causar-te alguma contrariedade.
                                    JOCASTA
     “Mas que notícia será essa, que produz, assim, um duplo efeito?”
                                  MENSAGEIRO
     “Os cidadãos do Istmo resolveram aclamar rei a Édipo, segundo
dizem todos.”
                                    JOCASTA
     “Quê? O venerando Políbio já não exerce o poder?”
                                  MENSAGEIRO
     “Não... A morte levou-o à sepultura.”
                                    JOCASTA
      “Que dizes tu? Morreu Políbio?”
                                  MENSAGEIRO
     “Que eu pereça já, se não for a pura verdade!”

                 …………………………………………………….

                                       ÉDIPO
     “Ora eis aí, minha mulher! Para que, pois, dar tanta atenção ao solar de Delfos, e aos gritos das aves no ar? Conforme o oráculo, eu devia matar meu pai; ei-lo já morto, e sepultado, estando eu aqui, sem ter sequer tocado numa espada... A não ser que ele tenha morrido de desgosto, por minha ausência... caso único em que eu seria o causador de sua morte! Morrendo, levou Políbio consigo o prestígio dos oráculos; sim! os oráculos já não têm valor algum!”
                                   JOCASTA
     “E não era isso o que eu dizia, desde muito tempo?”
                                      ÉDIPO
     “Sim; é a verdade; mas o medo me apavorava.”
                                  JOCASTA
     “Doravante não lhes daremos mais atenção.”

Mensageiro, Jocasta e Édipo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords06 (5) Sófocles, há aproximadamente 2.500 anos, ao criar essa obra-prima da literatura mundial, esse magnífico exemplo de peça teatral, utilizou-se de todos os recursos para dar veracidade ao drama que queria retratar.

     Se olharmos “Édipo Rei” como uma peça sobre parricídio e incesto, estaremos fazendo uma leitura bastante superficial de todos os conflitos da alma humana apreendidos pelo sábio escritor em seu texto. Édipo é um homem com todos as virtudes e pecados, com todos os vícios e angústias, com todos os medos e egolatria que iremos encontrar na humanidade, de forma geral, em qualquer tempo. A maneira com que ele procura esquivar-se da verdade, ainda que, técnicamente a busque, é impressionante.

     A chegada do Mensageiro, vindo de Corinto com a notícia que seu pais (que era adotivo) havia falecido é o bastante para que ele acredite que o Oráculo de Delfos estivesse enganado a seu respeito. Imediatamente, ao ouvir a notícia ele desacredita as mensagens das pitonisas do célebre templo de Apolo, recebidas anos antes, que diziam que ele mataria seu pai e casar-se-ia com a própria mãe. Na época, fugiu, para evitar que a profecia se cumprisse e que ele viesse a assassinar o Rei Políbio, de Corinto, e casar-se com a Rainha Mérope, que acreditava ser sua verdadeira mãe. Nessa fuga, tomando rumo de Tebas, cruza com o Rei Laio, que era seu pai verdadeiro, e, numa discussão tola, mata-o, vindo, depois, desposar sua mãe biológica, a Rainha Jocasta, com quem teve 3 filhos.

     A notícia que o Mensageiro traz é o suficiente para que ele busque, desesperadamente, livrar-se de uma carga de culpa, de um medo que lhe é imenso de tornar-se assassino do homem que ama como pai e desposar a própria mãe. Esse conflito já é o bastante para que sua mente esteja obscurecida por confusos pensamentos. A notícia é uma esperança, uma porta de saída para uma situação. Uma possibilidade de mudança, de alteração dos fatos. O que ele ainda não sabe é que essa súbita reviravolta na história trará consigo ainda maiores angústias. Essa travessia que Édipo procura fazer, utilizando a notícia da morte por causas naturais de Políbio, não será tão tranquila quanto ele espera. Na margem oposta dessa pretensa passagem para dias melhores,  aguardam-lhe novidades que irão aumentar ainda mais a sua confusão mental e obscurecerão ainda mais a sua alma.

                                               MENSAGEIRO
     “Podes revelar-me esse oráculo, ou é vedado a outros conhecê-lo?”
                                                     ÉDIPO
     “Pois vais saber: Apolo disse um dia que eu me casaria com minha própria mãe, e derramaria o sangue de meu pai. Eis aí por que resolvi, muitos anos, viver longe de Corinto...”

