quinta-feira, 5 de junho de 2014
A IMPERATRIZ: Dia Mundial do Meio Ambiente
A IMPERATRIZ: Dia Mundial do Meio Ambiente
http://polaroidesdaalma.blogspot.com.br/2014/06/dia-mundial-do-meio-ambiente-um-simples.html
sábado, 15 de janeiro de 2011
Um simples saco de plástico
Neste momento em que a imprensa do país e do mundo estampam imagens da tragédia que se abateu na região da serra fluminense, reforça-se o necessário chamado de consciência para a questão ecológica.
Ecologia é algo muito mencionado, discutido mas pouco vivenciado. Basta que nos apercebamos de como o planeta está reagindo ao nosso descaso, à nossa inconsequente interferência, à maneira abusiva com que o tratamos, para termos uma visão mais realista da nossa co-responsabilidade em relação à tragédias como essa que ocorreram na região serrana do Rio de Janeiro. Não esquecendo que, há um ano, algo semelhante aconteceu em Angra dos Reis-RJ.
Não adianta agora ficar buscando culpados e, no conforto de nossas supostamente bem protegidas casa, ficar apontando o dedo acusando uns e outros, pelas páginas de relacionamentos sociais. É preciso que reconheçamos a nossa própria parcela de culpa nesse episódio. É necessário que enfrentemos a verdade nua e crua e paremos de transferir nossa culpa para os outros. É preciso que cada um de nós se pergunte: “O que é que eu fiz para evitar que isso acontecesse?”
Tragédias como estas acontecem para transformarem algo e que esse algo seja, antes de mais nada, a nossa maneira de vivenciarmos a nossa responsabilidade pessoal em relação ao assunto. Refletindo como nosso comportamento individual afeta o ambiente de uma maneira muito mais ampla do que pensamos, e que essas consequências podem ser muito funestas, temos a oportunidade de nos corrigir, prevenindo e até evitando que episódios como esses voltem a nos assombrar com seu rastro de mortes e destruição.
Hoje a postagem não traz uma análise de algum dos arquétipos do tarot, ou mostra uma maneira de jogar, ou apresenta uma orientação obtida através de algum oráculo. Hoje, a reflexão a respeito do que devemos saber para o futuro vem através da recomendação de que assistam a um pequeno filme. Se nós aceitarmos o fato que o futuro nada mais é do que uma continuidade, uma consequência, um efeito do nosso hoje, que, por sua vez, é o resultado de ações e eventos passados, esse filme é, então, uma projeção do que pode ser o futuro, baseado do que sabemos do presente.
O futuro não é algo difícil de se predizer quando se tem consciência da extensão das nossas atitudes, dos nossos investimentos e das nossas omissões no momento presente.
Ainda que hajam muitas razões para se duvidar, há vida inteligente na internet e o site WWW.FUTURESTATES.TV é um deles. Por que ele é hoje mencionado e recomendado aqui neste blog que se propõem, basicamente, a falar sobre tarot e outros oráculos? Porque ele, à sua maneira, também fala do futuro. E a maneira que esse provável porvir é apresentado é através de pequenos filmes ficcionais que retratam a visão particular de seus autores a respeito do futuro do planeta, da sociedade, baseado na realidade global que hoje presenciamos.
O site FUTURESTATES visa mostrar, através de imaginativos filmes de curta-metragem, como será o futuro, baseado na situação ambiental e tecnológica que vivemos hoje, sob a ótica de novos cineastas e pensadores. Ainda que, em sua apresentação, o site se refira às possíveis consequências ambientais que Estados Unidos sofrerão nos próximos anos, creio que possamos estender essa visão para qualquer região do mundo. Afinal o planeta é um só e os donos (e, portanto, responsáveis) somos todos nós, sem limites de fronteiras, de ideologias ou diplomáticos.
O filme, cujo link, está anexado à esta postagem é do diretor americano Ramin Gahrani e mostra de uma maneira quase épica o caminho “de vida” percorrido por um saco plástico em busca da mulher que a trouxe do supermercado para casa e que, finalmente, jogou-a fora.
Em seu atribulado caminho ele encontra estranhas criaturas, conhece a liberdade nos céu, chora a perda de sua ex-dona e tenta agarrar-se a um propósito na vida.
Finalmente, esse saco plástico acaba no oceano, entre as ondas e correntes de marés, em direção à grande concentração de lixo que existe no Oceano Pacífico. O Vórtex. Lá, ele encontra seu nirvana, onde poderá conviver com outros tantos iguais a ele e, aos poucos, nas centena de anos que o separam do seu fim, deixarem desaparecer as lembranças de sua antiga dona.
Como um dado curioso, quem faz a voz do saco plástico é o diretor de cinema Werner Herzog.
Ainda que o filme tenha uma qualidade plástica inegável e que a história das aventuras do “imortal” saco plástico em busca de sua dona original seja comovente, ele tem a finalidade de alertar para a durabilidade, a influência e as consequências que um único e simples, aparentemente inocente saco plástico, onde carregamos nossas compras, tem em todo o ambiente, numa região muito mais ampla do que a nossa vizinhança, onde o descartamos.
O site tem um alerta constante na forma de uma reflexão:
Pense a respeito:
Há um minuto atrás, este momento era o Futuro.
Daqui a um minuto, tudo pode mudar.
Obs: Clique em qualquer link ou imagem e será automaticamente conduzido para o local do filme.
