sábado, 10 de abril de 2010

Carta do Dia: O LOUCO

     Bem, chegamos ao começo de uma nova jornada.

    Louco Se o Arcano XXI, o Mundo, representava a culminação do processo de experiências vividas pelo Louco em sua trajetória em busca da iluminação interior, feita através de “conselhos” recebido, por vivências assimiladas, chegamos agora no momento em que ele, esse inocente, infantil e instintivo ser, lança-se, indômito, a novas aventuras. Instintivamente sabe que muitos ainda são os degraus a serem galgados, muitos os caminhos a serem escolhidos e trilhados e muitas as surpresas e os saberes que lhe aguardam a cada novo passo da sua estrada, mas essa é a sua proposta. O Louco é o eterno aprendiz. O andarilho que percorre as mais diversas sendas em busca de respostas que, muitas das vezes, nem ele mesmo racionalmente as formulou, para compreender-se como ser humano, como espírito e localizar-se no Universo.

   Pinocchio998   Pinóquio era um boneco de madeira construído pelo artesão e manipulador de títeres, Gepeto (o Mago, o pai espiritual) para lhe fazer companhia como se fora um filho, sem saber que a árvore da qual a madeira havia sido extraída era mágica. Entretanto o grande sonho dessa criatura de madeira (elemento natural, simbolizando o Fogo) era tornar-se humano (ter espírito, atingir a quintessência). A mística Fada Azul (a Estrela) aparece-lhe avisa-o que se ele se comportar (se dominar seus instintos primitivos e aprender as regras e virtudes das quais os seres humanos se utilizam para conviverem), ela lhe concederá uma alma. Para que esse aprendizado de humanidade fosse facilitado e que ele pudesse sempre percorrer os melhores caminhos (usar de seu livre-arbítrio), a Fada apresenta-lhe o Grilo Falante (sua intuição), alertando-o que a cada deslize, a cada erro cometido, a cada escolha mal feita, a cada mentira, seu nariz irá crescer (seu sentimento de culpa, a perda de harmonia interior; nariz corresponde a respiração e ar é vida, fundamental à sobrevivência dos seres).

     Ainda assim Pinóquio, recusando-se a ouvir a voz da sua consciência (o Grilo Falante) que insiste em preveni-lo de seus erros, esforçando-se para afastá-lo dos perigos, envolve-se em todos os tipos de encrencas, unindo-se a indivíduos suspeitos e sem nenhum caráter, pelos quais é explorado, usado, humilhado e rejeitado. Demonstra, através dos atos praticados, ser possuidor de grande egoísmo (o lado sombra: a Imperatriz), rudeza (o lado sombra: o Imperador) e agressividade (o lado sombra: a Força), indolência (o lado sombra: o Mago), insensibilidade (o lado sombra: a Sacerdotisa), teimosia (o lado sombra: a Temperança), estupidez (o lado sombra: o Hierofante), irresponsabilidade (o lado sombra: o Carro), malícia (o Diabo) e auto-piedade (o lado sombra: o Pendurado). A Fada, então, castiga-o (a Torre) transformando-o numa árvore (fazendo que ele caia do alto do seu orgulho e obstinação e coloque os pés no chão) que acaba sendo cortada e vendida por um lenhador (a Morte). As experiências vividas através das escolhas erradas, quando boas oportunidades lhe eram concedidas, ensinam-lhe a necessária lição evolutiva. Do estágio primário, altamente potencial, cheio do Fogo criativo vai aprendendo a canalizar essa potente energia adquirindo a necessária sabedoria e elevação espiritual (o Julgamento) que caracterizam a espécie humana. No final da estória, a Fada Azul transforma-o num menino real (o Mundo).

     A estória de Pinóquio é um dos muitos exemplos que temos da chamada “viagem do herói”, ou seja, a evolução daquele aspecto criança que existe em cada um de nós que sabe brincar, é cheio de vitalidade e vivacidade. É nosso lado infantil, espontâneo, primitivamente criativo, sensual e jovial. É também uma energia que se manifesta de forma irreverente, anarquista e muitas vezes amoral, que derruba padrões e desconhece limites. É o desejo que todas as crianças têm de experimentarem e fazerem de tudo, mesmo aquilo que lhes é vedado ou proibido, apoiando-se sempre na sua enorme imaginação criativa que lhes sugere mentiras a serem contadas para se livrarem das situações. A isso chamamos de travessura ou irresponsabilidade. Sem pretender em absoluto ferir a sensibilidade religiosa de ninguém, cito a passagem bíblica da infância de Jesus, quando ele fugiu de seus pais, deixando-os muito preocupados, para ser encontrado, bem mais tarde, ensinando e conversando com os professores e sacerdotes do templo. Coisas de criança, diríamos, não é mesmo?