                                             MENSAGEIRO
     “E foi por causa desses receios que te exilaste de lá?”
                                                   ÉDIPO
     “Também porque não queria ser o assassino de meu pai, ó velho!”
                                            MENSAGEIRO
     “Oh! Por que não te livrei eu de tais cuidados, eu, que sempre te quis bem?”

                                 …………………………………………..

                                           MENSAGEIRO
     “Sabes, por acaso, que esse receio absolutamente não se justifica?”
                                                ÉDIPO
     “Como não? Pois se eles foram meus progenitores...”
                                          MENSAGEIRO
     “Políbio nenhum parentesco de sangue tinha contigo!”
                                              ÉDIPO
     “Que dizes?!... Políbio não era meu pai?”

     Após um momento em que, acreditando que o Oráculo estivesse errado e que ele nada devesse temer, Édipo é confrontado com mais uma das peças do grande quebra-cabeças que ele precisa montar para saber exatamente quem é. Ao tomar conhecimento que o Rei cretense não era seu pai, ele perde a única fonte de identidade que conhecia até então. Quem é ele? De onde ele vem? A que está predestinado?  Convenhamos que essas são questões básicas que lidamos no curso de nossas vidas, e não são apenas recursos teatrais para nos manter interessados na história. Quem nunca se questionou qual a sua real função neste plano de vida? Se é, ou não, um joguete de um destino que pode ser, em alguns casos bastante cruel. O quanto de livre-arbítrio realmente possuímos e o que essa nossa capacidade de fazer determinadas escolhas pode, ou não, alterar um destino que pode ser (ou não) imutável. O quanto nos conduzimos e o quanto somos conduzidos por forças muito mais poderosas e arcaicas?

     Quando um 6 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que a acompanham, além da questão proposta pelo Consultante, pode significar que se ele irá ou não adiante com a situação que está vivendo naquele momento irá depender inteiramente da sua clareza mental e disposição para enfrentar desafios e encarar a verdade dos fatos. Pensamentos confusos, truncados, são como bagagens inúteis, pesos mortos,  que transportamos a cada porto da nossa vida. De nada nos servem. Quando abrimos nossos olhos e nossa mente, estabelecemos contato com a realidade, colocamos os pés no chão, conseguimos separar os eventos, os fatos, as pequenas peças que constituem o todo e analisa-las individualmente, conhecendo-as bem, não nos esquivando da dor ou do prazer que elas possam nos proporcionar. Assim sendo, tendo uma visão clara do conjunto e dos horizontes e caminhos disponíveis, estamos novamente prontos para assumirmos o leme desse barco que poderá nos conduzir, ainda que por águas turvas e agitadas, mas em segurança para uma margem mais ensolarada.

     O aparecimento do 6 de Espadas é um lembrete para que sejamos fiéis a nós mesmos e corretos em nossa conduta. Para que usemos a nossa flexibilidade mental, ainda que dentro de uma situação bastante difícil ou conflitante, para que possamos encontrar o que nos motiva, o que nos faz seguir adiante. É importante, também, que nos lembremos que a maneira com a qual comunicamos nossos desejos, nossas intenções, nossas dúvidas, angústias, medos, ou emoções é fundamental para que possamos compartilhar e, assim, diminuir nossa carga. O 6 de Espadas simboliza um “dar as costas” para o passado, em busca de um futuro melhor. Mas o passado não é uma mancha que possa ser lavada das mãos. Enquanto o Consulente não o enfrentar corajosamente e procurar aceitá-lo e, se for o caso, resolve-lo, ele acompanhará, como peso extra na bagagem que carregará para qualquer seja o futuro que pretenda que lhe aconteça.

     Édipo está num barco à deriva. Supostamente abandonou seus velhos temores, descartando a mensagem oracular recebida muitos anos antes, mas também não sabe o que lhe aguarda à frente. A notícia de que Políbio não era seu progenitor, destrói sua teoria de que a pitonisa do Templo de Apolo, em Delfos, enganara-se ao prever que ele o mataria. Políbio morrera de causas naturais e não pela sua espada… mas não era seu pai. A possibilidade do Oráculo estar certo ainda perdura.

