domingo, 4 de abril de 2010

Carta do Dia: A TORRE

     Torre Um amigo da nossa família  construiu uma excelente carreira como bailarino do Corpo de Baile do Theatro Municipal. Nas férias vínhamos assistir aos espetáculos que nos fascinavam, não só pela beleza das coreografias, da música, dos figurinos e cenários, mas também pela presença daquele nosso “quase vizinho” fazendo, com habilidade e arte, os principais papéis masculinos. Vindo de uma família de poucas posses, havia encarado o desafio de mudar-se para a capital, trabalhar como garçom para poder pagar as aulas de dança, submeter-se aos testes de seleção para, finalmente, brilhar no palco daquele verdadeiro santuário das artes.

     Por intermédio da dança viajou por todos os continentes, apresentando-se nos mais importantes palcos e recebendo as melhores críticas pelo seu fantástico desempenho. Aos 25 anos o mundo parecia curvar-se aos seus pés e um novo Nijinski parecia ter surgido do interior do Brasil para conquistar o planeta. As portas da fama e do sucesso abriam-se, de par em par, para esse jovem. O dinheiro fluía, assim como o redemoinho de compromissos sociais, sessões de fotos, ensaios, convites para jantares em palácios, embaixadas, apresentações como convidado especial de outras companhias de dança.

     Numa das últimas vezes que juntos estivemos era óbvia a transformação que aquele rapaz simples, humilde, tranquilo, trabalhador e inteligente do interior havia sofrido. Uma mudança que se percebia não apenas numa nova e sofisticada maneira de expressar-se, mas numa arrogância notável na qual ele era o único motivo cabível para justificar qualquer conversa. Convencido de seus dotes artísticos, desfiava os mais elogiosos comentários sobre si mesmo feitos por importantes personalidades. Sobre nossos amigos comuns, que continuavam a morar no interior, nenhuma pergunta, nenhum interesse. Procurávamos, de qualquer maneira, justificar essa metamorfose como um processo que logo se estabilizaria, pois afinal, era compreensível que ele estivesse numa outra sintonia que não a nossa. Afinal, tantas coisas excepcionais haviam lhe acontecido em tão pouco tempo.

     Fomos, rapidamente, perdendo o contato mas acompanhávamos a sua vida através do colorido das fotos nos jornais e das notícias na TV. E foi numa dessas ocasiões, assistindo a um telejornal, que ficamos sabendo de um terrível acidente sofrido por ele. Voltando para casa, após uma noite de estréia, provavelmente celebrada intensamente, foi atropelado. O infeliz evento custou-lhe uma das pernas, amputada na hora e o sério comprometimento da outra. A tristeza abateu-se de forma profunda e intensa sobre todos nós e não haviam palavras que pudesse servir de consolo para os seus pais, naquele momento.

     Muitos meses depois, ele retorna, em definitivo, à casa da família. Fui visitá-lo, procurando, no caminho, formular algumas frases que pudessem servir-lhe, se não de consolo, pelo menos de solidariedade e estímulo. Encontrei, numa cadeira de rodas, um ser humano arrasado, totalmente destituído daquela empáfia, daquela vaidade, da segurança e carisma que lhe eram peculiares nos últimos anos. À minha frente estava uma pessoa despojada de absolutamente tudo, sem nenhum traço de auto-estima e, pior, sem esperanças. Num desnecessário mea culpa, justificava sua desatenção para com os velhos amigos, seu desprezo pelas origens humildes, a tentativa de ocultar do resto do mundo tudo o que não fosse glamoroso em sua vida. Pedia que lhe perdoássemos a falta de telefonemas, a não retribuição dos cartões de boas-festas, o tempo que nunca pode dispensar quando nos encontrávamos pois estava sempre tão ocupado, com agendas sempre lotadas de compromissos, prisioneiro da sua carreira e de tudo o que ela representava para ele. Era um escravo da opinião da crítica especializada e dos coreógrafos cuja arte e poder haviam lhe permitido a vida de fausto tão sonhada. Meu amigo estava, como dizemos em tarot, vivendo uma Torre.