Imagens: Cenas do filme “Plastic Bag” do site www.futurestates.tv
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Transmutar, em 2 cartas
A semana vai terminando e deixa um rastro de perda e de dor.
Há um grito comum na internet e nos demais meios de comunicação de que é chegada a hora de tomarmos consciência da nossa responsabilidade frente as catástrofes que sofremos. Não é mais possível fazer-se de cego às evidências. Mudanças precisam ocorrer para que outras centenas de pessoas não pereçam em acidentes como os ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro nesta semana. Alguns sairão às ruas agitando bandeiras pela necessidade de um maior comprometimento com a ecologia. Outros não deixarão cair na rua, “sem querer”, o papelzinho, a filipeta, o comprovante de venda, o invólucro do bombom, o cigarro que carregavam. Não importa qual seja a dimensão, a forma ou a atitude do comprometimento, é necessário que o façamos, individual e coletivamente, já. O planeta já não suporta o nosso descaso, filhos ingratos que somos, desprezando e maltratando a terra que nos dá as condições básicas de vida.
Utilizei, nesta manhã, as cartas do Lenormand para uma tiragem sobre quais seriam as energias que estaríamos (todos nós) tendo que lidar no dia de hoje e o que deveríamos ou poderíamos fazer para transmutá-la para que trabalhasse em nosso favor.
O método utilizado é bastante simples, conhecido e do qual me valho com muita frequência: embaralha-se as cartas e reparte-se o baralho. A carta que estiver no meio, corresponde à primeira parte da questão. Aquela que for a última, complementa ou responde a informação.
1ª Carta: Qual é a energia que vamos ter que lidar no dia de hoje (e, muito provavelmente, nos próximos dias)?
O Caixão: pode simbolizar acontecimentos ruins, comportamentos destrutivos, atitudes negativas, perdas materiais ou espirituais, fim de relacionamentos, perda de emprego, aposentadoria, doenças e até morte. Enfim, o caixão representa transformações de todos os tipos. Mas, como o Arcano XVI, a Torre, no Tarot, isso tudo pode ter um lado bastante positivo pois pode significar a libertação de um padrão que, este sim, era negativo. O planeta que rege esta carta é Plutão, o renovador, o transformador, o regenerador. Plutão nos fala do ciclo nascimento, morte e renascimento, ou seja, fins e começos. Sua força é a mais exaltada e costuma apresentar-se de maneira bastante agressiva, de forma violenta, explosiva, incontrolável.
2ª Carta: Como poderemos transmutar a energia simbolizada pela 1ª carta em algo que nos beneficie?
A Criança: esta lâmina costuma representar, ou anunciar, começo, novidade, inocência, pré-disposição, confiança, surpresa, futuro.
Crianças são imaturas, inexperientes, frágeis, mas são também o símbolo da esperança, da pureza de intenções, da continuidade, do porvir. Tendo a Lua como regente, essa lâmina nos fala de receptividade, de estarmos aptos e carentes para aprender, especialmente através dos sentimentos, das emoções.
Creio que fica evidenciada, nessa tiragem, que é o momento de nos utilizarmos dos nefando acontecimentos desta semana, dessa absurda e insensata perda de vidas, do que aprendemos com essa terrível experiência e buscarmos não ficar apenas nas lamentações, nas acusações, nos gritos de carpideiras, mas efetivamente fazermos algo para mudar. O que aconteceu, com todas as suas consequências, não deve ser apenas uma lembrança que se apaga bastando termos dias de sol e carnaval pela frente. Devemos fazer dessa tragédia ambiental, dessas vidas que se perderam algo construtivo, que demonstre claramente termos aprendido essa lição. É tempo, como o da juventude retratada pela carta da Criança, de buscarmos aconselhamento, buscarmos informação, aprendermos efetivamente, com humildade e perseverança.
É preciso que reconheçamos os nossos erros, as nossas omissões, a nossa parcela de participação nisso tudo que ocorreu e está acontecendo para que, só assim, possamos mudar. Não se transforma, não se altera, não se muda o que se desconhece ou, pior, o que não se reconhece. De nada adianta assumir passivamente a culpa e buscar um esconderijo na depressão. Mudança implica ação, então é tempo de arregaçar as mangas, dar um passo à frente e tomar controle da situação.
Que o façam os governantes. Para isso foram eleitos e são remunerados. Mas que a população civil não se esqueça que é ela quem deve agir efetivamente. Se eu não parar de fingir que não estou vendo, ou percebendo, que o papelzinho recebido na esquina “escorregou sem querer” das minhas mão e caiu na calçada, não me abaixar para pegá-lo e depositá-lo no lixo mais próximo, de nada adianta alarmes televisivos, notícias funestas em jornais ou mensagens exotéricas. Eu não estarei cumprindo a minha parte, por menos que ela possa parecer.
A lâmina da Criança, em seu aspecto menos favorável, pode simbolizar irresponsabilidade, descaso, imaturidade, descompromisso, uma atitude teimosa, caprichosa e desafiadora. Crianças, às vezes, veem a vida como uma grande e inconsequente brincadeira, um jogo de ganha-ganha. Esse aspecto, esse lado “sombra” da carta também deveria ser enterrado com o Caixão. Enterrado, não para escondê-lo sob um punhado de terra, mas para permitir que seja transformado em algo benéfico, positivo. Não mais, em frente às evidências, pode-se admitir esse tipo de descaso em relação à nossa casa (o Planeta), aos nossos semelhantes e a nós mesmos.