     O dia de hoje, no antigo calendário romano, era consagrado a Apolo, que representava o Sol e era o inventor da música, das artes e da adivinhação. Seu templo, em Delfos, era local de peregrinação e até hoje estuda-se, geologicamente, as possíveis influências de gases emanados do interior da terra na indução ao transe das pitonisas residentes. A palavra “oráculo” significa “comunicação divina” ou “aquele que fala em lugar de deus”. Talvez fosse interessante, nesta data, meditarmos e procurarmos ouvir a nossa voz interior, a fala da nossa intuição, e nos permitirmos estabelecer uma comunicação com o Divino que nos habita. Usemos, como exemplo, a figura do sábio, e cego, Tirésias, o vidente de “Édipo Rei”, que, na sua cegueira física, conseguia enxergar muito mais do que aqueles que tinham seus olhos voltados apenas para o exterior. Olhar para dentro de nós mesmo é necessário. Os gregos tinham um nome para pessoas como Tirésias: enthousiasmós (entusiasmo), ou seja, aquele que tem Deus dentro de si. Busquemos esse entusiasmo dentro de nossas almas.

     Tenham todos uma excelente e transformadora terça-feira!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Carta do Dia: 5 DE ESPADAS

                                          CREONTE
     “Cidadãos! Acabo de saber que Édipo formulou contra mim gravíssimas acusações, que eu não posso admitir! Aqui estou para me defender!
Se, no meio da desgraça que nos aflige, ele supõe que eu o tenha
atacado, por palavras ou atos, não quero permanecer sob o vexame de semelhante suspeita, pois para mim isso não seria ofensa de somenos valor, mas sim uma profunda injúria, qual a de ser por vós, e por meus amigos, considerado um traidor!”
                                           CORIFEU
     “Talvez essa acusação injuriosa lhe tenha sido ditada pela cólera momentânea, e não pela reflexão.”

Creonte e Corifeu em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

    Swords05 (5) O 5 de Espadas é considerada por muitos uma das cartas mais cruéis do tarot, senão a mais difícil de ser interpretada. Ela indica derrota, incapacidade, perda, abatimento, ser vencido. Quando ela surge numa leitura, sempre dependendo, logicamente, do assunto proposto pelo Consultante e pelas demais cartas e suas disposições, pode indicar que o Consultante acredita que será derrotado em algum de seus projetos ou expectativas. É sintoma de pensamentos negativos, de ser dominado, de covardia. Simboliza a perda de um concurso, prova, teste, competição, jogo, Pode, também, indicar atitudes problemáticas e bastante auto-destrutivas. É o retrato da perda da fé, da esperança, de sentir-se desprotegido. Espiritualmente o Consultante acredita que o diabo (ou o nome que preferir dar para as forças maléfica, para o que é negativo, aditivo, desorientador) encontrou uma brecha em suas defesas psíquicas e se aproveitou disso para “instalar-se”. É também sinal de conflitos, batalhas, guerras sangrentas. Pode, em alguns casos, indicar uma piora no estado de saúde do Consultante devido ao seu estado mental (somatização). É, enfim, perder a batalha (mentalmente) antes de começar a lutar.

     O 5 de Espadas, em algumas leituras, sempre dependendo de uma série de fatores como o tema da própria, a sua localização no esquema escolhido e as outras cartas que lhe são próximas, pode indicar fraqueza, sentir-se de ponta-cabeça, inábil para defender-se. Necessidade de alterar-se planos. Estar em desvantagem e energeticamente deficiente. Entrar em combate com adversários muito melhor preparados. Não estar fisicamente bem. Procurar auxílio de alguém e a pessoa recusá-lo de maneira bruta. Pode ser prenúncio de problemas que ocorrerão com alguém amigo do Consulente. Fazer um apê-lo e não ser atendido. Sentir que as pessoas o acham inadequado para uma determinada função ou para lidar com uma situação.

     Ainda que as desgraças que algumas vezes se abatem sobre nós possam nos fazer querer dibrá-las, enganando o destino, tornando-nos frios e calculistas com a experiência, o ideal seria aceitá-las e compreendê-las como eventos e consequências naturais dentro do grande esquema da vida. É preciso então render-se. Como diz o ditado: “Se não há solução, solucionado está.”, ou seja, se não temos reais condições de vencer esse obstáculo, ou o custo para o fazermos será elevado demais, o melhor e nos rendermos, olharmos para o futuro e nos lembrarmos que “isso também passará”. Devemos evitar acusarmos os outros ou querermos nos vingar pela nossa derrota, pois é evidente que essa atitude só agrava ainda mais qualquer situação. Se não é possível vencer, o melhor que se tem a fazer é afastar-se.

