sexta-feira, 9 de abril de 2010

Carta do Dia: O MUNDO

    Mundo Numa leitura de tarot, a carta do Mundo (ou do Universo), mais do qualquer outra, mostra-nos a finalização bem sucedida de alguma situação na qual tenhamos empenhado esforços. Nós nos sentimos recompensado por termos completado aquela missão e nos disponibilizamos, de maneira renovada e pura, a começarmos algo novo ou, tudo novamente. Nós nos reconhecemos nos resultados daquilo que fomos semeando pelo caminho, colhendo os frutos do nosso trabalho e dedicação, nos sentindo calmos, seguros e felizes, fortalecidos e prontos para um novo desafio.

     O Mundo, Arcano XXI, é considerado por muitos como o último Arcano Maior na sequência do tarot, já que o Louco, Arcano Zero, funciona como um curinga, um viajante, não tendo uma posição fixa, podendo e sendo, o Alfa e o Ômega, o começo e o fim, a primeira e a última carta. O Mundo é o fim que anuncia o começo, pois não há um ponto final, no perímetro da roda das existências. Começamos, aprendemos, realizamos e finalizamos somente para repetir, qual moto perpétuo, o mesmo ciclo. O Mundo é o resultado de uma das voltas dessa grande roda.

     Quando decidimos que é chegada a hora de construirmos aquela tão sonhada casa de praia, sabemos que teremos de encontrar o terreno, comprá-lo, contratarmos os serviços de um arquiteto e passarmos longas horas com ele explicando-lhe nossas necessidades e o que pretendemos em termos de funcionalidade e estética; plantas-baixas, elevações e maquetes serão feitas e refeitas até conseguirmos uma miniatura do modelo que imaginávamos; após, vem a contratação dos serviços do pessoal de obra, como engenheiro, mestre-de-obra, operários; a compra do material que vai das telhas até a fundação, com seus encanamentos, fios subterrâneos, etc. Construída a casa, começa o processo de acabamento da mesma, com a escolha de metais para os banheiros, os pisos, as luminárias, a parte de marcenaria, os móveis, os adornos de decoração, o equipamento de cozinha. Depois de muito tempo, de muito trabalho, de muitas idas e vindas, de muito desgaste, de muita paciência e disposição para aproveitar a experiência adquirida, finalmente lá está, nosso sonho materializado, pronto para ser habitado. Fomos bem sucedidos.

      Ao completarmos um curso universitário e dele obtermos o conhecimento necessário e a habilitação legal para exercermos uma profissão, estamos completando um ciclo que iniciou-se no jardim de infância, com a primeira professora nos ensinando as primeiras letras e números, e a nossa evolução através dos demais anos escolares, sempre adquirindo maior cultura, maior compreensão, desenvolvendo a lógica e o raciocínio, aprendendo as necessárias noções de civismo e de companheirismo. Provas, exames, vestibulares de acesso são obstáculos que temos que vencer durante esse caminhar, para avaliarmos e provarmos a nós mesmos que estamos aptos a prosseguir e alcançar novos patamares. Ao recebermos o diploma de conclusão estamos também encerrando todo esse processo, que levou anos para ser realizado,  e nos lançando, felizes e auspiciosos,  para a nova aventura que é a de atuarmos na profissão escolhida.

     O casal que decide ter um filho também passará por uma série de etapas que vão desde a alegre notícia da gravidez, aos exames pré-natais, à modificação do corpo da mulher, a criação de um novo espaço dentro do lar para acomodar o futuro bebê, o adquirir de roupinhas, fraldas, brinquedos, cadeirinhas, carrinhos, banheirinhas, a possível contratação de uma babá, a escolha do tipo de parto, o envolvimento e entusiasmo da família, a ida ao hospital, até o fim dos nove meses de espera com o nascimento desse novo ser. A partir desse momento a vida dessas pessoas também se abre para um novo horizonte, onde sonhos, esperanças, fantasias, alegrias se harmonizam com as novas responsabilidades, os novos ritmos, as novas despesas, a nova organização de tarefas, etc. Agora não é mais “eu e você”, mas “nós”.

