domingo, 21 de março de 2010

Carta do Dia: A SACERDOTISA

    sacerdotisa Minha tia Alba, falecida aos oitenta e muitos anos, era além de tia, uma grande amiga e conselheira a quem, nós os sobrinhos e muitos dos demais membros da nossa família, recorriam em diversas situações.

     Tia Alba saiu da fazenda do interior paulista, onde nasceu, bastante jovem, para estudar em São Paulo. Raras vezes voltou, durante os anos de formação como professora, para a casa dos pais, primeiro por razões econômicas, segundo porque estava sempre envolvida fazendo cursos que complementassem a sua formação. Foi uma aluna séria e exemplar, tendo graduado com os méritos apropriados. Orgulho da família.

     Até, que num rompante de rebeldia inapropriado para aqueles tempos e contrariando todas as expectativas da família que continuava a morar no interior, Tia Alba resolveu ficar morando em São Paulo, depois de formada e morando numa pensão para moças, a qual, deixou bem claro desde o início, pagaria com seus salários de professora primária concursada e aprovada pelo Estado.  Minha avó chorou todas as lágrimas que tinha e meu avô trancou-se num silêncio magoado e desaprovador, mas as coisas aconteceram como minha tia havia planejado.

     Tia Alba nunca casou-se, o que não significa que não tivesse tido, de acordo com suas irmãs, uma grande paixão de quem não se sabe praticamente nada, nem mesmo se realmente aconteceu. Tia Alba nunca teve problemas financeiros, pois seus proventos como professora sempre lhe garantiram uma vida confortável, o que se manteve pelo fato dela ter sempre sido bastante equilibrada com seu dinheiro, só gastando o que podia, parcimoniosa e discreta na aquisição de roupas e acessórios. Seu único luxo eram os livros, que por motivos econômicos comprava nos muitos sebos da capital paulista.

     Seu apartamento silencioso e tranquilo, onde viveu a vida toda desde que deixou a pensão, era quase um parque de diversões para nós, seus sobrinhos, pois era um verdadeiro cenário onde se misturavam quadros em largas molduras douradas, inúmeras fotos de família em porta-retratos de prata, um piano com o marfim amarelado pelo tempo e pelo uso, vasos com flores, coleções de xicarazinhas, de colherinhas, de pratinhos estampados com fotos em sépia de lugares onde ela havia estado, de bibelôs os mais diversos, tapetes exóticos e muitas plantas. Toalhas de crochê que ela mesma fazia protegiam os encostos dos sofás de veludo e delicados lenços de seda colorida recobriam as cúpulas dos diversos abajures que iluminavam mortiçamente a sala.

     O que mais me fascinava eram as estantes recobertas de livros, onde o dourado esmaecido das encadernações em couro reluziam naquele ambiente onde parecia ser sempre fim de tarde e onde incensos perfumavam o ambiente com cheiros de terras que me pareciam tão distantes e exóticas. Eram prateleiras e prateleiras de madeira escura, cheirando a óleo de copaíba, que ocupavam o corredor de entrada, paredes da sala de visitas e praticamente revestiam o quarto de hóspedes.Tia Alba era uma grande leitora. Lia de tudo. Todas as revistas da época, todos os jornais, e tinha conta-corrente nas melhores livrarias do centro paulistano. Aos nossos olhos ela era uma sábia. Não conhecíamos ninguém, no restante da família, que se parecesse com ela e, para ser sincero, nem mesmo entre as nossas amizades.

     Quando a visitávamos, era uma festa para os sentidos, pois não só a sua casa era um verdadeiro tesouro recheado de delícias a serem decifradas, experimentadas, compreendidas, apreciadas, como Tia Alba era uma excelente cozinheira. “Nisso somos todas iguais!”, dizia orgulhosa minha mãe, referindo-se aos predicados domésticos das mulheres da família. Sua casa era impecável e tudo rescendia e lavanda antiga e temperos orientais. A mesa de jantar arrumada para o lanche da tarde era um requinte de toalha de renda (“Eu mesma escolhi em comprei em Veneza”, dizia ela), talheres reluzentes, pratos e xícaras de porcelana fina como uma casca de ovo, estampadas com mini-buques de rosas e frisos dourados. Bolos e bolachas com sabor de Natal pareciam ser uma constante naquela mesa. Tia Alba era uma grande anfitriã e nunca saíamos da sua casa sem um presentinho e, como ela mesma dizia, “Olha aqui um dinheirinho para o seu cofrinho”.

     Mas o que mais nos atraía a ela era, além da sua aura de mistério (tão diferente da minha mãe e das outras tias…) a sua capacidade de nos compreender em nossas dúvidas e curiosidades de adolescentes. Com ela podíamos nos abrir, falar francamente, pois sabíamos por intuição e por experiência que nunca seríamos delatados em nossas confissões. Ela nos ouvia, coisa que os demais pareciam não saber fazer. Ela prestava atenção e demonstrava que tudo aquilo que dizíamos era realmente importante e que merecia ser ouvido e analisado. E o que mais nos surpreendia era o fato que ela não vinha com lições de moral ou pretendendo defender com unhas e dentes uma posição diferente da nossa, mas nos fazia compreender que, por menor ou mais estanque que pudesse parecer, toda idéia, todo desejo, todo plano de ação deveria considerar também outras opções, outros desdobramentos e, por que não?, alguma rota de fuga. Tia Alba merecia ter recebido um diploma de psicóloga outorgados por todos nós que nos valemos da sua sabedoria, da sua discrição, de seus conselhos, de sua paciência infindável.