Estou vendo no calendário que celebra-se hoje o Dia do Enfermo. Vamos então aproveitar a data e celebrarmos, com nossas ações e comprometimentos, o dia em que todos começamos a curar a Terra.
Ilustração: Oráculo Lenormand
terça-feira, 18 de maio de 2010
Carta do Dia: 6 DE ESPADAS
JOCASTA
“…Mas dize por que vieste, e que notícias nos queres anunciar.”
MENSAGEIRO
“Coisas favoráveis para tua casa, e teu marido, senhora.”
JOCASTA
“De que se trata? De onde vens tu?”
MENSAGEIRO
“De Corinto. A notícia que te trago ser-te-á muito agradável; sem dúvida que o será; mas pode também causar-te alguma contrariedade.
JOCASTA
“Mas que notícia será essa, que produz, assim, um duplo efeito?”
MENSAGEIRO
“Os cidadãos do Istmo resolveram aclamar rei a Édipo, segundo
dizem todos.”
JOCASTA
“Quê? O venerando Políbio já não exerce o poder?”
MENSAGEIRO
“Não... A morte levou-o à sepultura.”
JOCASTA
“Que dizes tu? Morreu Políbio?”
MENSAGEIRO
“Que eu pereça já, se não for a pura verdade!”
…………………………………………………….
ÉDIPO
“Ora eis aí, minha mulher! Para que, pois, dar tanta atenção ao solar de Delfos, e aos gritos das aves no ar? Conforme o oráculo, eu devia matar meu pai; ei-lo já morto, e sepultado, estando eu aqui, sem ter sequer tocado numa espada... A não ser que ele tenha morrido de desgosto, por minha ausência... caso único em que eu seria o causador de sua morte! Morrendo, levou Políbio consigo o prestígio dos oráculos; sim! os oráculos já não têm valor algum!”
JOCASTA
“E não era isso o que eu dizia, desde muito tempo?”
ÉDIPO
“Sim; é a verdade; mas o medo me apavorava.”
JOCASTA
“Doravante não lhes daremos mais atenção.”
Mensageiro, Jocasta e Édipo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.
Sófocles, há aproximadamente 2.500 anos, ao criar essa obra-prima da literatura mundial, esse magnífico exemplo de peça teatral, utilizou-se de todos os recursos para dar veracidade ao drama que queria retratar.
Se olharmos “Édipo Rei” como uma peça sobre parricídio e incesto, estaremos fazendo uma leitura bastante superficial de todos os conflitos da alma humana apreendidos pelo sábio escritor em seu texto. Édipo é um homem com todos as virtudes e pecados, com todos os vícios e angústias, com todos os medos e egolatria que iremos encontrar na humanidade, de forma geral, em qualquer tempo. A maneira com que ele procura esquivar-se da verdade, ainda que, técnicamente a busque, é impressionante.
A chegada do Mensageiro, vindo de Corinto com a notícia que seu pais (que era adotivo) havia falecido é o bastante para que ele acredite que o Oráculo de Delfos estivesse enganado a seu respeito. Imediatamente, ao ouvir a notícia ele desacredita as mensagens das pitonisas do célebre templo de Apolo, recebidas anos antes, que diziam que ele mataria seu pai e casar-se-ia com a própria mãe. Na época, fugiu, para evitar que a profecia se cumprisse e que ele viesse a assassinar o Rei Políbio, de Corinto, e casar-se com a Rainha Mérope, que acreditava ser sua verdadeira mãe. Nessa fuga, tomando rumo de Tebas, cruza com o Rei Laio, que era seu pai verdadeiro, e, numa discussão tola, mata-o, vindo, depois, desposar sua mãe biológica, a Rainha Jocasta, com quem teve 3 filhos.
A notícia que o Mensageiro traz é o suficiente para que ele busque, desesperadamente, livrar-se de uma carga de culpa, de um medo que lhe é imenso de tornar-se assassino do homem que ama como pai e desposar a própria mãe. Esse conflito já é o bastante para que sua mente esteja obscurecida por confusos pensamentos. A notícia é uma esperança, uma porta de saída para uma situação. Uma possibilidade de mudança, de alteração dos fatos. O que ele ainda não sabe é que essa súbita reviravolta na história trará consigo ainda maiores angústias. Essa travessia que Édipo procura fazer, utilizando a notícia da morte por causas naturais de Políbio, não será tão tranquila quanto ele espera. Na margem oposta dessa pretensa passagem para dias melhores, aguardam-lhe novidades que irão aumentar ainda mais a sua confusão mental e obscurecerão ainda mais a sua alma.
MENSAGEIRO
“Podes revelar-me esse oráculo, ou é vedado a outros conhecê-lo?”
ÉDIPO
“Pois vais saber: Apolo disse um dia que eu me casaria com minha própria mãe, e derramaria o sangue de meu pai. Eis aí por que resolvi, muitos anos, viver longe de Corinto...”
MENSAGEIRO
“E foi por causa desses receios que te exilaste de lá?”
ÉDIPO
“Também porque não queria ser o assassino de meu pai, ó velho!”
MENSAGEIRO
“Oh! Por que não te livrei eu de tais cuidados, eu, que sempre te quis bem?”
…………………………………………..
MENSAGEIRO
“Sabes, por acaso, que esse receio absolutamente não se justifica?”
ÉDIPO
“Como não? Pois se eles foram meus progenitores...”
MENSAGEIRO
“Políbio nenhum parentesco de sangue tinha contigo!”
ÉDIPO
“Que dizes?!... Políbio não era meu pai?”
Após um momento em que, acreditando que o Oráculo estivesse errado e que ele nada devesse temer, Édipo é confrontado com mais uma das peças do grande quebra-cabeças que ele precisa montar para saber exatamente quem é. Ao tomar conhecimento que o Rei cretense não era seu pai, ele perde a única fonte de identidade que conhecia até então. Quem é ele? De onde ele vem? A que está predestinado? Convenhamos que essas são questões básicas que lidamos no curso de nossas vidas, e não são apenas recursos teatrais para nos manter interessados na história. Quem nunca se questionou qual a sua real função neste plano de vida? Se é, ou não, um joguete de um destino que pode ser, em alguns casos bastante cruel. O quanto de livre-arbítrio realmente possuímos e o que essa nossa capacidade de fazer determinadas escolhas pode, ou não, alterar um destino que pode ser (ou não) imutável. O quanto nos conduzimos e o quanto somos conduzidos por forças muito mais poderosas e arcaicas?
Quando um 6 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que a acompanham, além da questão proposta pelo Consultante, pode significar que se ele irá ou não adiante com a situação que está vivendo naquele momento irá depender inteiramente da sua clareza mental e disposição para enfrentar desafios e encarar a verdade dos fatos. Pensamentos confusos, truncados, são como bagagens inúteis, pesos mortos, que transportamos a cada porto da nossa vida. De nada nos servem. Quando abrimos nossos olhos e nossa mente, estabelecemos contato com a realidade, colocamos os pés no chão, conseguimos separar os eventos, os fatos, as pequenas peças que constituem o todo e analisa-las individualmente, conhecendo-as bem, não nos esquivando da dor ou do prazer que elas possam nos proporcionar. Assim sendo, tendo uma visão clara do conjunto e dos horizontes e caminhos disponíveis, estamos novamente prontos para assumirmos o leme desse barco que poderá nos conduzir, ainda que por águas turvas e agitadas, mas em segurança para uma margem mais ensolarada.
O aparecimento do 6 de Espadas é um lembrete para que sejamos fiéis a nós mesmos e corretos em nossa conduta. Para que usemos a nossa flexibilidade mental, ainda que dentro de uma situação bastante difícil ou conflitante, para que possamos encontrar o que nos motiva, o que nos faz seguir adiante. É importante, também, que nos lembremos que a maneira com a qual comunicamos nossos desejos, nossas intenções, nossas dúvidas, angústias, medos, ou emoções é fundamental para que possamos compartilhar e, assim, diminuir nossa carga. O 6 de Espadas simboliza um “dar as costas” para o passado, em busca de um futuro melhor. Mas o passado não é uma mancha que possa ser lavada das mãos. Enquanto o Consulente não o enfrentar corajosamente e procurar aceitá-lo e, se for o caso, resolve-lo, ele acompanhará, como peso extra na bagagem que carregará para qualquer seja o futuro que pretenda que lhe aconteça.
Édipo está num barco à deriva. Supostamente abandonou seus velhos temores, descartando a mensagem oracular recebida muitos anos antes, mas também não sabe o que lhe aguarda à frente. A notícia de que Políbio não era seu progenitor, destrói sua teoria de que a pitonisa do Templo de Apolo, em Delfos, enganara-se ao prever que ele o mataria. Políbio morrera de causas naturais e não pela sua espada… mas não era seu pai. A possibilidade do Oráculo estar certo ainda perdura.
O dia de hoje, no antigo calendário romano, era consagrado a Apolo, que representava o Sol e era o inventor da música, das artes e da adivinhação. Seu templo, em Delfos, era local de peregrinação e até hoje estuda-se, geologicamente, as possíveis influências de gases emanados do interior da terra na indução ao transe das pitonisas residentes. A palavra “oráculo” significa “comunicação divina” ou “aquele que fala em lugar de deus”. Talvez fosse interessante, nesta data, meditarmos e procurarmos ouvir a nossa voz interior, a fala da nossa intuição, e nos permitirmos estabelecer uma comunicação com o Divino que nos habita. Usemos, como exemplo, a figura do sábio, e cego, Tirésias, o vidente de “Édipo Rei”, que, na sua cegueira física, conseguia enxergar muito mais do que aqueles que tinham seus olhos voltados apenas para o exterior. Olhar para dentro de nós mesmo é necessário. Os gregos tinham um nome para pessoas como Tirésias: enthousiasmós (entusiasmo), ou seja, aquele que tem Deus dentro de si. Busquemos esse entusiasmo dentro de nossas almas.
Tenham todos uma excelente e transformadora terça-feira!
Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov
sábado, 1 de maio de 2010
Carta do Dia: 3 DE COPAS
Casaram-se 8 meses depois de terem se conhecido. Foi tempo suficiente para estarem juntos, aprenderem um sobre as “manias” do outro, serem apresentados às respectivas famílias e amigos, viajarem e surfarem juntos. Ela contava às amigas mais próximas o quanto estava feliz, em paz consigo mesma, realizada como mulher num momento em que sua carreira como estilista parecia estar no seu ponto máximo de produtividade. Ele, que sempre fora um pouco mais circunspecto, também falava de como ela era “diferente de todas as outras” e que ele sentia que “era pra toda a vida”. Os amigos de ambos brindavam a cada declaração de amor.
Tudo foi como deveria ser: convites elegantes em envelopes manuscritos em prata, igreja simpática cercada pela natureza e festa nos dourados salões do mais tradicional e mundialmente conhecido hotel da cidade. Comida e bebida de primeira. Música para todos os gostos. Os pais dos noivos, felizes e orgulhosos por poderem propiciar aos filhos e seus convidados uma festa tão perfeita. Os convidados, entre amigos, parentes, conhecidos estavam encantados com a recepção e não cansavam de dançar, comer e beber e abraçarem os noivos cumprimentando-os e desejando-lhes felicidades eternas.
Ela, linda. Vestido mandado fazer no mais famoso estilista de noivas da cidade, resplandecia numa nuvem de branco em meio ao salão. Sentia-se feliz, realizada, satisfeita, completa. Para não dizer que absolutamente nada a incomodara durante todo o processo de organização do casamento, foi aceitar o fato de que ele quisesse convidar a ex-noiva como madrinha. Achava que isso não era “legal”, até mesmo “chato”, e, por que não dizer, de certa forma deselegante da parte dele. Ele justificava que não era nada disso, que eram muito bons amigos, que tudo tinha sido muito bem resolvido quando terminaram a relação, que não houvera e nem haviam mágoas, que ela (a ex-noiva) estava feliz por ele ter encontrado “a cara metade”, e que, além de tudo, ela ocupava uma posição superior à dele no escritório de advocacia em que trabalhavam. Apesar das explicações dele, e dela deixar-se convencer, ainda assim a presença daquela “outra” entre os padrinhos e depois, belíssima, na festa, conseguiu roubar-lhe um pouco da sua atenção e alegria.
A festa foi inesquecível em todos os seus detalhes e todos divertiram-se muito. Sua melhor amiga, e agora também madrinha de casamento, não cansava de contar a todos que foi num aniversário dela em que os noivos se conheceram. O advogado amigo dele, por sua vez, completava essa história dizendo que foi por sua insistência que ele aceitara ir à uma festa de aniversário onde não conhecia nem a aniversariante e, coincidentemente, ter saído de lá “praticamente casado”! Todos riam, concordavam e só ficaram quietos por uns instantes quando foi feito o brinde entre o casal. Ambos trocaram suas juras de amor eterno embaladas em belíssimas e muito bem escolhidas palavras. Lágrimas pontificaram nos olhos das mulheres presentes. Depois ela, seguindo a tradição, jogou seu bouquet, para ser apanhado por uma das solteiras e, imaginem só, foi cair exatamente nas mãos da ex-noiva do seu marido. As convidadas acharam “muita coincidência”… O noivo achou muito engraçado. Ela… bem, para sermos honestos, ela não viu graça alguma e, sinceramente, achou um mau presságio. Mas manteve o sorriso, abraçou e beijou a ex-noiva e só mesmo a melhor amiga, que muito bem a conhecia, comentou depois que ficara “com a pulga atrás da orelha”.
Já amanhecia quando o famoso fotógrafo especializado em casamentos convidou-os à varanda do salão de festas para as últimas fotos. Estavam cansados mas felizes. Ele aproveitou para beijá-la mais uma vez e segredou-lhe que a vida dele começava naquele momento. Ela, qual princesa encantada de contos de fadas, parecia envolta num sonho que tinha como vantagem não ter um despertador para acordá-la. Beijaram-se uma vez mais e olharam juntos o novo dia que nascia em raios de sol que pareciam abençoar em luz e calor aquela união. Sabiam que haveriam muitos novos amanheceres e pores do sol à sua frente e estavam dispostos a vive-los juntos.
Quando um 3 de Copas aparece numa leitura de tarot, dependendo sempre de sua posição dentro do esquema escolhido para o jogo e das demais cartas que o acompanham, além, naturalmente, da questão proposta pelo Consultante, ele pode significar um momento em que o Consulente está expressando plenamente as suas emoções, comunicando bem os seus sentimentos. Sentir-se maravilhosamente bem e único. Curar-se de algo emocional. Ter amigos, família e as pessoas amadas à sua volta, nas ações do cotidiano ou em grandes celebrações. Comprometer-se com outra pessoa. Sentir-se saudável e feliz. A solução de um problema que acaba se resolvendo da melhor forma possível. Vivenciar experiências, ou reagir a elas, de forma muito intensa e alegre, ainda que possam vir a surgirem algumas lágrimas no futuro. Amizade. Companheirismo. Pessoas com quem podemos contar. Grupos de apoio. Uma ajuda que o Consultante recebe e que o conduz a um caminho de auto-descoberta e transformação. O nascimento de uma criança. Celebração.
Em seu aspecto “sombra”, o 3 de Copas pode significar uma grande dificuldade de expressar os sentimentos. Ou que o Consulente, sendo dado a explosões emocionais, esteja tentando se controlar o máximo possível. Se o assunto da leitura for amizade, pode significar dificuldades e até mesmo o rompimento da mesma. Frequentemente essa carta simboliza exageros em termos de alimentação, bebida, fumo, drogas, sexo, sensualidade, etc. Amigos que tornam-se invejosos ou ciumentos devido às suas posses. Não sentir-se satisfeito com o que possui. Sentir que a felicidade parece esvair-se. Ser egoísta ou mesquinho. Não sentir prazer em celebrar algo em companhia dos outros.