     Em “Édipo Rei”, seu autor, Sófocles, coloca isso muito claramente em diversos pontos do texto. A irritação de Creonte, cunhado (e tio, sem que ele saiba) de Édipo contra as acusações do Rei são respostas às acusações sofridas por ele, anteriormente. Édipo, em seu desespero de conseguir solucionar o problema que consome a vida em seu reino, e não obtendo respostas objetivas, começa a disparar incriminações contra Tirésias, o sábio vidente e contra Creonte, insinuando que eles armam um complô para roubar-lhe a coroa.

     O Corifeu, que nas tragédias gregas era a figura (o ator) que representava o chefe do coro, acrescenta um comentário, com o intuito de aplacar a ira de Creonte, de que Édipo teria dito o que disse numa explosão de cólera, num momento de desiquilíbrio, sem pretender realmente dizer a insensatez que dizia. Essas palavras não são apenas de consolo ou de pacificação, mas são, como subtexto, uma crítica à conduta do Rei que, agindo de forma compulsiva, motivado por um Ego exaltado, acaba por auto-desmoralizar-se. É um comentário de que não se deve ceder ao ódio, à raiva, ou ao demais estados emocionais negativos, pois esses ataques e energias ruins acabam se voltando contra que as elaborou e proferiu. Em situações como o 5 de Espadas, devemos fazer o esforço de continuarmos a cultivar nossos corações e espíritos para que eles espelhem a beleza do divino que nos abita, ao invés do caos que nos rodeia.

     Nesta segunda-feira, com a Lua Nova em Cancer, e sob os auspícios das energias dessa carta cujo equivalente astrológico é Vênus em Aquários, poderemos nos dedicar à solução de problemas que há muito estão esperando para um esclarecimento. Mas tudo isso feito de maneira muito bem equilibrada e firme, sem querer encontrar um culpado para as situações, pois nossa função não é exatamente a de Juiz.

     No antigo Império Romano, na data de hoje, e nos próximos 2 dias, era celebrado um culto especial a Dea Dia, uma deusa muito semelhante a Ceres, até mesmo porque estava ligada à idéia de renascimento, crescimento, abundância, a agricultura, a primavera. Nessas ocasiões eram sacrificados, em homenagem à Dea Dia, um boi, uma leitoa e um carneiro, que antes eram levados em procissão ao redor dos campos cultivados.

     Acredito que possamos transladar essa figura, e seu culto, das páginas da mitologia para a nossa experiência diária, encarando o trabalho (o campo) de onde tiramos o nosso sustento, a nossa sobrevivência) com um olhar benevolente, e merecedor de determinadas ações (sacrifícios) para que possam produzir o melhor e o mais abundantemente: dedicação, respeito, agradecimento.

     Tenham todos um excelente início de semana!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

domingo, 16 de maio de 2010

Carta do Dia: 4 DE ESPADAS

                                                        ÉDIPO
     “Ora eis aí, minha mulher! Para que, pois, dar tanta atenção ao solar de Delfos, e aos gritos das aves no ar? Conforme o oráculo, eu devia matar meu pai; ei-lo já morto, e sepultado, estando eu aqui, sem ter sequer tocado numa espada... A não ser que ele tenha morrido de desgosto, por minha ausência... caso único em que eu seria o causador de sua morte! Morrendo, levou Políbio consigo o prestígio dos oráculos; sim! os oráculos já não têm valor algum!”
                                                    JOCASTA
     “E não era isso o que eu dizia, desde muito tempo?”
                                                     ÉDIPO
     “Sim; é a verdade; mas o medo me apavorava.”
                                                   JOCASTA
     “Doravante não lhes daremos mais atenção”.
                                                     ÉDIPO
     “Mas... não deverei recear o leito de minha mãe?”
                                                   JOCASTA
     “De que serve afligir-se em meio de terrores, se o homem vive à lei do acaso, e se nada pode prever ou pressentir! O mais acertado é abandonar-se ao destino. A idéia de que profanarás o leito de tua mãe te aflige; mas tem havido quem tal faça em sonhos... O único meio de conseguir a tranqüilidade de espírito consiste em não dar importância a tais temores.”
                                                     ÉDIPO
     “Terias toda a razão se minha mãe não fosse viva; mas, visto que ela vive ainda, sou forçado a precaver-me, apesar da justiça de tuas palavras.”
                                                  JOCASTA
     “No entanto, o túmulo de teu pai já é um sossego para ti!”