     A dona de casa, que ao final do dia senta-se à mesa do jantar, que ela preparou, com a família reunida à sua volta, sabe que também está terminando “ o dia”, isto é, encerrando um ciclo de tarefas para, após algum descanso, recomeçá-las. Um novo alvorecer trará essa mãe novamente interessada no bem estar da sua família, preocupada em preparar o café da manhã, levar os filhos à escola, fazer as compras para a casa, voltar para limpar, lavar, passar, cozinhar, buscar os filhos, verificar se estão fazendo suas lições de casa, controlar uso e acesso à TV e internet, levar um para a aula de natação, a outra para o ballet, voltar esperar pela chegada do marido, ouvir-lhe falar do dia pronta para dar-lhe uma palavra de estímulo e conforto, terminar o preparo do jantar, conversar com todos interessando-se pelos seus comentários e expectativas, verificar horário de ir para a cama e, finalmente, retirar-se, realizada por ter cumprido, uma vez mais a sua participação nessa grande engrenagem cósmica que é o viver.

     O Mundo, carta número 21, pode ser reduzida a 20 e 1 que é o Renascimento, a ressurreição, o Julgamento, o Aeon (Arcano 20), com sua promessa de libertação e de chamado vocacional sendo realizado com a destreza, o entusiasmo e as habilidades do Mago (Arcano 1). Podemos também reduzir (21= 2+1=3) aos valores propostos pela carta de Imperatriz, de satisfação com a vida, criatividade, produtividade. É também a junção das polaridades, da luz e da sombra, do masculino e do feminino, da Sacerdotisa (Arcano 2) e do Mago (Arcano 1), a concretização do que é imaginado, idealizado. Também encontramos aqui a vitória máxima da liberação espiritual, anunciada pelo Arcano 7, o Carro (3 x 7 = 21). É a chegada a um destino proposto. É alcançar o sucesso pretendido.

     Na Árvore da Vida cabalística, esse é o 32º Caminho, aquele que liga Yesod ( o alicerce) a Malkuth (a terra), ou seja, é por onde os elementos, os componentes, aquilo que foi pensado no Plano Universal tornam-se concretos, reais. Em Malkuth estão reunidos os 4 elementos: fogo, água, ar e terra, além de um 5º, que é o Espírito. A virtude de Malkuth é o discernimento. É saber manter-se em equilíbrio. É administrar as iniciativas, a criatividade, as paixões, as emoções, os sentimentos, a lógica, a razão, o físico, o labor, o material e o espírito.

     Dependendo da questão do Consulente e das demais cartas, além da sua posição, numa leitura de tarot, o Mundo pode simbolizar sucesso nos negócios, início de um novo empreendimento, melhoria na saúde, um futuro promissor na carreira. Simboliza, também, satisfação, um sentimento de orgulho justificado, uma vitória alcançada. Alegria e uma sensação de harmoniosa plenitude também acompanham esta carta. O sucesso anunciado por este Arcano muitas vezes ainda precisa ser trabalhado, abandonando-se o comodismo, sobrepujando a apatia e o pessimismo. É um grande indicativo de que o Consulente superou suas limitações, abrindo-se para a vida e permitindo-se às oportunidades que ela generosamente lhe oferece. Há uma sensação de novidade, de novas e excitantes idéias surgindo. O Consulente passa a ter consciência da sua bagagem de vida, das suas experiências e de como bem adequá-las e utilizá-las no futuro. Como é uma carta de abertura, é “ter o mundo a seus pés”. É carta que anuncia possibilidade de viagens, contatos, negócios ou intercâmbios de âmbito internacional. É sentir-se íntegro, completo, potente, independente, afortunado, no domínio de seus talentos, emoções, sentimentos e habilidades. É vivenciar um estado de êxtase.