Neste feriado de 1º de Maio, um sábado regido pelo controlador Saturno que nos mostra o caminho a seguir fazendo-nos atentos às responsabilidades e desafios que devemos assumir e enfrentar neste plano de existência, podemos nos perguntar o quanto temos cometido de excessos, com a desculpa de estarmos aproveitando a vida. Também é um bom momento, com o 3 de Copas como Carta do Dia, de refletirmos se estamos nos impedindo, nos boicotando, de aceitar todos os benefícios que o Universo nos proporciona e sermos por isso agradecidos. Ou então, o que podemos e devemos comemorar? O que podemos, hoje, agradecermos e celebrarmos? Talvez o início de uma mudança no nosso trabalho. Ou o nascimento de um filho. Ou a aprovação num concurso. Ou uma nova história de amor. De qualquer forma haverá sempre algo que podemos nos alegrar por termos conseguido, ainda que saibamos que aquele é apenas um ponto no meio do desenvolvimento de todo um projeto. Um filho que nasce é uma grande alegria, mas teremos toda uma vida para dele cuidarmos e com que nos preocuparmos e alegrarmos. Um novo cliente, conseguido com muito sacrifício, é motivo de sobra para ser celebrado, mas teremos pela frente todo o trabalho a ser desenvolvido. Um concurso em que passamos é, indiscutivelmente, um mérito que merece festividades, mas é apenas o começo de uma nova fase que irá ter continuidade.
Aproveitem para agradecer, celebrando, por tudo que têm, inclusive pelos sonhos e esperanças e tenham todos um festivo sábado!
Imagem: TAROT OF THE RENAISSANCE, por Giorgio Trevisan
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Carta do Dia: A ESTRELA
“Eu sei que é terrível tentar manter a fé quando as pessoas estão fazendo coisas tão horríveis… Mas, quer saber no que eu às vezes penso? Eu penso que o mundo está atravessando uma fase, da mesma maneira que eu atravessei uma fase difícil com minha mãe. Vai passar. Talvez não leve centenas de anos, mas algum dia irá terminar. E eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são boas, no fundo dos seus corações.”
Anne Frank _ (Frankfurt am Main, 12 de Junho de 1929 — Campo de Concentração Bergen-Belsen, início de Março de 1945)
Antes da 2ª Guerra Mundial parte da Europa tolerava o racismo e o anti-semitismo como algo normal e até natural. Quando os nazistas levaram a extremos inimagináveis essa maneira enganosa, tendenciosa e preconceituosa de pensar e agir, o resto do mundo percebeu que não poderia sob qualquer circunstância aceitar ou continuar sendo complacente com o ódio. Esse tipo de revisão e reforma de filosofia, direcionamento e intenção é a base do significado do Arcano XVII, a Estrela.
A Estrela é a 17ª carta dos Arcanos Maiores e pode ter sua numeração (17) reduzida (1+7) a 8, que é o número da carta da Justiça, dentro do padrão Marseille do tarot. É a combinação da racionalidade, imparcialidade e do equilíbrio (Justiça) com a intuição, harmonia e fé que a Estrela propõe. Também podemos ver nessa carta a necessidade de perseverarmos, de mantermos a confiança em nós mesmos e sermos otimistas (o Carro, arcano 7) e aproveitarmos as oportunidades e sabermos nos adaptar às circunstâncias ( a Roda da Fortuna). Mal canalizada, a energia da Estrela pode ser notada naquelas pessoas que vivem apenas de uma vaga esperança, em nada contribuindo para que as coisas aconteçam, talvez, até mesmo, por duvidarem da sua própria fé.
Depois da destruição da Torre, a Estrela irradia regeneração. Se a Torre nos mostrou um retrato da nossa humana arrogância, que acaba degenerando em algo desastroso, a Estrela nos fala da humildade que devemos ter em nos considerarmos partes da Natureza. Nem melhores ou piores que os demais seres e elementos que a compõe mas iguais em importância.
O seu signo astrológico é Aquário, o aéreo pacífico, amoroso e inspirado aguadeiro dos deuses e, portanto, a água tem um papel importante na simbologia desse Arcano. Não são apenas os cristãos, com o seu batismo nas águas que os lava do pecado original. Antes das 5 orações diárias, os seguidores do islamismo se lavam, num ato de purificação para “falar” com Deus. Os hindus consideram as águas do rio Ganges sagradas e nelas se banham, pois antes de chegarem à Terra elas escorrem entre os pés de Vishnu. Também os judeus têm banhos rituais e para muitas religiões esse é o primeiro passo para unir-se com Deus.
Além da idéia de união com a Natureza, com o Divino, a nudez e simplicidade dessa carta nos remete às origens da vida (Binah). A Estrela nos dá coragem para termos a esperança de que o nosso mundo também irá renovar-se, purificando-se nas águas, pois ainda que soframos desastres (a Torre) de percurso, a vida continua. A Estrela é o 28º Caminho da Árvore da Vida cabalista e une Yesod ( o Alicerce) a Netsach (a Vitória). É a força do trabalho emocional que desenvolvemos quando desejamos transformar uma idéia em realidade. É uma fusão de dois fluxos de consciência para criar um outro, maior, que podemos denominar intuição. Podemos então dizer que a Estrela não é necessariamente apenas a sequência da Torre, mas uma alternativa a ela. Nós podemos mudar nossos destinos e para tanto basta-nos ter a necessária humildade de nos submetermos, de nos curvarmos, de trazermos o nosso ego a um ponto de equilíbrio, lavando-0 das máculas do orgulho, da vaidade, do egocentrismo.