Édipo e Jocasta, cena de “OEDIPUS REX” _ Sófocles, Séc. V a.C.

  Swords04 (5)    Às vezes ficamos presos aos nossos pensamento dualísticos e não conseguimos nos livrar deles. A pura, simples e rígida lógica e as limitadas e tacanhas teorias não nos conseguem livrar eles. Sentimos como se estivéssemos imersos neles, prisioneiros dessas idéias conflitantes, procurando um suporte em alguma coisa que nos ajude a vermos tudo com mais clareza. Cria-se um bloqueio em nossas mentes, uma forma fixa onde sequer percebemos um sinal de movimento, nem mesmo de esperança, fé, ou qualquer sinal de espiritualidade.  Em ocasiões como essas é comum o aparecimento, nas leituras de tarot, do 4 de Espadas, indicando, prevendo ou recomendando um tempo de descanso forçado (até mesmo provocado por uma doença qualquer) que nos permita recobrar a nossa vitalidade física e mental. Que nos force a resgatar padrões saudáveis de comportamento, de reflexão, de estados de consciência, de bem estar físico e mental.

     Um retiro, uma escapada, um recolhimento interior irá permitir que reencontremos a nossa totalidade, a nossa segurança, nossa autoconfiança, nossa disposição e acuidade mental e nos livrará da estagnação em que nos permitimos ser submetidos. Todavia, devemos deixar de nos apoiar unicamente em conceitos, em modelos, em formas de pensar já ultrapassadas, caducas, e aprender que a vida pode produzir novas estruturas nos mais inesperados, ou desesperançados, momentos. Nesse sentido, o 4 de Espadas representa a criação intencional de um espaço mental protegido, onde o Consultante possa isolar-se, recolher, retirar-se do mundo (veja bem: é um recolhimento mental, não necessariamente físico) para, ficando a sós consigo mesmo, reconsiderar os fatos, eliminar dúvidas, harmonizar-se eliminando suas tensões, sua raiva, suas angústias. Um local de recuperação das energias. Uma trégua em meio à batalha. Ainda há muito a enfrentar, a aprender, a vivenciar, mas é preciso reabastecer o corpo, a mente e o espírito, para que se possa prosseguir para o próximo round.

     Com a chegada do Mensageiro, vindo da vizinha Corinto, trazendo a notícia da morte do Rei Políbio, que o havia adotado e o criado como filho, Édipo sente um novo alento, um alívio em meio ao duelo mental que trava. O homem que acreditava ser seu pai morreu de causas naturais e não pelas suas mãos, como o Oráculo havia previsto. Ele, Édipo, não era o assassino de Políbio, portanto a profecia estava errada e não se cumprira. O rei tebano sente-se aliviado, mais tranquilo. É um momento em que sua mente procura relaxar e isso é evidente no diálogo que trava com sua esposa a Rainha Jocasta (que é, sem ele ainda saber, sua mãe biológica) sobre o assunto. O argumento da rainha reforça a idéia desse abandono à própria sorte, desse submeter-se passivamente ao próprio destino, tranquilamente, sem medir forças com ele:

                                               ÉDIPO

     “De que serve afligir-se em meio de terrores, se o homem vive à lei do acaso, e se nada pode prever ou pressentir! O mais acertado é abandonar-se ao destino.”

                                         ………………………                                            

                                               JOCASTA
     “No entanto, o túmulo de teu pai já é um sossego para ti!”

Mas ainda há uma parte da profecia que o incomoda e é o fato dela ter previsto que ele, além de assassinar o pais, casar-se-ia com a própria mãe, e geraria uma prole amaldiçoada. Édipo acredita que se voltar a Corinto, incorrerá em casar-se com a viúva, a Rainha Mérope, que ele acreditava ser sua verdadeira mãe, conforme lhe havia sido dito, há tempos, em Delfos. A idéia de incesto que repugna, entretanto, numa tentativa de acalmá-lo, ou até mesmo, já considerando que aquele Rei à sua frente é seu esposo e também seu filho, Jocasta oferece uma “chave” do que hoje chamamos de psicanálise:

        “A idéia de que profanarás o leito de tua mãe te aflige; mas tem havido quem tal faça em sonhos... O único meio de conseguir a tranqüilidade de espírito consiste em não dar importância a tais temores.”