     Quando ela faleceu fazia algum tempo que não nos víamos. No seu enterro nós, o que restou dos sobrinhos, mais duas de suas irmãs e muitos de seus ex-alunos, recordávamos momentos daquela mulher incrível, tão cheia de mistério em sua vida particular, tão afetiva conosco, tão inteligente, tão culta. Discretíssima a vida toda na sua forma de vestir, de agir, de se movimentar, era de uma elegância natural, simples e refinada na sua forma quase antiquada de ser.

     Reencontrei-me com a família quando o advogado nos convocou para ler o testamento feito por ela, muitos anos antes. Tia Alba nos deixou, além do apartamento que morava e que sempre acreditamos ser alugado, mais dois excelentes imóveis, e uma razoável poupança acumulada com os proventos da aposentadoria que recebia como beneficiária de um militar. Nossos queixos literalmente caíram. Tia Alba teve um amante, um companheiro, um parceiro e nunca soubéramos de fato! Nunca ouve nada, uma insinuação na sua conversa ou um detalhe em sua casa que nos fizesse acreditar que ela tivesse alguém. Tia Alba viveu seu próprio mistério, seu próprio segredo a vida toda, guardando-o somente para si. Não foi somente nossa confidente, nossa orientadora, mas despertou em nós a consciência de que tudo o que precisávamos realmente saber sobre a vida e o viver encontrava-se, desde sempre, dentro de nós mesmos. Que os livros que nos sugeria ou as explicações que nos dava, eram apenas roteiros para que nós mesmos pudéssemos desenterrar esses tesouros que haviam dentro de nós. Tia Alba, a eterna professora, nos ensinava a compreender e a formar as sílabas, palavras e sentenças com um alfabeto que tínhamos guardado em nosso interior e que ela nos ajudou a descobrir, compreender e utilizar como um mapa, um guia, um livro de orientação para todas as horas e ocasiões. Ela era nossa tia, nossa mestra, nossa mentora espiritual e nossa cúmplice. Uma sacerdotisa sabedora dos maiores mistérios.

     Quando a Sacerdotisa, também chamada de Papisa, surge numa tiragem de tarot, dependendo sempre da sua colocação e das cartas que a cercam, além da questão abordada pelo consulente, pode significar, entre muitas outras possibilidades, assuntos ou negócios que não podem ser revelados; segredo, enigma; silêncio, reclusão; estudo, memória, observação, reflexão; intuição; perguntar-se o que sente ou invés do que pensa; estar de bem com a vida e consigo próprio; experimentar sentimentos que não se consegue traduzir em palavras, tempo de meditação e reconectar-se com sua verdade interior; auto-suficiência, independência, autonomia; poupança, contenção, economia; gravides desejada; instinto maternal; bissexualidade;  moralismo; esoterismo; espiritualidade; mediunidade.

     Em termos de saúde, a carta da Sacerdotisa alerta para a possibilidade de problemas ginecológicos, tais como cistos e miomas; problemas de menopausa ou menstruação; problemas de próstata; problemas com garganta, cordas vocais, voz; problemas intestinais; obesidade. Em relação ao amor, a Sacerdotisa pode se apresentar protetora e maternal; carinhosa; inibida, recatada;  moralista ou amoral ao extremo; voyeurismo; homo ou bissexualidade; pode ser a amante ou viver uma relação que deve ser mantida em segredo; muito sensível, fica ofendida com qualquer fato que considere uma desconsideração do parceiro; amores platônicos.

     Seu lado “sombra” pode ser percebido em atitudes tais como permissividade, intolerância; falta de carinho; puritanismo; falsidade; descaso ou irresponsabilidade em relação aos outros; recusar-se ao auto-conhecimento; fofoqueira; instabilidade; desatenção; vida social intensa; não saber guardar segredos.

     02-Major-Priestess Dentro do esquema da Árvore da Vida cabalista, a Sacerdotisa liga Kether a Tiphareth, ou seja, é o que une a sabedoria e a compreensão à compaixão. É o caminho entre o mais alto, o mais espiritual, Divino e o nosso coração. Ela é a que carrega a água (emoção, intuição) através do abismo do deserto (razão, intelecto), fazendo-se acompanhar pelo Livro da Sabedoria (o conhecimento relativo às leis da criação material) até Tiphareth, o lugar da fertilidade e da compaixão, a chave dos mistérios de toda a existência física neste plano material.

     Hoje, domingo, regido pelo Sol, poderíamos aproveitar para tomarmos consciência de que tudo o que precisamos, inclusive saber, está dentro de nós, basta que abramos as nossas cortinas, afastemos os nossos véus, e permitamos descobrir esses mistérios. É hora de nos perguntarmos o que precisamos calar, o que precisamos manter reservado. Quais as lembranças que devo guardar e quais posso ou devo me descartar. Fica também a sugestão, dessa Carta do Dia,  de nos iniciarmos na meditação, de forma sistemática, aprendendo a nos concentrarmos mais e melhor, nos desligando do exterior e vivenciando o nosso eu, permitindo assim que conheçamos melhor nossos recursos pessoais. E, finalmente, ouvirmos atenciosamente a nossa própria intuição, a voz dos nossos sentimentos e emoções, das nossas percepções, para que possamos, ouvindo os nossos semelhantes, ajudá-los também.

     Tenham todos um excelente domingo!

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)

3 comentários:

  1. Obrigada por compartilhar uma estória tão linda! Também tive uma tia assim e possa definí-la como uma verdadeira Sacerdotisa, cheia de mistérios, sábia, confidente, muito parecida com a Tia Alba.
    Um abraço

    Claudia

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  2. Parabéns por este post, fantástico !

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  3. Gostei da sua tia, mesmo sem te-la conhecido. Que história gostosa de se ler. Muito obrigada! Grande abraço!

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