Numa leitura de tarot, dependendo da questão proposta pelo consulente, das demais cartas que a acompanham e da sua posição no esquema de jogo, a Estrela quase indefectivelmente simboliza otimismo, esperança e abertura a novas oportunidades. É uma carta de fala de renovação, quando o consulente pode recomeçar uma situação já existente ou então começar do zero, em algo novo e diferente. Essa é uma carta que sugere que se livre da sobrecarga de detalhes, incidentes, fatos, compromissos, incidentes e que se busque o verdadeiro âmago da questão. É uma volta a um estado básico, muito mais simplificado e que requer uma limpeza. Portanto, se a pessoa estiver se sentindo ferida ou prejudicada, é hora de lavar-se de toda a dor, eliminando o sofrimento passado. Pode parecer difícil, mas renovar é algo que necessitamos nos permitir experimentar. Significa ser humilde, não querendo sobrepujar os outros com atitudes de arrogância e orgulho. Humildade também não é reduzir-se a nada, esquivar-se de seus compromissos consigo próprio e com a vida. É reconhecer-se como parte integrante de algo maior, e não “ser o maior”. Essa é a base do aspecto otimista deste Arcano, pois quando confiamos num futuro que não dependa exclusivamente de nossos próprios esforços, estamos reconhecendo a interferência ativa de algo maior e isso é o que chamamos de fé.
Numa posição mal dignificada na jogada, a Estrela pode significar que tememos o futuro, tememos sermos nós mesmos e tememos o que os outros possam pensar de nós. Temos dificuldade de expressar nossos sentimentos e, em especial, o amor. Pode ser indicativo de que estamos nos sentindo isolados e que estamos sofrendo de tensão e de ansiedade. Pode significar que a pessoa, envolvida numa miríade de detalhes, tenha perdido o rumo da própria vida. Isso é muito comum quando o assunto é trabalho e também pode acontecer quando vivemos um relacionamento em que estamos muito mais interessados na sua história e nos ressentimentos e rancores que experimentamos. Quando o consulente se sente reprimido ou à margem da vida, talvez seja necessário expor-se as feridas que provocam essa dor e limpá-las, permitindo a sua cura.
Em qualquer que seja o posicionamento da carta na jogada, ela significa, em última instância, esperança. Após um período de sombras, chegou a hora de despertar novamente para a luz. Novas possibilidades aparecem no horizonte após o vendaval cósmico que provocou alterações em nosso espírito, alertando-o para uma mudança, às vezes, radical. Forças externas podem ter provocado essa mudança, mas se ficarmos atentos à nossa intuição, à nossa voz interior, iremos perceber melhor a nossa necessidade de nos transformarmos. Respeitando esses nossos ciclos estaremos nos reciclando, nos preparando para novas metas que serão vividas com o reconhecimento humilde de quanto ainda temos a realizar e aprender.
A Estrela, como os demais corpos celestes, é uma bússola da qual podemos nos valer em busca de orientação em nosso caminhar. Ela nos ajuda a compreender que rumo seguir, que direção devemos tomar, servindo como um farol que nos permite navegar com segurança e êxito pela vida. É quando temos autoconfiança e fé em nós mesmos, quando nossas emoções e nosso espírito estão harmonizados, que ouvimos a voz do nosso guia interior.
Hoje a Lua Cheia está em Capricórnio o que nos permite uma energia que reforça a nossa autoconfiança e reequilibra as nossas emoções. Estaremos mais seletivos, procurando a qualidade em lugar da quantidade. A Estrela, tendo Saturno em Libra, é sinal de equilíbrio rigoroso e planejamento a longo prazo. Nada melhor para começar a semana, não é mesmo? Esperança, segurança pessoal, excessos evitados, equilíbrio e renovação de idéias e metas.
Tenham todos uma esperançosa e bastante recompensadora semana à frente!
“Nós nos agarramos a alguns sonhos, quando tudo _ ideais, esperanças_ tudo está sendo destruído.”
Anne Frank _ (Frankfurt am Main, 12 de Junho de 1929 — Campo de Concentração Bergen-Belsen, início de Março de 1945)
Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Carta do Dia: O JULGAMENTO
A Carta do Dia hoje tem muito a ver com algo que eu próprio deverei fazer nas próximas horas. Faleceu uma grande amiga e haverá uma cerimônia antes do seu corpo ser incinerado, nesta tarde. Lá estarei, junto à família e aos demais amigos, consolando-nos pela sua ausência, rememorando seu caráter e esfuziante personalidade, possivelmente rindo e chorando ao mesmo tempo e encerrando uma etapa de nossas vidas. Vivendo, a partir de agora, a sua ausência não como uma lacuna, um tenebroso vazio, mas transmutando sua memória em algo eminentemente nosso e que nos acompanhará como uma motivação para enfrentarmos os percalços que a vida possa nos apresentar, e nos deliciarmos com as benesses que dela, a vida, também recebemos em igual proporção. Sabemos, em nossas almas, que ela evolui para um plano superior a este, reconciliada consigo mesma, redimida perante sua consciência, totalmente desperta em sua espiritualidade e pronta para iniciar um novo ciclo cósmico.