     Quando o Arcano XVI, a Torre (ou a Casa de Deus) aparece numa leitura, levando-se em conta a questão proposta pelo consulente e a sua posição entre as demais cartas da jogada, ela pode simbolizar eventos preocupantes, revolucionários, explosivos, especialmente se eles ocorrem de súbito. Não é uma evolução, algo que demanda um certo tempo e transitoriedade. É algo catastrófico, surpreendente, para o qual quase nunca estamos totalmente preparados. Algumas vezes significa o colapso de uma situação existente ou o fracasso de um plano, especialmente quando isso acontece devido a uma pressão interior. É um sinal de que, apesar de avisos de perigo, a pessoa continua teimosamente trilhando um determinado caminho que, inevitavelmente, irá apresentar algum tipo de desastre no final. É também sintoma de isolamento, orgulho e de ensurdecer-se aos pontos de vistas das outras pessoas. Num relacionamento pode significar um aumento de pressão causado pelo acúmulo de problemas e insatisfações, prestes a explodir, a não ser que se pare de tentar ignorá-los.

     Assim como a carta da Morte, a Torre pode ter um efeito libertador. Ainda que desagradáveis de serem vividos, os efeitos da torre podem soltar a pessoa das situações opressivas que vem vivendo e libertá-la para novas oportunidades. A Torre age como um veículo de revelação e não exatamente de iluminação. É um acontecimento que permite que as coisas sejam vistas com novos olhos, com uma nova compreensão. A Torre nos obriga a ver os fatos de uma maneira mais completa. Isso não significa que não possamos obter uma revelação espiritual através da demolição das estruturas que construímos para nos abrigar. Importante é reconhecer que ela representa o fim completo de uma situação e não querer se apegar aos seus restos mortais ou, pior, revivê-la. A Torre é um verdadeiro terremoto, de grau máximo, que acontece sem que a pessoa espere por ele.

     Nosso amigo bailarino viu-se forçado, por um evento fortuito, a despencar do alto da sua torre, abandonando a vaidade, a ilusão, o orgulho, a prepotência, o egocentrismo e aterrar, enfrentando a realidade e a necessidade de reconstruir-se, até mesmo fisicamente, tendo que recomeçar do zero absoluto. Todo o seu investimento havia sido feito na realização de seu sonho em transformar-se no grande artista, cercado de glórias, de admiradores, de recompensas materiais que foi. Agora era preciso encontrar uma nova razão para continuar vivendo (16 = 10 e 6= a Roda da Fortuna e os Amantes, a mudança em busca de novas alternativas) e esse processo começou perguntando-se o que foi necessário ser destruído em sua vida para que ele pudesse recomeçá-la. Do que seria necessário libertar-se para poder livremente e seguir novos caminhos (16 = 1+6= 7, o Carro, controle + força de vontade)? Bom, no caso dele foi o de oferecer-se, como voluntário, a trabalhar com as crianças de uma comunidade muito carente em sua cidade. Ensinou-lhe a criarem e construírem cenários e a desenharem figurinos e princípios básicos de iluminação para palco. Assim elas complementavam as aulas de ballet que recebiam de uma jovem, talentosa e dinâmica voluntária e possibilitavam construir espetáculos ainda mais bonitos. Meu amigo encontrou na professora não apenas uma parceira, uma colaboradora eficaz, mas um verdadeiro amor. Construíram juntos uma família onde antes só haviam escombros.

     A carta da Torre está profundamente ligada ao Arcano XX, o Julgamento, que é um chamado para um renascimento em todos os sentidos, especialmente o espiritual. É uma nova oportunidade de reestruturação após uma grande perda, um abalo violento. Sincronicamente, pois coincidência não existe, hoje é domingo de Páscoa, quando os cristãos comemoram a ressurreição de Cristo, o seu nascimento para um novo plano de vida. Creio ser esse o grande exemplo do que podemos fazer ao transmutar as situações que nos colocam com os pés no chão: vivê-las intensamente mas com esperança e fé. Se algo em nossa vida está se mostrando como uma má escolha feita, uma decisão precipitada e da qual nos arrependemos, um vício adquirido e do qual precisamos nos libertar, esse é o momento. Há que se destruir todas as estruturas dessa falsa máscara que construímos para nós mesmos e para que os outros nos aceitem e removermos o ego das alturas onde ele se posicionou e arfa com o ar rarefeito que o cerca. É tempo de assumirmos nossas dificuldades pessoais, desconstruirmos, peça a peça, o elaborado e labiríntico quebra-cabeças que armamos e nos concedermos a graça do perdão.

     Que a Luz da Espiritualidade possa brilhar sobre cada um de nós neste momento de Renascimento para uma vida melhor, agora e em todos os nossos dias nesta existência. Feliz Páscoa!

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)

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