     É claro que ao concretizarmos algo não estamos encerrando em definitivo as nossas atividades, os nossos compromissos, as nossas obrigações. Estamos dando um passo, rumo a um futuro que não tem a menor garantia de ser fácil. Quem constrói uma casa sabe que ela precisará constantemente de manutenção. A pintura deverá ser renovada, o jardim cuidado, as telhas quebradas trocadas. Problemas de hidráulica e elétrico são esperados. Há impostos a serem pagos, seguros a serem feitos e mais uma infinidade de compromissos. O mesmo ocorre com quem sai da faculdade. A busca de emprego, a continuidade nos estudos em busca de especializações ou títulos que lhe garanta melhores salários, vencer a concorrência e encontrar o seu nicho no mercado de trabalho, o dia a dia da profissão, desde montar consultório ou escritório, até o atendimento aos clientes, tudo são novas experiências a serem administradas e outras antigas a serem empregadas. Um filho representa todo um comprometimento que ultrapassa o plano amoroso, familiar, e requer cuidados médicos, investimento na educação, manutenção de todas as necessidades. O investimento que a família faz proporcionando-lhe o melhor ambiente para desenvolver-se além das lições aprendidas dos pais sobre amor, compaixão, moral e fé exigem anos de paciência e dedicação. A nossa dona de casa, ao terminar de lavar a louça do jantar está ciente de que, poucas horas de sono depois, terá a do café da manhã sobre a pia. A sala que acabou de ser varrida e limpa, em minutos, começa apresentar uma fina camada de poeira novamente se assentando. A roupa que foi cuidadosamente lavada e passada em algumas horas estará novamente suja.

     Viver o Mundo é, pois, um estado de satisfação tão grande que engloba também as consequências decorrentes dessa conquista. Elas fazem parte do “pacote” de satisfação, de prazer. Aliás, qual seria a nossa sensação de vitória, de utilidade, de atuação se, a um estalar de dedos tivéssemos a casa que tanto sonhamos à nossa disposição, ou se deitássemos ignorantes e acordássemos sábios? Ou ainda se não vivêssemos  a alegre ansiedade de termos um filho e vê-lo transformar-se num ser humano íntegro e independente? Ou mesmo se fôssemos impedidos de reformularmos o cardápio para agradarmos a uns e a outros, rearranjássemos os quadros e a mobília buscando fornecer maior conforto à nossa família, ou se não pudéssemos nos emocionar, ao ver aquela “eterna criança” recebendo seu título de doutor e, entre aplausos e lágrimas, lembrarmos dele, curioso, sentado no banco traseiro do carro, sendo dirigido por nós até a escolinha?

     Pois é, o Mundo é a somatória de todos os passos que demos, das ações que executamos e daquelas que deixamos de fazer, em busca da nossa felicidade, da nossa união definitiva entre a mente desperta e o nosso subconsciente, do perdão que concedemos, inclusive a nós próprios e do amor e compaixão que distribuímos. São os nossos medos e instintos domados pela nossa força de vontade e a sabedoria adquirida nos mergulhos que demos em busca de nós mesmos, da nossa alma original, do que somos e de como podemos fazer melhor uso disso tudo, em nosso benefício e também dos outros. Viver esse Arcano é estar consciente que, apesar dele ser a última carta do tarot, ele não é o fim em si mesmo. Ele é um degrau do qual nos utilizamos para nos elevarmos um pouco mais e recomeçarmos outra vez esperançosos, inocentes, impetuosos, infantis, honestos conosco mesmo, a nossa nova jornada. A interminável jornada do Louco.

     Nesta sexta-feira, dia regido por Vênus, símbolo da beleza, da harmonia, da gratificação, com a Lua entrando em Peixes, favorecendo que exerçamos o perdão, as mágoas, vençamos obstáculos e acabemos com desentendimentos, parece-me bastante propício para que aproveitemos as sugestões saturninas da Carta do Dia, o Mundo, e reflitamos que tudo tem uma causa e um efeito. Que a cada momento estamos vivendo os créditos e os débitos que temos junto ao banco da Vida. Portanto, aproveitando que Saturno representa esse equilíbrio, esse balanço, e aproveitando as demais energias traduzidas por Vênus e pela Lua, procuremos nos harmonizar ao máximo e encontrar o que celebrar em cada conquista, por menor que possa nos parecer. Não há melhor remédio que viver em paz consigo próprio, sabendo-se cumpridor da missão a que se propos.

     A todos, um ótimo, saudável, consciente, pleno, feliz e irrestrito início de final de semana. Outra, ainda melhor, certamente está a nos aguardar.

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)

Um comentário:

  1. Amo muito tudo isso! Muito obrigada por dividir tanta sabedoria. You rock!

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