     Esse Arcano não tem número, ou então lhe é atribuído o valor de O (zero). Zero não significa nulidade, mas a potencialidade. É a soma do positivo (+1) ao negativo (-1). É o embrião, a semente de todos os demais números. Representa os dotes interiores e os recursos potenciais. Pinóquio (Pinocchio, em italiano) significa pinhão, a semente da pinha. Como semente, é preciso que a casca se rompa, que ela morra para que a vida possa dela brotar. É uma ressurreição. É o Ovo Cósmico, que ao romper sua casca gera o Big Bang, a grande explosão resultante do choque de energias contrárias que provoca um movimento centrípeto (+) e outro centrífugo (-), que é a maneira pela qual a ciência, hoje, supõe ter originado todo o universo. Na Árvore da Vida, segundo a Cabala, ocupa o 11º Caminho, chamado de “Caminho da Inteligência Cintilante”, que liga Kether (a origem de tudo) a Chokmah (o primeiro movimento no sentido da manifestação). O nome divino a Kether é EHEIEH que significa “eu serei”. Chokmah, por sua vez, significa, em hebraico, “sabedoria”. “Serei sábio” deve ser o lema do Louco no seu processo de crescimento.

     S. Marcos, em seu evangelho (10, 14-16) cita Jesus dizendo: “Deixem que as crianças venham a mim e não as proíbam porque o Reino de Deus é das pessoas que são como estas crianças. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele”. Para alcançarmos a nossa completa harmonia e paz interior é necessário que a busquemos imbuídos de ingenuidade, alegria, de forma descomplicada, com curiosidade e disposição de aprender brincando, sem levar-se muito à sério. Não se pode deixar abater pelo temor do ridículo, ou do fracasso e de nem mesmo ser considerado um alienado. Permitir-se encantar com tudo o que a vida tem a oferecer. Ser ousado e ter uma personalidade autêntica e íntegra. No começo da jornada o Louco pode ser comparado a uma pessoa ingênua, mas que irá se transformar num sábio ingênuo ao final. Essa ingenuidade, essa pureza infantil deverá ser mantida em todo o percurso.

     Quando o Louco aparece numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua localização na jogada, das demais cartas que o acompanham e do assunto proposto pelo Consulente, ele nos convida a nos proporcionarmos uma nova forma de olhar a vida, sem parar para calcular o lucro, sem ficarmos nos questionando se seremos bem sucedidos ou não, sem temer fracassar. Simboliza o momento de alterarmos ou ajustarmos nossas atitudes e comportamentos de tal forma que possamos alegremente novos desafios, permitirmos novas idéias tomarem conta da nossa mente, e não perdermos a espontaneidade. O Louco, numa tiragem, não significa que tudo irá correr sob controle, ou da forma que imaginamos. Naturalmente, podemos esperar por coisas boas, mas lembrando-nos sempre de que o que é “bom” para o Louco não é necessariamente o que consideramos “bom”. O Louco pode estar significando que estamos numa “roubada”, que vamos acabar tendo problemas da maneira que estamos conduzindo as situações, mas, através dessa malograda experiência poderemos alcançar um ponto de partida para um progresso futuro. De qualquer maneira, essa carta quase sempre significa que estamos nos movendo para frente, de maneira não planejada e inesperada. Otimismo, felicidade, criatividade, liberdade de expressão, entusiasmo, intuição e disponibilidade para aprender, são características deste Arcano, quando bem posicionado. Início de uma nova etapa, de um novo ciclo. É hora de agir por impulso, rapidamente, seguindo em frente sem olhar para trás.

     Quando numa posição mal aspectada, difícil, de obstáculo, o Louco pode indicar que não estamos confiando nos nossos instintos, na nossa intuição. Hiperatividade e pensamentos confusos podem estar fazendo parte do nosso dia a dia, enquanto desperdiçamos nossa energia criativa em hesitações e atrasos e demoras sem justificativa. Em seu aspecto negativo o Louco acha muito difícil terminar qualquer um dos muitos projetos começados. Caminhar sem olhar onde pisa pode nos levar a tropeçarmos em circunstâncias muito desagradáveis. Pode, também, estar simbolizando uma atitude de apatia em relação a vida, recusando-nos a encarar as novas oportunidades que afloram em nosso caminho. Preguiça, inconstância, passividade, promiscuidade, egoísmo, irresponsabilidade, confusão, vícios e neuroses podem estar sendo alertados pelo surgimento dessa carta, quando mal localizada, numa jogada de tarot.

     Aparentemente o Louco tem significados muito contraditórios, desde o fato de ser compreendido como a primeira (O) ou a última (22) carta da sequência dos Arcanos Maiores. Ele pode representar tanto um neófito, um principiante, um aprendiz, como, também, um sábio e iluminado mestre. Tudo dependerá de como for interpretado o seu relacionamento com as cartas que lhe são próximas, para onde ele está olhando, etc.

     Hoje é dia 10 que é considerado por algumas ordens como o mais perfeito dos números por conter a Unidade (1) que tudo criou, e o Zero (O), símbolo do Caos original, de onde tudo o que foi criado surgiu. Ele contém em sua representação gráfica o começo e o fim, o que existe e o que está para ser criado, a vida e o nada. Muito apropriado para recepcionar o Louco, nossa Carta do Dia, não é mesmo? Entretanto, por ser sábado, cujo regente é o controlador, organizador, limitador e responsável Saturno, creio que ambos estarão medindo forças ou então, sabiamente, o nosso Louco estará suavizando os aspectos difíceis do planeta exercitando o que melhor sabe fazer: a resistência pacífica. Deu certo com Ghandi, provavelmente dará com nosso Arcano amigo.

     Tenham todos um excelente final de semana.

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)

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