     O surgimento dessa carta numa tiragem de tarot, sempre dependendo da sua posição entre as demais cartas que a acompanham e do assunto proposto pelo Consultante, pode simbolizar uma necessidade de recuperação, de descanso, de inatividade. Uma cura física. Um tempo de restabelecimento de uma doença. Período dedicado à uma profunda meditação.  Férias.

     Dependendo, ainda, de como a leitura das cartas se desenvolve, pode simbolizar que o Consulente já está restabelecido e pronto para reassumir o comando das suas atividades normais. Livrar-se das ansiedades. Bem-estar físico e espiritual.

     Aproveite a “folga” para tratar-se, cuidando do físico com carinho, usando cremes, banhos, perfumes, tratando-se, recuperando-se através do sono, fazendo uma alimentação leve, saudável, equilibrada e permitindo-se ser bastante indulgente. Mas não deixe de meditar, procurando descansar a mente através do silêncio, permitindo que ela também se nutra e se recupere.

     Tenham todos um tranquilo e bastante regenerador domingo!

Imagem:  BOSH TAROT, por A. Atanassov

sábado, 15 de maio de 2010

Carta do Dia: 3 DE ESPADAS

                                                         TIRESIAS

     “Digo-te, pois, já que ofendeste minha cegueira, - que tu tens os olhos abertos à luz, mas não enxergas teus males, ignorando quem és, o lugar onde estás, e quem é aquela com quem vives. Sabes tu, por acaso, de quem és filho? Sabes que és o maior inimigo dos teus, não só dos que já se encontram no Hades, como dos que ainda vivem na terra? Um dia virá, em que serás expulso desta cidade pelas maldições maternas e paternas. Vês agora tudo claramente, mas em breve cairá sobre ti a noite eterna.

     Que asilo encontrarás, que não ouça teus gemidos? Que recanto da terra não vibrará com tuas lamentações quando souberes em que funesto consórcio veio terminar tua antiga carreira? Tu não podes prever as misérias sem conta que te farão igual, na desdita, a teus filhos. E agora... podes lançar toda a infâmia sobre mim, e sobre Creonte, porque nenhum mortal, mais do que tu, sucumbirá ao peso de tamanhas desgraças!”


                                                           ÉDIPO
     “Quem poderá suportar palavras tais? Vai-te daqui, miserável!
Retira-te, e não voltes mais!”


                                                             ”Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

        Swords03 (5) Quando Creonte retorna de Delfos com a mensagem de que os deuses estavam punindo Tebas pelo fato da cidade estar abrigando o homem que matou Laio, seu antigo rei e primeiro marido de Jocasta, Édipo exige que esse assassino seja capturado. Como ninguém parece saber quem ele possa ser, manda chamar Tirésias, cego vidente para lhe dizer quem possa ser esse homem. Tirésias recusa-se e Édipo, o Rei, ameaça-o. Enfurecido com a ousadia e prepotência real, o adivinho lhe responde que o homem que ele tanto busca está ali mesmo. Que é ele, Édipo, o assassino de Laio e o causador das desgraças que se abateram sobre Tebas. Édipo, por sua vez, acusa-o de estar unido a Creonte, seu cunhado, num complô para desestabiliza-lo e roubarem dele o poder. Expulsa o velho cego da sua frente e Tirésias, enfurecido, lhe diz:

                                               TIRÉSIAS
     “Vou-me embora, sim; mas antes quero dizer o que me trouxe
aqui, sem temer tua cólera, porque não me podes fazer mal. Afirmo-te, pois: o homem que procuras há tanto tempo por meio de ameaçadoras proclamações, sobre a morte de Laio, ESTA AQUI! Passa por estrangeiro domiciliado, mas logo se verá que é tebano de nascimento, e ele não se alegrará com essa descoberta. Ele vê, mas tomar-se-á cego; é rico, e acabará mendigando; seus passos o levarão à terra do exílio, onde tateará o solo com seu bordão. Ver-se-á, também, que ele é, ao mesmo tempo, irmão e pai de seus filhos, e filho e esposo da mulher que lhe deu a vida; e que profanou o leito de seu pai, a quem matara. Vai, Édipo! Pensa sobre tudo isso em teu palácio; se me convenceres de que minto, podes, então, declarar que não tenho nenhuma inspiração profética.”