É claro que o Julgamento tem ainda um ranço muito grande, cristão (e por favor não vejam em minhas palavras nenhuma crítica a nenhum sistema religioso) de que chegará um dia em que todos os vivos e os mortos, que ressurgirão de suas tumbas, ouvindo o chamado do Anjo do Senhor (Gabriel) para serem julgados e então começar uma nova era de amor e paz celestial, livres de pecados e separados, os bons dos maus.
Penso que esse tribunal onde todos prestamos contas dos nossos atos existe dentro de nós mesmos (consciência) e que temos não uma, mais inúmeras possibilidades de “renascermos” para uma nova vida.
Mas não posso deixar de aproveitar esse momento de saudade da minha amiga para refletir sobre o nosso tempo nesta terra, e de quantas vezes “morremos” e renascemos, para novas, maiores, mais intrigantes, produtivas e mais harmoniosas oportunidades. Todos os dias temos, de alguma forma, uma chance para melhorarmos. Para abandonarmos um passado que já não mais nos interessa, que nada mais representa na ordem das coisas e, libertos, apreciarmos, com surpresa, admiração, às vezes medo ou ansiedade, mas de coração aberto, o que a vida tem a nos oferecer. Somos verdadeiras fênix que , ao sentirem sua missão cumprida, o tempo que tinham para uma determinada missão esgotado, constroem seus próprios ninhos e neles se imolam no fogo regenerador do espírito (isso sempre me lembra a simbologia de Pentecostes) e renascem ainda mais belas e fortes, preparadas para novas missões, novos embates.
Nem sempre aquilo que planejamos ou sonhamos para nós é exatamente o que alcançamos. Muitas vezes nos surpreendemos com as guinadas do destino, as mudanças absolutamente inesperadas que a vida nos propõe, mas as aceitamos sem dor, sem ressentimento, como uma novidade, algo que nunca havíamos pensado fosse nos acontecer e que acaba se provando muito mais interessante, útil e potencializador do que aquilo que queríamos ou esperávamos. É uma nova chance de começar, seja através de um novo trabalho que surge do nada, uma mudança para uma nova casa, numa nova cidade onde viveremos melhores condições de vida, um novo relacionamento muito mais completo do que os que já vivemos anteriormente.
Quando eu era criança e ficava frustrado com o resultado das coisas que não saíam como eu esperava, minha mãe sempre vinha com aquele ditado:”Deus escreve certo por linhas tortas”, e eu, na minha total falta de experiência respondia, emburrado, que então ele deveria comprar um caderno melhor. A vida me ensinou, paulatinamente, através de longos anos, que tudo o que nos acontece, ou deixa de acontecer, obedece a um padrão muito maior, que nos leva a outros patamares, nos oferece outras possibilidades, até mesmo as de revermos nossos conceitos, nossos desejos, nossas metas. É uma chance de olharmos à nossa volta e vermos o que nos cerca com outros olhos (lembram-se do Enforcado, o arcano que foi a carta de ontem?), sob uma perspectiva diferente, mas certamente muito mais iluminada.
O Julgamento não é simplesmente virar as costas para o passado ou abandonar uma idéia sem dela fazer nenhum juízo de avaliação. Ao contrário. É uma soma de vivências, de reconhecimento de nossos erros e acertos, da honesta avaliação de nossas escolhas durante a nossa jornada, de colheita dos frutos daquilo que através do nosso livre-arbítrio semeamos pelo caminho, da nossa coragem de enfrentar nossos próprios demônios e temores. O passado não é para ser escondido ou esquecido, mas encarado às claras, uma vez mais, confrontando-o e julgando-o antes de ser ultrapassado. É esse exame de consciência que dá um encerramento a um ciclo e nos permite um renascimento, livres de culpas, angústias, redimidos conosco e com o universo, prontos para aceitarmos o chamado interior para fazermos uma nova e importante mudança de vida, renascendo para um novo mundo a fim de cumprirmos um novo propósito.
Na cerimônia que faremos na tarde de hoje estaremos, ritualisticamente, encerrando um ciclo em nossas vidas. Nossa amiga não estará mais, fisicamente presente, para nos entreter com suas histórias, nos divertir com o seu jeito muito autêntico de ser, representar a âncora da qual podíamos nos valer numa miríade de situações. Deixa-nos entre as mais agradáveis memórias, a sua corajosa luta contra a doença. A sua maneira de viver anos de de sofrimento físico transmutando-os num desapego das coisas materiais e se reabilitando com sua consciência, com a sua espiritualidade, com a fé em algo maior que nunca a abandonou. Creio que Bibi (Sybil May Halter) sempre soube onde esteve, onde estava, e para onde iria, consciente de suas fraquezas e de sua força, nunca temerosa de ouvir o chamado interior, mesmo mergulhada no burburinho da vida diária ou nas longas e solitárias permanências hospitalares.
Estou certo que neste momento, em algum lugar que a minha irrisória idéia de tempo e espaço não me permite avaliar, ela regenera-se unida ao seu Criador, recuperando suas forças, construindo o seu ninho para um dia, uma vez mais, trazer a este plano o brilho da sua alegria e uma nova lição de vida.
Permitam-se, neste dia, reconciliarem-se consigo mesmos e viverem, com muita alegria, as mudanças (sejam quais forem) que a Vida lhes propõe.
