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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pro ano nascer feliz

 

Frente à tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, e de tantas outras calamidades que assolam o planeta, creio que devêssemos ter uma nova chance em 2011, dar uma nova chance para 2011, um novo réveillon, uma nova queima de fogos de artifício, qualquer coisa que fizesse deste, um novo e mais promissor ano novo.

Lendo o site 50 e Mais da jornalista Maya Santana, reencontro um velho e conhecido poema do Drummond. Dezoito dias após o 1º do ano, estou aproveitando a sabedoria e delicadeza do poeta para ilustrar, com lâminas do tarot, essa sua mensagem de esperança em nossos próprios recursos para criarmos o mundo que queremos viver.

Não que o poema precise de acréscimos visuais extras além daqueles que suas palavras provocam em nossas mentes e corações. Nem pretendo que essas imagens que adicionei sejam definitivas, únicas, ou obtenham unanimidade entre meus leitores. Gostaria que fosse entendido como um exercício pessoal, destinado a me reconectar com as energias que sempre acarretamos aos inícios, sejam eles dos anos, dos ciclos da nossa vida, dos nossos empreendimentos, dos nossos relacionamentos.

Aproveitemos, então, o conselho do poeta e sejamos os Mágicos cujos desejos e ações despertam os novos dias que abrigamos dentro de nós.

 

 

Osho foolPara você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,


Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)

 

 

para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,Tarot__Three_of_Pentacles_by_azurylipfe
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,

 


fairy9_cups260

 

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,


não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

 

 

 

Cups05Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas

 

 


nem parvamente acreditar
42que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.

 

 

Transformation I

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,tem de fazê-lo novo,

eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

 

 

 

64-Minor-Wands-Ace-instant ideas
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

 

“Receita de Ano Novo” - Carlos Drummond Andrade

sábado, 15 de janeiro de 2011

Um simples saco de plástico

Neste momento em que a imprensa do país e do mundo estampam imagens da tragédia que se abateu na região da serra fluminense, reforça-se o necessário chamado de consciência para a questão ecológica.

Ecologia é algo muito mencionado, discutido mas pouco vivenciado. Basta que nos apercebamos de como o planeta está reagindo ao nosso descaso, à nossa inconsequente interferência, à maneira abusiva com que o tratamos, para termos uma visão mais realista da nossa co-responsabilidade em relação à tragédias como essa que ocorreram na região serrana do Rio de Janeiro. Não esquecendo que, há um ano, algo semelhante aconteceu em Angra dos Reis-RJ.

Não adianta agora ficar buscando culpados e, no conforto de nossas supostamente bem protegidas casa, ficar apontando o dedo acusando uns e outros, pelas páginas de relacionamentos sociais. É preciso que reconheçamos a nossa própria parcela de culpa nesse episódio. É necessário que enfrentemos a verdade nua e crua e paremos de transferir nossa culpa para os outros. É preciso que cada um de nós se pergunte: “O que é que eu fiz para evitar que isso acontecesse?”

Tragédias como estas acontecem para transformarem algo e que esse algo seja, antes de mais nada, a nossa maneira de vivenciarmos a nossa responsabilidade pessoal em relação ao assunto. Refletindo como nosso comportamento individual afeta o ambiente de uma maneira muito mais ampla do que pensamos, e que essas consequências podem ser muito funestas, temos a oportunidade de nos corrigir, prevenindo e até evitando que episódios como esses voltem a nos assombrar com seu rastro de mortes e destruição.

Hoje a postagem não traz uma análise de algum dos arquétipos do tarot, ou mostra uma maneira de jogar, ou apresenta uma orientação obtida através de algum oráculo. Hoje, a reflexão a respeito do que devemos saber para o futuro vem através da recomendação de que assistam a um pequeno filme. Se nós aceitarmos o fato que o futuro nada mais é do que uma continuidade, uma consequência, um efeito do nosso hoje, que, por sua vez, é o resultado de ações e eventos passados, esse filme é, então, uma projeção do que pode ser o futuro, baseado do que sabemos do presente.

O futuro não é algo difícil de se predizer quando se tem consciência da extensão das nossas atitudes, dos nossos investimentos e das nossas omissões no momento presente.

ScreenHunter_06 Jan. 15 12.16Ainda que hajam muitas razões para se duvidar, há vida inteligente na internet e o site WWW.FUTURESTATES.TV é um deles. Por que ele é hoje mencionado e recomendado aqui neste blog que se propõem, basicamente, a falar sobre tarot e outros oráculos? Porque ele, à sua maneira, também fala do futuro. E a maneira que esse provável porvir é apresentado é através de pequenos filmes ficcionais que retratam a visão particular de seus autores a respeito do futuro do planeta, da sociedade, baseado na realidade global que hoje presenciamos.

ScreenHunter_01 Jan. 15 12.11O site FUTURESTATES visa mostrar, através de imaginativos filmes de curta-metragem, como será o futuro, baseado na situação ambiental e tecnológica que vivemos hoje, sob a ótica de novos cineastas e pensadores. Ainda que, em sua apresentação, o site se refira às possíveis consequências ambientais que Estados Unidos sofrerão nos próximos anos, creio que possamos estender essa visão para qualquer região do mundo. Afinal o planeta é um só e os donos (e, portanto, responsáveis) somos todos nós, sem limites de fronteiras, de ideologias ou diplomáticos.

ScreenHunter_04 Jan. 15 12.15O filme, cujo link, está anexado à esta postagem é do diretor americano Ramin Gahrani e mostra de uma maneira quase épica o caminho “de vida” percorrido por um saco plástico em busca da mulher que a trouxe do supermercado para casa e que, finalmente, jogou-a fora.

 

ScreenHunter_02 Jan. 15 12.13Em seu atribulado caminho ele encontra estranhas criaturas, conhece a liberdade nos céu, chora a perda de sua ex-dona e tenta agarrar-se a um propósito na vida.

 

 

ScreenHunter_05 Jan. 15 12.15Finalmente, esse saco plástico acaba no oceano, entre as ondas e correntes de marés, em direção à grande concentração de lixo que existe no Oceano Pacífico. O Vórtex. Lá, ele encontra seu nirvana, onde poderá conviver com outros tantos iguais a ele e, aos poucos, nas centena de anos que o separam do seu fim, deixarem desaparecer as lembranças de sua antiga dona.

Como um dado curioso, quem faz a voz do saco plástico é o diretor de cinema Werner Herzog.

ScreenHunter_03 Jan. 15 12.13Ainda que o filme tenha uma qualidade plástica inegável e que a história das aventuras do “imortal” saco plástico em busca de sua dona original seja comovente, ele tem a finalidade de alertar para a durabilidade, a influência e as consequências que um único e simples, aparentemente inocente saco plástico, onde carregamos nossas compras, tem em todo o ambiente, numa região muito mais ampla do que a nossa vizinhança, onde o descartamos.

O site tem um alerta constante na forma de uma reflexão:

Pense a respeito:

Há um minuto atrás, este momento era o Futuro.

Daqui a um minuto, tudo pode mudar.

 

Obs: Clique em qualquer link ou imagem e será automaticamente conduzido para o local do filme.

Imagens: Cenas do filme “Plastic Bag” do site www.futurestates.tv

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Carta do Dia: 7 DE ESPADAS

                                                        ÉDIPO
     (A Jocasta.) “Senhora, acreditas que o homem a quem mandamos há pouco chamar, seja o mesmo a quem este mensageiro se refere?”
                                                     JOCASTA
     “De quem te falou ele? Ora... não penses nisso; o que ele diz não tem importância alguma.”
                                                       ÉDIPO
     “É impossível que com tais indícios eu não descubra, afinal, a verdade acerca de meu nascimento.”
                                                     JOCASTA
     “Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação. (À parte.) Já é bastante o que eu sei para me torturar.”
                                                      ÉDIPO
     “Tranqüiliza-te! Mesmo que eu tivesse sido escravo desde três gerações, tu não serás humilhada por isso!”
                                                   JOCASTA
     “Não importa! Escuta-me! Eu te suplico! Não insistas nessa indagação!”
                                                      ÉDIPO
     “Em caso algum desistirei de elucidar esse mistério.”
                                                   JOCASTA
     “No entanto, é para teu bem que assim te aconselho.”

                                                       ÉDIPO
     “Acredito... mas esses conselhos teus há muito me importunam!”
                                                   JOCASTA
     “Infeliz! Tomara que tu jamais venhas a saber quem és!”

Édipo e Jocasta, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

    Swords07 (5) Um dos pontos altos da peça “Édipo Rei” é o momento em que Édipo manda buscar o Pastor a quem ele fora entregue, recém-nascido, para ser abandonado no campo, para morrer e assim não cumprir a profecia do Oráculo de Delfos que havia avisado a Laio e Jocasta, seus pais, que um dia o filho mataria o Rei e desposaria a Rainha, sua mãe.

     Édipo percebe que será o depoimento daquele pastor que elucidará os fatos e, principalmente, fará com que ele finalmente compreenda a sua origem. Jocasta, sua esposa e mãe biológica (fato que Édipo ainda não sabe), já consciente da tragédia que estão vivendo, tendo juntado as informações e percebido a terrível verdade que se escondera por tantos anos e que agora, tal qual uma espada, pende sobre suas cabeças, faz o possível para convencer o esposo (e filho) a desistir de seu intento de descobrir a verdade. Sabe que o pastor a quem ela entregara o seu filho para que fosse abandonado à própria sorte, irá fornecer a Édipo subsídios suficientes para que ele solucione a sua crise de identidade. Além disso, ela teme a reação de seu filho e consorte ao saber que ele assassinara o próprio pai e vive como marido e mulher com sua mãe. Ela, agindo mais maternalmente do que como esposa, quer evitar a ele tal sofrimento. Quer evitar que ele saiba que foi mandado à morte, ainda bebê, por ela e por seu pai, Laio. Quer impedir que a verdade venha à tona, porque bem sabe as consequências dessa descoberta. Édipo recusa-se a ouvi-la e, inclusive, acusa-a de dar-lhe conselhos equivocados e, com isso, subtraindo dele a possibilidade de conhecer a sua própria verdade.

     Quando um 7 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que o acompanham, além da questão formulada pelo Consultante, pode simbolizar que, ainda que o Consultante esteja se esforçando, ele não está chegando a nenhum resultado, além de existir uma sensação de que não importa o que ele faça ou deixe de fazer, ele não obtém resultados. Pode ser que o Consultante queira fazer uma mudança em sua vida, mudando-a para melhor, ou mesmo, saber qual é o seu lugar, a sua posição na situação que possa estar vivenciando. Sentir-se inseguro, pessimista ou inquieto em relação aos seus propósitos de vida. Sentir-se deprimido pela sua falta de habilidades, de utilidade. Sente-se dispensável. Sentir-se vivendo uma situação misteriosa. Sentir-se traído. Ser roubado, seja material ou intelectualmente. Também uma mudança física, de residência, de cidade, de estado pode ser considerada.

     Num aspecto positivo, o 7 de Espadas, sempre dependendo da sua posição na jogada, pode significar que o Consultante está se permitindo pensar mais claramente, mais realisticamente, a respeito da situação que está vivendo. Começar novos planos, sentindo que existe um novo propósito em sua vida. Procurar conselho e optar por modificar a vida para melhor. Sentir-se bem consigo mesmo. O mistério que pairava sobre determinada situação começa a se dissipar. O Consultante sente-se, novamente, inteiro, com uma mente aguçada e ágil. As pessoas passam a considera-lo como indispensável.

     Nesta quarta-feira, sob a regência de Mercúrio e com a Lua Nova em Leão, poderíamos usar o conselho expresso pelo 7 de Espadas de encerrarmos velhas lutas, antigos argumentos, discussões ultrapassadas, desavenças mesquinhas. É uma ótima ocasião para afugentarmos os fantasmas do passado, de uma vez para sempre. Tempo de dizer adeus a ambições e objetivos que já não representam mais nada em nossas vidas e prestar mais atenção aos nossos sonhos, nossas intuições, nossa voz interior.

     Que o dia de hoje traga o abandono de velhos hábitos que são nocivos ao nosso estágio de desenvolvimento atual e nos libere para alçarmos vôos mais altos. Tenham todos um ótimo dia!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

terça-feira, 18 de maio de 2010

Carta do Dia: 6 DE ESPADAS

                                      JOCASTA
     “…Mas dize por que vieste, e que notícias nos queres anunciar.”
                                   MENSAGEIRO
     “Coisas favoráveis para tua casa, e teu marido, senhora.”
                                     JOCASTA
     “De que se trata? De onde vens tu?”
                                   MENSAGEIRO
     “De Corinto. A notícia que te trago ser-te-á muito agradável; sem dúvida que o será; mas pode também causar-te alguma contrariedade.
                                    JOCASTA
     “Mas que notícia será essa, que produz, assim, um duplo efeito?”
                                  MENSAGEIRO
     “Os cidadãos do Istmo resolveram aclamar rei a Édipo, segundo
dizem todos.”
                                    JOCASTA
     “Quê? O venerando Políbio já não exerce o poder?”
                                  MENSAGEIRO
     “Não... A morte levou-o à sepultura.”
                                    JOCASTA
      “Que dizes tu? Morreu Políbio?”
                                  MENSAGEIRO
     “Que eu pereça já, se não for a pura verdade!”

                 …………………………………………………….

                                       ÉDIPO
     “Ora eis aí, minha mulher! Para que, pois, dar tanta atenção ao solar de Delfos, e aos gritos das aves no ar? Conforme o oráculo, eu devia matar meu pai; ei-lo já morto, e sepultado, estando eu aqui, sem ter sequer tocado numa espada... A não ser que ele tenha morrido de desgosto, por minha ausência... caso único em que eu seria o causador de sua morte! Morrendo, levou Políbio consigo o prestígio dos oráculos; sim! os oráculos já não têm valor algum!”
                                   JOCASTA
     “E não era isso o que eu dizia, desde muito tempo?”
                                      ÉDIPO
     “Sim; é a verdade; mas o medo me apavorava.”
                                  JOCASTA
     “Doravante não lhes daremos mais atenção.”

Mensageiro, Jocasta e Édipo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords06 (5) Sófocles, há aproximadamente 2.500 anos, ao criar essa obra-prima da literatura mundial, esse magnífico exemplo de peça teatral, utilizou-se de todos os recursos para dar veracidade ao drama que queria retratar.

     Se olharmos “Édipo Rei” como uma peça sobre parricídio e incesto, estaremos fazendo uma leitura bastante superficial de todos os conflitos da alma humana apreendidos pelo sábio escritor em seu texto. Édipo é um homem com todos as virtudes e pecados, com todos os vícios e angústias, com todos os medos e egolatria que iremos encontrar na humanidade, de forma geral, em qualquer tempo. A maneira com que ele procura esquivar-se da verdade, ainda que, técnicamente a busque, é impressionante.

     A chegada do Mensageiro, vindo de Corinto com a notícia que seu pais (que era adotivo) havia falecido é o bastante para que ele acredite que o Oráculo de Delfos estivesse enganado a seu respeito. Imediatamente, ao ouvir a notícia ele desacredita as mensagens das pitonisas do célebre templo de Apolo, recebidas anos antes, que diziam que ele mataria seu pai e casar-se-ia com a própria mãe. Na época, fugiu, para evitar que a profecia se cumprisse e que ele viesse a assassinar o Rei Políbio, de Corinto, e casar-se com a Rainha Mérope, que acreditava ser sua verdadeira mãe. Nessa fuga, tomando rumo de Tebas, cruza com o Rei Laio, que era seu pai verdadeiro, e, numa discussão tola, mata-o, vindo, depois, desposar sua mãe biológica, a Rainha Jocasta, com quem teve 3 filhos.

     A notícia que o Mensageiro traz é o suficiente para que ele busque, desesperadamente, livrar-se de uma carga de culpa, de um medo que lhe é imenso de tornar-se assassino do homem que ama como pai e desposar a própria mãe. Esse conflito já é o bastante para que sua mente esteja obscurecida por confusos pensamentos. A notícia é uma esperança, uma porta de saída para uma situação. Uma possibilidade de mudança, de alteração dos fatos. O que ele ainda não sabe é que essa súbita reviravolta na história trará consigo ainda maiores angústias. Essa travessia que Édipo procura fazer, utilizando a notícia da morte por causas naturais de Políbio, não será tão tranquila quanto ele espera. Na margem oposta dessa pretensa passagem para dias melhores,  aguardam-lhe novidades que irão aumentar ainda mais a sua confusão mental e obscurecerão ainda mais a sua alma.

                                               MENSAGEIRO
     “Podes revelar-me esse oráculo, ou é vedado a outros conhecê-lo?”
                                                     ÉDIPO
     “Pois vais saber: Apolo disse um dia que eu me casaria com minha própria mãe, e derramaria o sangue de meu pai. Eis aí por que resolvi, muitos anos, viver longe de Corinto...”

                                             MENSAGEIRO
     “E foi por causa desses receios que te exilaste de lá?”
                                                   ÉDIPO
     “Também porque não queria ser o assassino de meu pai, ó velho!”
                                            MENSAGEIRO
     “Oh! Por que não te livrei eu de tais cuidados, eu, que sempre te quis bem?”

                                 …………………………………………..

                                           MENSAGEIRO
     “Sabes, por acaso, que esse receio absolutamente não se justifica?”
                                                ÉDIPO
     “Como não? Pois se eles foram meus progenitores...”
                                          MENSAGEIRO
     “Políbio nenhum parentesco de sangue tinha contigo!”
                                              ÉDIPO
     “Que dizes?!... Políbio não era meu pai?”

     Após um momento em que, acreditando que o Oráculo estivesse errado e que ele nada devesse temer, Édipo é confrontado com mais uma das peças do grande quebra-cabeças que ele precisa montar para saber exatamente quem é. Ao tomar conhecimento que o Rei cretense não era seu pai, ele perde a única fonte de identidade que conhecia até então. Quem é ele? De onde ele vem? A que está predestinado?  Convenhamos que essas são questões básicas que lidamos no curso de nossas vidas, e não são apenas recursos teatrais para nos manter interessados na história. Quem nunca se questionou qual a sua real função neste plano de vida? Se é, ou não, um joguete de um destino que pode ser, em alguns casos bastante cruel. O quanto de livre-arbítrio realmente possuímos e o que essa nossa capacidade de fazer determinadas escolhas pode, ou não, alterar um destino que pode ser (ou não) imutável. O quanto nos conduzimos e o quanto somos conduzidos por forças muito mais poderosas e arcaicas?

     Quando um 6 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que a acompanham, além da questão proposta pelo Consultante, pode significar que se ele irá ou não adiante com a situação que está vivendo naquele momento irá depender inteiramente da sua clareza mental e disposição para enfrentar desafios e encarar a verdade dos fatos. Pensamentos confusos, truncados, são como bagagens inúteis, pesos mortos,  que transportamos a cada porto da nossa vida. De nada nos servem. Quando abrimos nossos olhos e nossa mente, estabelecemos contato com a realidade, colocamos os pés no chão, conseguimos separar os eventos, os fatos, as pequenas peças que constituem o todo e analisa-las individualmente, conhecendo-as bem, não nos esquivando da dor ou do prazer que elas possam nos proporcionar. Assim sendo, tendo uma visão clara do conjunto e dos horizontes e caminhos disponíveis, estamos novamente prontos para assumirmos o leme desse barco que poderá nos conduzir, ainda que por águas turvas e agitadas, mas em segurança para uma margem mais ensolarada.

     O aparecimento do 6 de Espadas é um lembrete para que sejamos fiéis a nós mesmos e corretos em nossa conduta. Para que usemos a nossa flexibilidade mental, ainda que dentro de uma situação bastante difícil ou conflitante, para que possamos encontrar o que nos motiva, o que nos faz seguir adiante. É importante, também, que nos lembremos que a maneira com a qual comunicamos nossos desejos, nossas intenções, nossas dúvidas, angústias, medos, ou emoções é fundamental para que possamos compartilhar e, assim, diminuir nossa carga. O 6 de Espadas simboliza um “dar as costas” para o passado, em busca de um futuro melhor. Mas o passado não é uma mancha que possa ser lavada das mãos. Enquanto o Consulente não o enfrentar corajosamente e procurar aceitá-lo e, se for o caso, resolve-lo, ele acompanhará, como peso extra na bagagem que carregará para qualquer seja o futuro que pretenda que lhe aconteça.

     Édipo está num barco à deriva. Supostamente abandonou seus velhos temores, descartando a mensagem oracular recebida muitos anos antes, mas também não sabe o que lhe aguarda à frente. A notícia de que Políbio não era seu progenitor, destrói sua teoria de que a pitonisa do Templo de Apolo, em Delfos, enganara-se ao prever que ele o mataria. Políbio morrera de causas naturais e não pela sua espada… mas não era seu pai. A possibilidade do Oráculo estar certo ainda perdura.

     O dia de hoje, no antigo calendário romano, era consagrado a Apolo, que representava o Sol e era o inventor da música, das artes e da adivinhação. Seu templo, em Delfos, era local de peregrinação e até hoje estuda-se, geologicamente, as possíveis influências de gases emanados do interior da terra na indução ao transe das pitonisas residentes. A palavra “oráculo” significa “comunicação divina” ou “aquele que fala em lugar de deus”. Talvez fosse interessante, nesta data, meditarmos e procurarmos ouvir a nossa voz interior, a fala da nossa intuição, e nos permitirmos estabelecer uma comunicação com o Divino que nos habita. Usemos, como exemplo, a figura do sábio, e cego, Tirésias, o vidente de “Édipo Rei”, que, na sua cegueira física, conseguia enxergar muito mais do que aqueles que tinham seus olhos voltados apenas para o exterior. Olhar para dentro de nós mesmo é necessário. Os gregos tinham um nome para pessoas como Tirésias: enthousiasmós (entusiasmo), ou seja, aquele que tem Deus dentro de si. Busquemos esse entusiasmo dentro de nossas almas.

     Tenham todos uma excelente e transformadora terça-feira!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Carta do Dia: 5 DE ESPADAS

                                          CREONTE
     “Cidadãos! Acabo de saber que Édipo formulou contra mim gravíssimas acusações, que eu não posso admitir! Aqui estou para me defender!
Se, no meio da desgraça que nos aflige, ele supõe que eu o tenha
atacado, por palavras ou atos, não quero permanecer sob o vexame de semelhante suspeita, pois para mim isso não seria ofensa de somenos valor, mas sim uma profunda injúria, qual a de ser por vós, e por meus amigos, considerado um traidor!”
                                           CORIFEU
     “Talvez essa acusação injuriosa lhe tenha sido ditada pela cólera momentânea, e não pela reflexão.”

Creonte e Corifeu em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

    Swords05 (5) O 5 de Espadas é considerada por muitos uma das cartas mais cruéis do tarot, senão a mais difícil de ser interpretada. Ela indica derrota, incapacidade, perda, abatimento, ser vencido. Quando ela surge numa leitura, sempre dependendo, logicamente, do assunto proposto pelo Consultante e pelas demais cartas e suas disposições, pode indicar que o Consultante acredita que será derrotado em algum de seus projetos ou expectativas. É sintoma de pensamentos negativos, de ser dominado, de covardia. Simboliza a perda de um concurso, prova, teste, competição, jogo, Pode, também, indicar atitudes problemáticas e bastante auto-destrutivas. É o retrato da perda da fé, da esperança, de sentir-se desprotegido. Espiritualmente o Consultante acredita que o diabo (ou o nome que preferir dar para as forças maléfica, para o que é negativo, aditivo, desorientador) encontrou uma brecha em suas defesas psíquicas e se aproveitou disso para “instalar-se”. É também sinal de conflitos, batalhas, guerras sangrentas. Pode, em alguns casos, indicar uma piora no estado de saúde do Consultante devido ao seu estado mental (somatização). É, enfim, perder a batalha (mentalmente) antes de começar a lutar.

     O 5 de Espadas, em algumas leituras, sempre dependendo de uma série de fatores como o tema da própria, a sua localização no esquema escolhido e as outras cartas que lhe são próximas, pode indicar fraqueza, sentir-se de ponta-cabeça, inábil para defender-se. Necessidade de alterar-se planos. Estar em desvantagem e energeticamente deficiente. Entrar em combate com adversários muito melhor preparados. Não estar fisicamente bem. Procurar auxílio de alguém e a pessoa recusá-lo de maneira bruta. Pode ser prenúncio de problemas que ocorrerão com alguém amigo do Consulente. Fazer um apê-lo e não ser atendido. Sentir que as pessoas o acham inadequado para uma determinada função ou para lidar com uma situação.

     Ainda que as desgraças que algumas vezes se abatem sobre nós possam nos fazer querer dibrá-las, enganando o destino, tornando-nos frios e calculistas com a experiência, o ideal seria aceitá-las e compreendê-las como eventos e consequências naturais dentro do grande esquema da vida. É preciso então render-se. Como diz o ditado: “Se não há solução, solucionado está.”, ou seja, se não temos reais condições de vencer esse obstáculo, ou o custo para o fazermos será elevado demais, o melhor e nos rendermos, olharmos para o futuro e nos lembrarmos que “isso também passará”. Devemos evitar acusarmos os outros ou querermos nos vingar pela nossa derrota, pois é evidente que essa atitude só agrava ainda mais qualquer situação. Se não é possível vencer, o melhor que se tem a fazer é afastar-se.

     Em “Édipo Rei”, seu autor, Sófocles, coloca isso muito claramente em diversos pontos do texto. A irritação de Creonte, cunhado (e tio, sem que ele saiba) de Édipo contra as acusações do Rei são respostas às acusações sofridas por ele, anteriormente. Édipo, em seu desespero de conseguir solucionar o problema que consome a vida em seu reino, e não obtendo respostas objetivas, começa a disparar incriminações contra Tirésias, o sábio vidente e contra Creonte, insinuando que eles armam um complô para roubar-lhe a coroa.

     O Corifeu, que nas tragédias gregas era a figura (o ator) que representava o chefe do coro, acrescenta um comentário, com o intuito de aplacar a ira de Creonte, de que Édipo teria dito o que disse numa explosão de cólera, num momento de desiquilíbrio, sem pretender realmente dizer a insensatez que dizia. Essas palavras não são apenas de consolo ou de pacificação, mas são, como subtexto, uma crítica à conduta do Rei que, agindo de forma compulsiva, motivado por um Ego exaltado, acaba por auto-desmoralizar-se. É um comentário de que não se deve ceder ao ódio, à raiva, ou ao demais estados emocionais negativos, pois esses ataques e energias ruins acabam se voltando contra que as elaborou e proferiu. Em situações como o 5 de Espadas, devemos fazer o esforço de continuarmos a cultivar nossos corações e espíritos para que eles espelhem a beleza do divino que nos abita, ao invés do caos que nos rodeia.

     Nesta segunda-feira, com a Lua Nova em Cancer, e sob os auspícios das energias dessa carta cujo equivalente astrológico é Vênus em Aquários, poderemos nos dedicar à solução de problemas que há muito estão esperando para um esclarecimento. Mas tudo isso feito de maneira muito bem equilibrada e firme, sem querer encontrar um culpado para as situações, pois nossa função não é exatamente a de Juiz.

     No antigo Império Romano, na data de hoje, e nos próximos 2 dias, era celebrado um culto especial a Dea Dia, uma deusa muito semelhante a Ceres, até mesmo porque estava ligada à idéia de renascimento, crescimento, abundância, a agricultura, a primavera. Nessas ocasiões eram sacrificados, em homenagem à Dea Dia, um boi, uma leitoa e um carneiro, que antes eram levados em procissão ao redor dos campos cultivados.

     Acredito que possamos transladar essa figura, e seu culto, das páginas da mitologia para a nossa experiência diária, encarando o trabalho (o campo) de onde tiramos o nosso sustento, a nossa sobrevivência) com um olhar benevolente, e merecedor de determinadas ações (sacrifícios) para que possam produzir o melhor e o mais abundantemente: dedicação, respeito, agradecimento.

     Tenham todos um excelente início de semana!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov