terça-feira, 30 de março de 2010

Carta do Dia: A FORÇA

"Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. É eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha com algumas diferenças."

“Caetés”, Graciliano Ramos 

     Força Um engenheiro desempregado decide, enquanto aguarda melhores oportunidades de trabalho, aceitar dar aulas numa escola pública num bairro operário de baixíssima renda. O que essa refinada e tranquila pessoa está preparada é para o grupo de mal-educados e agressivos delinquentes que ele terá que enfrentar em seu primeiro dia de aula. O que esses jovens estão acostumados é com a violência urbana que enfrentam, a falta de apoio que a sociedade lhes dá e a convivência com famílias desagregadas. O engenheiro, duble de professor é apenas mais uma das vítimas dos seus violentos instintos incontidos.

     O que eles não sabem é que estão lidando com um homem extremamente seguro de si, que também enfrentou inúmeras humilhações na sua caminhada profissional, principalmente por questões raciais e de origem social, e que está preparado para mais essa batalha, ao exigir cortesia e respeito comum de seus alunos. O respeito, a atenção e o amor que ele dedica a esse grupo de jovens marginalizados acaba produzindo seus efeitos positivos e uma verdadeira mudança é feita, não só no ambiente escolar, mas como os ex-rebeldes passam a se integrar com a sociedade, resgatando a sua auto-estima e finalmente conseguindo ver-se merecedores da mesma dignidade conferida e esperada a todos os  cidadãos .

      Estou certo que muitos de vocês já se recordaram de onde o exemplo de hoje foi extraído. “Ao Mestre com Carinho” foi um dos filmes que marcou a minha geração por dar uma mostra do poder regenerador do amor. Não aquele amor novelesco e muitas vezes egoisticamente impotente no sentido transformacional, mas do amor que é sólido, incondicional, desenvolvido através de um longo processo interno e que se exterioriza de forma redentora.“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobre-carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30).  É o saber dominar as situações, avaliando-as e compreendendo-as em suas raízes, em suas motivações,  aceitando-as com são mas procurando faze-las evoluírem para um patamar mais elevado.

     O professor negro, de origem humilde, criado na periferia da grande cidade, convivendo com um sem-número de situações adversas no meio familiar e no ambiente onde se desenvolveu além de ter sentido o reflexo disso tudo na maneira vexatória e preconceituosa em que foi tratado ao longo de sua carreira profissional, tinha tudo para dar errado. Grandes eram as chances dele ter-se submetido às condições que seu meio lhe impunha, adotado os precários valores morais e éticos de seus companheiros e se tornado mais um excluído social. Entretanto, tendo plena consciência de suas dificuldades e de quanto isso seria um empecilho na sua trajetória,  decide exercer através da razão e da vontade uma alteração nos planos que supostamente o Destino lhe reservava. Dedica-se ao estudo, enfrenta pacifica e compreensivamente a rejeição dos amigos e colegas, tanto os do seu bairro de origem, como os do novo ambiente que passa a frequentar. Domina seus temores, sua impulsividade, desenvolve a temperança, reforça a sua auto-confiança e desenvolve um olhar amoroso aos outros seres humanos.

     Quando falamos do Arcano XI do tarot, a Força, estamos falando desse estado de autoconhecimento que nos permite saber quem somos, controlando nossos instintos, sem contudo ignorá-los ou desprezá-los, e extrair desse exercício de sublimação a força necessária para evoluir. Vemos um exemplo claro dessa idéia de transmutação entre o mais animal e o mais espiritual na recomendação do celibato entre sacerdotes, freiras,  místicos e outros religiosos. A idéia primordial é que a energia sexual contida possa ser utilizada para estimular e favorecer a força da intenção devocional e avançar o processo de desenvolvimento espiritual dos seus adeptos. Movendo o foco dessa energia do âmbito dos prazeres físicos para o da espiritualidade, o fluxo energético se processaria mais intensamente.

     Forte não é aquele que grita mais alto ou bate mais forte, mas sim aquele que não precisa nem gritar ou bater para fazer-se respeitado. A Força vem de dentro, de um trabalho interno de controle da raiva, do orgulho, do desejo; do desenvolvimento de padrões éticos e morais, de carisma, equilíbrio e paz interior; de planejamento, obstinação e direcionamento. Responsabilizar-se por seus atos, ter o controle de sua vida ser capaz de relevar e perdoar os erros e defeitos dos outros e uma grande dose de paciência são atributos indispensáveis para que se possa vivenciar a Força em seus aspectos mais positivos.

     Quando a carta da Força aparece numa jogada de tarot, dependendo de sua posição no esquema escolhido para a disposição e leitura, além de se levar em conta as demais cartas e a questão proposta pelo consulente, pode significar que devemos estar preparados para enfrentar, com coragem e convicção, qualquer ameaça que possamos vir a sofrer. Pode estar significando que devemos perdoar e esquecer erros cometidos por outros, e até por nós mesmos. Saber que há um limite para tudo e que nem sempre é possível ter-se tudo o que se quer, mas satisfazer-se e apreciar aquilo que conseguimos. Talvez seja hora de aplacar a própria ira ou a dos outros, utilizando-se da razão e da sensibilidade. Pode ser indicativo que estamos, no momento da leitura das cartas, de posse da coragem e da determinação para realizarmos as tarefas, por mais árduas que elas possam se apresentar. Se as pessoas com quem convive estão desarvoradas, descontroladas, lembre-se de manter-se calmo, resistindo à tendência de julgar, sendo compassivo e procurando sempre ver os dois lados da questão. Prenuncia o fato da sexualidade estar sendo vivida plenamente, da saúde física estar em ótimo estado, e que as reações emotivas estão sob controle. É também um alerta para rever como está conduzindo a sua situação financeira, não se deixando escravizar por compromissos desnecessários.

     Quando esse Arcano aparece mal aspectado, ou seja, numa posição menos favorável, daquelas que nos remetem à idéia de obstáculos, a Força pode ser indicativa de um caráter débil, de atitudes arrogantes, do mal uso a inteligência. Estar desatento dentro de uma situação e deixar-se ser pego de surpresa são alguns dos aspectos negativos desta carta, assim como a arrogância, os abusos físicos e mentais que possamos impor aos outros. Reprimir ou tentar dominar os outros ou as situações, impondo de maneira manipuladora ou tirânica a sua vontade, também é uma das facetas “sombra” desta carta.

       Na prática podemos nos utilizar de diversos instrumentos para desenvolvermos as qualidades positivas simbolizadas pela Força. A meditação, a visualização criativa, a yoga, a neurolinguística, os trabalho criativos como a pintura, a escultura, modelagem, etc. Também os exercícios físicos ajudam a descarregar as energias reprimidas e beneficiando-nos com músculos e pele mais tonificados. O boxe, por exemplo, é uma das opções. Longas caminhadas e o contato com a Natureza sempre são bem vindos, pois nos harmonizam e, o que é a Força, a não ser o controle consciente entre forças complementares e o consequente encontro com a tão almejada Paz Interior?

     Hoje, com a Lua Cheia em Libra, estaremos vivendo energias bastante re-equilibrantes, com a grande possibilidade de nos sentirmos mais flexíveis, mais maleáveis, sem contudo abandonarmos os nossos pontos de vista. Não nos é importante, sob essa influência, sermos os donos da verdade, termos a razão em tudo, mas a convivência pacífica com os que nos são caros e as demais pessoas. Com o social em alto, e conscientes da nossa Força interior, ninguém nos tira do sério, nem mesmo aquele chato, brigão, que quando bebe um pouco mais começa a medir forças com todo mundo. Estamos centrados, equilibrados, cônscios dos nossos potenciais, conhecemos nossas fraquezas e não as renegamos, mas as compensamos com o domínio sobre elas. “O verdadeiro leão é aquele que conquista a si mesmo”, escreveu Rumi, poeta, jurista e teólogo persa, por volta de 1.250 da nossa época.

     Aproveitem esta terça-feira e, se dispuserem de algum tempo, procurem meditar na força curadora e transformadora do amor incondicional.

Post Scriptum:

     Eu havia terminado de escrever a postagem de hoje quando leio que o Ricky Martin, aquele ex-Menudo que se transformou num profissional de música famoso, declarou em seu site (www.rickymartinmusic.com) que é gay. Esse tipo de declaração tem um enorme impacto na carreira de qualquer artista, e é um dos grandes motivos e justificativa para levarem vidas duplas, permanecendo, oficialmente,” no armário”.  É razão para perderem uma grande fatia do mercado que consome sua arte. Milhões de fãs do sexo feminino, mundo afora, nutrem uma paixão arrebatadora por esses personagens que vivem na mídia e, esse tipo de notícia, destrói com seus sonhos eróticos, com suas paixões platônicas e é, portanto, o grande terror das produtoras, das companhias de cinema, dos estúdios de TV, de toda a máquina que vive e se alimenta do trabalho e da persona criada por esses personagens.

     Como a carta do dia se refere à coragem em se “assumir”, aceitar-se e procurar fazer de si próprio um veículo de evolução, acho pertinente citar parte do texto escrito pelo cantor, nesse importante momento da sua vida e de sua carreira. Creio que ele, por si, traduz muito melhor e de forma muito mais experiente, humana e realista o que eu procurei explicar no meu texto acima:

“Muitas pessoas me diziam: Ricky isso não é relevante, não vale a pena, pense em todos os anos que você vem trabalhando na construção da sua carreira e como tudo isso irá entrar em colapso. Muita gente não está pronta para aceitar a sua verdade, a sua realidade, sua natureza.

Porque esses conselhos me eram dados por pessoas queridas, eu decidi seguir com a minha vida sem compartilhar com o mundo a minha verdade completa. Permiti, então, ser seduzido pelo medo e a insegurança tornou-se um instrumento de auto-sabotagem. Hoje eu tomo a inteira responsabilidade pela minha decisão e pelas minhas ações.      

Medo da minha verdade? Não mesmo! Ao contrário, me enche de força e coragem.

Isto não deveria ter acontecido a 5 ou 10 anos atrás. Era para ter acontecido agora. Hoje é o dia, este é o meu tempo e o meu momento.

Estes anos em silêncio e reflexão fizeram-me mais forte e compreender que a aceitação tem que vir de dentro e que este tipo de verdade me dá o poder de conquistar emoções que eu nunca soube existirem.

O que vai acontecer daqui para frente? Não importa. Eu só consigo me concentrar no que está acontecendo comigo neste momento. A palavra “felicidade” tem um novo significado para mim, desde agora. Foi um processo muito intenso. Cada palavra que eu escrevo nesta declaração nasceu do amor, da aceitação, do desapego e de um contentamento verdadeiro. Escrever isto é um passo firme em direção à  minha paz interior e um fator vital na minha evolução.

Eu me sinto orgulhoso em dizer que eu sou um homem gay de muita sorte. Eu sou muito abençoado por ser quem eu sou.”

Ricky Martin, 29 de Março de 2010

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)

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