     A essência das cartas do Naipe de Espadas é a dor que advém do fato de se encarar a verdade e, com isso, avançar no crescimento pessoal. Não é de se estranhar, então, que se considerarmos alguns aspectos religiosos que ao definirem nossa passagem por esta existência afirmam que nascemos neste “vale de lágrimas”, o 3 de Espadas é a quintessência do Naipe. Essa carta sugere problemas e dificuldades em quase todos os aspectos da vida.

     Para compreendermos melhor o aspecto positivo do 3 de Espadas é necessário que raciocinemos a respeito do que Espadas realmente significam, qual o seu propósito: O que é dor e para que serve? Como devemos lidar com as nossas angústias, nossas aflições, nosso desespero, nossas frustrações? Qual é a mais apropriada reação ao sofrimento?

     Quando surge a dor é também tempo de afligir-se, de lastimar-se, de lamentar. E o que é mais fascinante é que quando paramos de negar a dor, de recusar-nos a vê-la e vivenciá-la, de resistir a ela, quando permitimos que ela nos tome de assalto o coração, ela nunca vem sozinha. Alguma coisa sempre a acompanha. Algumas vezes é uma sensação de paz e de fé, de amor e de esperança. Uma sensação da Divina presença. A pior parte da experiência de vivenciar a dor é resistir a ela. Enquanto lutamos contra ela, só a tornamos mais forte, mais cruel e poderosa. Quando nos entregamos, quando decidimos aceitá-la como parte de estarmos vivos e do equilíbrio natural entre todos os aspectos que precisamos vivenciar em nossa evolução, algo acaba sendo liberado. provavelmente o pânico, o medo que sentimos em não conseguir continuar. O sofrimento, as feridas causadas pela dor acabam sendo limpas pelas nossas lágrimas, pelo sangue que escorre das nossas mágoas. Nada supura, nada estagna ou apodrece, tudo se limpa. Dói muito, e continua a doer bastante. Dói sem parar. E então… cicatriza.

     Não há como evitar a dor, nem há como ignorá-la ou adiá-la. Ela estará sempre lá, esperando por nós. O tempo não a dissolve. É a nossa forma de encará-la, de lidar com ela, de deixar que ela invada o nosso coração e promova a mudança da qual ela é o agente, só assim ela terá alguma razão de ter existido. É para isso que a dor serve: para nos transformar. Subitamente não somos mais as mesmas pessoas que éramos. Aceitando a dor, não nos tornamos amargos, cínicos, indiferentes ou duros. Nos tornamos sábios. O 3 de Espadas pode, então, ser visto como o cumprimento, a compleição, a realização, a verdadeira essência do Naipe de Espadas porque ele subentende a complacência, a coragem, a boa vontade, a honestidade de permitir-se vivenciar as dores, as perdas, os sacrifícios que naturalmente surgem em nossas vidas.

     Quando o 3 de Espadas aparece numa leitura de tarot, levando-se sempre em consideração a questão proposta pelo Consultante, as demais cartas que o acompanham na jogada e suas posições na disposição escolhida, essa carta pode simbolizar sofrimento emocional, amor não correspondido, interrupção de uma relação afetiva. Mágoas. Ressentimentos. Situações que ainda estão em andamento, que ainda não se completaram (faltam ainda mais 7 cartas para completar o Naipe). O Consulente pode estar passando por um momento de alta emotividade, de dor, de dificuldades, mas ele não está isolado e nem mesmo ele está acomodado à situação. Ele se move. Não é hora dele esconder seus verdadeiros sentimentos, mas também não deve usá-los para magoar os outros. O Consultante deve estar atento para não usar a espada para abrir velhas feridas. É sempre bom lembrar que o coração reina supremo. Quaisquer sejam os problemas que o Consultante possa estar vivendo, ele será capaz de resolvê-los com as armas da mente e com os olhos do amor. O coração e a espada devem relacionar-se bem e isso significa, também, amor pela verdade e pela honestidade. É hora de iluminar as memórias e clarear as expectativas, sem medo de encarar algumas verdades mais dolorosas. Todos os ferimentos se cicatrizam se não os ignorarmos e cuidarmos deles.

     Neste sábado, sob a influência de Saturno, o persistente, o disciplinador patrono do dia, a carta do 3 de Espadas nos recomenda não desistirmos facilmente. Que devemos arriscar sermos mais honestos e autênticos conosco e com as outras pessoas. É um bom momento para abandonarmos o preconceito, a pretensão e as limitações, permitindo-nos sentir o coração elevar-se e voar livremente.

     Tenham todos um ensolarado fim de semana! 

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassos