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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Carta do Dia: 8 DE OUROS

Minor-Discs-08Vaudeville      Ela nunca pensara que o simples ato de cozinhar, aquele prazer de combinar  as verduras da horta do sítio, as frutas do pomar, os ovos caipiras que vinham do galinheiro próximo à casa, os recipientes com leite, nata e manteiga fresquinhos que o gado, que ela ouvia mugir ao longe, dava, o acender o fogo do velho e grande fogão à lenha, tudo aquilo que sempre parecera tão simples e casual, pudesse ser um verdadeiro processo alquímico. Sua nova patroa, a jornalista especializada na crítica gastronômica, e, ela mesma, uma excelente cozinheira, explicava-lhe, passo a passo, o como e o porque de cada ação realizada na cozinha, que, com tantos apetrechos e vidros de condimentos os mais diversos, parecia um laboratório.

     Havia se passado mais de 8 meses desde que ela chegara à metrópole. Continuava morando com a tia e as primas, na simpática casa do subúrbio, mas sua vida era inteiramente dedicada ao trabalho. Como a grande maioria das pessoas, saía de casa mal raiava o dia para estar, logo cedo, no bonito apartamento de cobertura, onde era, a um só tempo, aprendiz e braço-direito da dona da casa. Voltava, muitas vezes, tarde da noite, quando as primas já estavam dormindo. A tia, independente do horário, a esperava com uma xicara de chá e alguma coisa para comer. Conversavam um pouco. Contava-lhe o que havia aprendido, como era a maneira da sua patroa fazer determinados pratos, os lugares onde iam juntas em busca de produtos bem frescos ou que não eram vendidos nos supermercados. Contava-lhe que, às vezes, a patroa a levava para almoçarem juntas num restaurante e que a incentivava a ir descrevendo sabores, texturas, cores dos pratos que pediam. Além disso, fazia com que ela “descobrisse” a receita do mesmo, apenas utilizando-se do paladar, do olfato e do bom senso. Era divertido, estimulante, e ela, quase sempre, acertava, para deleite da sua mestra e patroa.

     Uma tarde, enquanto testavam uma receita na cozinha, a jornalista disse-lhe que uma rede de TV a cabo estava começando a fazer uma série sobre culinaristas e que ela, como uma das consultoras do programa, havia indicado seu nome para um dos programas. Ela teve a sensação de que iria desmaiar. Não conseguia sentir o chão sob seus pés é por instantes as luzes que refletiam sobre os azulejos, as panelas, os vidros, a bancada da pia, pareciam rodar, num nebuloso turbilhão. Sentou-se enquanto a patroa, sorrindo, servia-lhe um copo d’água gelada e continuava a falar que não havia nenhuma razão para ficar nervosa, que tudo era muito simples, que uma famosa atriz e apresentadora faria uma “visita surpresa” à sua cozinha e elas conversariam sobre uma receita qualquer. Que tudo era gravado e que se houvessem erros, desacertos, descontinuidade, tudo poderia ser feito numa segunda ou terceira tomada. Que ela, a patroa-jornalista, lá estaria, fora de cena, para garantir-lhe total tranquilidade. Que isso seria muito bom para ela. Que ela merecia esse destaque, sem nenhum favoritismo, pois, mulher experiente e crítica que era, havia conhecido poucas e famosas culinarista com o mesmo talento que ela, moça vinda da roça.

     A tia e as primas ficaram eufóricas e, num segundo, a vizinhança toda estava sabendo que ela iria aparecer na televisão ao lado daquela famosa atriz. A antiga patroa telefonou-lhe, emocionada, desejando-lhe sorte na gravação do programa e reafirmando que ela era, sim, merecedora desse destaque. Que apesar de gostarem demais das refeições preparadas pela tia, não passava dia em que não comentassem, também, as suas habilidades culinárias, a sua criatividade e bom gosto. Que isso era um dom divino do qual ela deveria ser sempre grata. E uma das maneiras dela demonstrar essa gratidão era contribuir, com a sua história, para que outras mulheres e homens, onde quer que estivessem, tivessem a mesma coragem de viverem os seus sonhos e explorarem ao máximo os talentos que o Universo lhes agraciara. Desligaram o telefone emocionadas.

     Nunca imaginara que a gravação da execução de uma receita tão simples, tão “cabocla” quanto o seu famoso bolo de fubá com pedacinhos de goiabada cascão e lâminas de queijo coalho, coisa que ela fazia, do começo ao fim, em 1 hora, levasse o dia inteiro e necessitasse de uma equipe de quase 10 pessoas dentro da cozinha. A escolha da receita foi feita pela patroa, que a considerava, além de excepcional em sua requintadíssima aparente simplicidade, o seu “carro-chefe”, o seu amuleto, o seu “pé-de-coelho”. Afinal, foi devido a esse bolo que as duas se conheceram e ela queria estender esse fato para que milhares de outras pessoas a conhecessem através da mesma receita. Diversos bolos foram feitos para que fosse escolhido aquele que ficasse com a melhor aparência. Diversas etapas do processo foram produzidas em separado para, na edição, serem “costuradas” como algo contínuo. A cozinha resplandecia de tão limpa e impecavelmente arrumada. Sua roupa nova a deixara parecida com os famosos culinaristas que ela assistia, ao lado da patroa, na TV, em vídeos especializados e nas fotos dos livros importados que abarrotavam as estantes do apartamento. Fora penteada e maquiada. Apesar de usar as luvas de látex, passou pela manicure que a produção trouxe. Suas posições foram literalmente coreografadas e os produtos a serem utilizados na receita, foram medidos, pesados e acondicionados em bonitos recipientes transparentes. Luzes especiais foram instaladas em alguns pontos da cozinha enquanto uma assessora colocava flores em um vaso e polia as vasilhas, talheres e formas a serem utilizadas.

     Enquanto tripés e câmeras eram instaladas, a famosa atriz e apresentadora, conversava com ela, com a diretora do programa, com o chefe de produção e com a jornalista, dona da casa. A profissional simpatia da moça, a atenção que recebia de todos, tudo colaborou para que ela sentisse, novamente, mais segura, o nervosismo diminuindo, a certeza de que iria fazer aquilo que gostava… não, amava fazer: cozinhar. E, é claro, havia uma sensação de vitória, de reconhecimento, de uma certa vaidade no fato dela, a garota simples do interior, a migrante pobre sem uma grande instrução formal, estar ali, estrela de um show, tendo a sua arte reconhecida e certificada perante milhares e milhares de espectadores. Pensou, com carinho e muita saudade na irmã que ficara morando no sítio e que tanto se preocupara com ela quando decidiu mudar-se para o sul do país, em busca de uma vida que lhe permitisse expandir seus conhecimentos, ganhar seu sustendo fazendo o que melhor sabia fazer e, com isso, realizar todos os seus demais sonhos.

     Sentiu a mão amiga da patroa, e grande incentivadora, em seu ombro. Ouviu a voz da diretora do programa chamando-a para o ponto mais iluminado da grande cozinha. Sentiu o perfume da atriz que a aguardava no local marcado, com um sorriso. Enquanto ajeitavam e escondiam o microfone sem-fio em suas roupas impecavelmente brancas e engomadas, ouvia as últimas instruções da diretora que lhe apontava as câmeras que iriam grava-la. Olhou à sua frente a bancada com todos os ingredientes artisticamente dispostos. Mais adiante, nas sombras ao fundo da cozinha, sua patroa, mentora, incentivadora e amiga sorria-lhe confiante e com um leve brilho de lágrimas no olhar.

     As câmeras acenderam suas luzes de funcionamento, a diretora pediu silêncio, a apresentadora sorriu com o seu melhor ângulo. Uma voz se fez ouvir, ressoando pela cozinha, que naquele momento parecia com uma ilha de luz viajando pelo espaço: “Cinco… quatro… três… dois… um. Gravando!”  Ela sentiu-se, naquele momento, recebendo o seu tão ansiado diploma.

     Quando um 8 de Ouros surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua localização entre as demais cartas que o acompanham e da questão proposta pelo Consultante, pode simbolizar que o Consultante está se especializando em algo, ou desenvolvendo ao máximo algum dos seus talentos. Ser perito em algo. Ter uma mente erudita. Pode sinalizar que a situação requer determinadas informações que o Consultante já possui mas que necessita fornecer ou exercitar. Fazer escolhas inteligentes. Uma espécie de conhecimento antigo vêm à tona. Incorporar os aspectos espirituais aos materiais. Saber qual é a resposta correta. O 8 de Ouros pode, também, representar aquelas pessoas chamadas de “gênios criativos”. Humildade. Ajudar os outros. Agir de maneira pensada, estudada, premeditada, passo a passo, evitando excessos nas suas ações.

     Numa posição mal dignificada a carta do 8 de Ouros mostra falta de moderação. O Consultante está impaciente e disposto a se arriscar muito. Uma certa ignorância, o desconhecimento de um determinado assunto ou situação que pode colocar o Consultante em perigo. A pessoa pode estar-se recusando a ver a situação de maneira mais ampla, considerando todos os seus aspectos. É necessário que o Consultante obtenha mais informações antes de fazer uma escolha definitiva. É necessário pesquisar muito a fim de se obter a resposta correta. Tempo para aprender sobre o assunto, projeto ou trabalho que está desenvolvendo. Ignorância. A verdade está à frente do Consultante, mas ele não consegue apreende-la e dela se utilizar. Estudar bem a situação antes de tentar altera-la.

     Neste feriado, quando o expansivo, otimista e liberal Júpiter, regente das quintas-feiras, está conduzindo as energias, e a Lua Cheia encontra-se em Peixes é uma boa ocasião para deixarmos de “tapar o sol com a peneira”, deixarmos de ser escapistas e observarmos que, quanto mais claramente vemos e vivenciamos nossas habilidades e dificuldades, mais facilmente encontramos o nosso verdadeiro propósito neste plano de existência. Se focarmos nos nossos dons, nos nossos talentos, e nos restringirmos e dedicarmos a investir pesadamente neles, essa poderá ser a base da nossa mestria, do nosso domínio, da superioridade de conhecimento na nossa atividade ou área de atuação.

     Tenham todos um excelente, harmonioso e bastante elucidativo dia!

Em Julho:
 CURSO DE TAROT: ARCANOS MENORES
Duração: 16 aulas (4 meses) / Turmas às Terças e Sábados
Local: JARDIM DOS SENTIDOS – ESPAÇO HOLÍSTICO & LIVRARIA
 (R. Barão de Ipanema, 94  Loja 103, em Copacabana – Rio de Janeiro)
Pré-Requisito: conhecimento básico dos 22 Arcanos Maiores
Informações: (21) 2547-8939  e contato@jardimdossentidos.com.br
Imagem: VAUDEVILLE TAROT, de F.J. Campos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Carta do Dia: O MUNDO

    Mundo Numa leitura de tarot, a carta do Mundo (ou do Universo), mais do qualquer outra, mostra-nos a finalização bem sucedida de alguma situação na qual tenhamos empenhado esforços. Nós nos sentimos recompensado por termos completado aquela missão e nos disponibilizamos, de maneira renovada e pura, a começarmos algo novo ou, tudo novamente. Nós nos reconhecemos nos resultados daquilo que fomos semeando pelo caminho, colhendo os frutos do nosso trabalho e dedicação, nos sentindo calmos, seguros e felizes, fortalecidos e prontos para um novo desafio.

     O Mundo, Arcano XXI, é considerado por muitos como o último Arcano Maior na sequência do tarot, já que o Louco, Arcano Zero, funciona como um curinga, um viajante, não tendo uma posição fixa, podendo e sendo, o Alfa e o Ômega, o começo e o fim, a primeira e a última carta. O Mundo é o fim que anuncia o começo, pois não há um ponto final, no perímetro da roda das existências. Começamos, aprendemos, realizamos e finalizamos somente para repetir, qual moto perpétuo, o mesmo ciclo. O Mundo é o resultado de uma das voltas dessa grande roda.

     Quando decidimos que é chegada a hora de construirmos aquela tão sonhada casa de praia, sabemos que teremos de encontrar o terreno, comprá-lo, contratarmos os serviços de um arquiteto e passarmos longas horas com ele explicando-lhe nossas necessidades e o que pretendemos em termos de funcionalidade e estética; plantas-baixas, elevações e maquetes serão feitas e refeitas até conseguirmos uma miniatura do modelo que imaginávamos; após, vem a contratação dos serviços do pessoal de obra, como engenheiro, mestre-de-obra, operários; a compra do material que vai das telhas até a fundação, com seus encanamentos, fios subterrâneos, etc. Construída a casa, começa o processo de acabamento da mesma, com a escolha de metais para os banheiros, os pisos, as luminárias, a parte de marcenaria, os móveis, os adornos de decoração, o equipamento de cozinha. Depois de muito tempo, de muito trabalho, de muitas idas e vindas, de muito desgaste, de muita paciência e disposição para aproveitar a experiência adquirida, finalmente lá está, nosso sonho materializado, pronto para ser habitado. Fomos bem sucedidos.

      Ao completarmos um curso universitário e dele obtermos o conhecimento necessário e a habilitação legal para exercermos uma profissão, estamos completando um ciclo que iniciou-se no jardim de infância, com a primeira professora nos ensinando as primeiras letras e números, e a nossa evolução através dos demais anos escolares, sempre adquirindo maior cultura, maior compreensão, desenvolvendo a lógica e o raciocínio, aprendendo as necessárias noções de civismo e de companheirismo. Provas, exames, vestibulares de acesso são obstáculos que temos que vencer durante esse caminhar, para avaliarmos e provarmos a nós mesmos que estamos aptos a prosseguir e alcançar novos patamares. Ao recebermos o diploma de conclusão estamos também encerrando todo esse processo, que levou anos para ser realizado,  e nos lançando, felizes e auspiciosos,  para a nova aventura que é a de atuarmos na profissão escolhida.

     O casal que decide ter um filho também passará por uma série de etapas que vão desde a alegre notícia da gravidez, aos exames pré-natais, à modificação do corpo da mulher, a criação de um novo espaço dentro do lar para acomodar o futuro bebê, o adquirir de roupinhas, fraldas, brinquedos, cadeirinhas, carrinhos, banheirinhas, a possível contratação de uma babá, a escolha do tipo de parto, o envolvimento e entusiasmo da família, a ida ao hospital, até o fim dos nove meses de espera com o nascimento desse novo ser. A partir desse momento a vida dessas pessoas também se abre para um novo horizonte, onde sonhos, esperanças, fantasias, alegrias se harmonizam com as novas responsabilidades, os novos ritmos, as novas despesas, a nova organização de tarefas, etc. Agora não é mais “eu e você”, mas “nós”.

     A dona de casa, que ao final do dia senta-se à mesa do jantar, que ela preparou, com a família reunida à sua volta, sabe que também está terminando “ o dia”, isto é, encerrando um ciclo de tarefas para, após algum descanso, recomeçá-las. Um novo alvorecer trará essa mãe novamente interessada no bem estar da sua família, preocupada em preparar o café da manhã, levar os filhos à escola, fazer as compras para a casa, voltar para limpar, lavar, passar, cozinhar, buscar os filhos, verificar se estão fazendo suas lições de casa, controlar uso e acesso à TV e internet, levar um para a aula de natação, a outra para o ballet, voltar esperar pela chegada do marido, ouvir-lhe falar do dia pronta para dar-lhe uma palavra de estímulo e conforto, terminar o preparo do jantar, conversar com todos interessando-se pelos seus comentários e expectativas, verificar horário de ir para a cama e, finalmente, retirar-se, realizada por ter cumprido, uma vez mais a sua participação nessa grande engrenagem cósmica que é o viver.

     O Mundo, carta número 21, pode ser reduzida a 20 e 1 que é o Renascimento, a ressurreição, o Julgamento, o Aeon (Arcano 20), com sua promessa de libertação e de chamado vocacional sendo realizado com a destreza, o entusiasmo e as habilidades do Mago (Arcano 1). Podemos também reduzir (21= 2+1=3) aos valores propostos pela carta de Imperatriz, de satisfação com a vida, criatividade, produtividade. É também a junção das polaridades, da luz e da sombra, do masculino e do feminino, da Sacerdotisa (Arcano 2) e do Mago (Arcano 1), a concretização do que é imaginado, idealizado. Também encontramos aqui a vitória máxima da liberação espiritual, anunciada pelo Arcano 7, o Carro (3 x 7 = 21). É a chegada a um destino proposto. É alcançar o sucesso pretendido.

     Na Árvore da Vida cabalística, esse é o 32º Caminho, aquele que liga Yesod ( o alicerce) a Malkuth (a terra), ou seja, é por onde os elementos, os componentes, aquilo que foi pensado no Plano Universal tornam-se concretos, reais. Em Malkuth estão reunidos os 4 elementos: fogo, água, ar e terra, além de um 5º, que é o Espírito. A virtude de Malkuth é o discernimento. É saber manter-se em equilíbrio. É administrar as iniciativas, a criatividade, as paixões, as emoções, os sentimentos, a lógica, a razão, o físico, o labor, o material e o espírito.

     Dependendo da questão do Consulente e das demais cartas, além da sua posição, numa leitura de tarot, o Mundo pode simbolizar sucesso nos negócios, início de um novo empreendimento, melhoria na saúde, um futuro promissor na carreira. Simboliza, também, satisfação, um sentimento de orgulho justificado, uma vitória alcançada. Alegria e uma sensação de harmoniosa plenitude também acompanham esta carta. O sucesso anunciado por este Arcano muitas vezes ainda precisa ser trabalhado, abandonando-se o comodismo, sobrepujando a apatia e o pessimismo. É um grande indicativo de que o Consulente superou suas limitações, abrindo-se para a vida e permitindo-se às oportunidades que ela generosamente lhe oferece. Há uma sensação de novidade, de novas e excitantes idéias surgindo. O Consulente passa a ter consciência da sua bagagem de vida, das suas experiências e de como bem adequá-las e utilizá-las no futuro. Como é uma carta de abertura, é “ter o mundo a seus pés”. É carta que anuncia possibilidade de viagens, contatos, negócios ou intercâmbios de âmbito internacional. É sentir-se íntegro, completo, potente, independente, afortunado, no domínio de seus talentos, emoções, sentimentos e habilidades. É vivenciar um estado de êxtase.

     É claro que ao concretizarmos algo não estamos encerrando em definitivo as nossas atividades, os nossos compromissos, as nossas obrigações. Estamos dando um passo, rumo a um futuro que não tem a menor garantia de ser fácil. Quem constrói uma casa sabe que ela precisará constantemente de manutenção. A pintura deverá ser renovada, o jardim cuidado, as telhas quebradas trocadas. Problemas de hidráulica e elétrico são esperados. Há impostos a serem pagos, seguros a serem feitos e mais uma infinidade de compromissos. O mesmo ocorre com quem sai da faculdade. A busca de emprego, a continuidade nos estudos em busca de especializações ou títulos que lhe garanta melhores salários, vencer a concorrência e encontrar o seu nicho no mercado de trabalho, o dia a dia da profissão, desde montar consultório ou escritório, até o atendimento aos clientes, tudo são novas experiências a serem administradas e outras antigas a serem empregadas. Um filho representa todo um comprometimento que ultrapassa o plano amoroso, familiar, e requer cuidados médicos, investimento na educação, manutenção de todas as necessidades. O investimento que a família faz proporcionando-lhe o melhor ambiente para desenvolver-se além das lições aprendidas dos pais sobre amor, compaixão, moral e fé exigem anos de paciência e dedicação. A nossa dona de casa, ao terminar de lavar a louça do jantar está ciente de que, poucas horas de sono depois, terá a do café da manhã sobre a pia. A sala que acabou de ser varrida e limpa, em minutos, começa apresentar uma fina camada de poeira novamente se assentando. A roupa que foi cuidadosamente lavada e passada em algumas horas estará novamente suja.

     Viver o Mundo é, pois, um estado de satisfação tão grande que engloba também as consequências decorrentes dessa conquista. Elas fazem parte do “pacote” de satisfação, de prazer. Aliás, qual seria a nossa sensação de vitória, de utilidade, de atuação se, a um estalar de dedos tivéssemos a casa que tanto sonhamos à nossa disposição, ou se deitássemos ignorantes e acordássemos sábios? Ou ainda se não vivêssemos  a alegre ansiedade de termos um filho e vê-lo transformar-se num ser humano íntegro e independente? Ou mesmo se fôssemos impedidos de reformularmos o cardápio para agradarmos a uns e a outros, rearranjássemos os quadros e a mobília buscando fornecer maior conforto à nossa família, ou se não pudéssemos nos emocionar, ao ver aquela “eterna criança” recebendo seu título de doutor e, entre aplausos e lágrimas, lembrarmos dele, curioso, sentado no banco traseiro do carro, sendo dirigido por nós até a escolinha?

     Pois é, o Mundo é a somatória de todos os passos que demos, das ações que executamos e daquelas que deixamos de fazer, em busca da nossa felicidade, da nossa união definitiva entre a mente desperta e o nosso subconsciente, do perdão que concedemos, inclusive a nós próprios e do amor e compaixão que distribuímos. São os nossos medos e instintos domados pela nossa força de vontade e a sabedoria adquirida nos mergulhos que demos em busca de nós mesmos, da nossa alma original, do que somos e de como podemos fazer melhor uso disso tudo, em nosso benefício e também dos outros. Viver esse Arcano é estar consciente que, apesar dele ser a última carta do tarot, ele não é o fim em si mesmo. Ele é um degrau do qual nos utilizamos para nos elevarmos um pouco mais e recomeçarmos outra vez esperançosos, inocentes, impetuosos, infantis, honestos conosco mesmo, a nossa nova jornada. A interminável jornada do Louco.

     Nesta sexta-feira, dia regido por Vênus, símbolo da beleza, da harmonia, da gratificação, com a Lua entrando em Peixes, favorecendo que exerçamos o perdão, as mágoas, vençamos obstáculos e acabemos com desentendimentos, parece-me bastante propício para que aproveitemos as sugestões saturninas da Carta do Dia, o Mundo, e reflitamos que tudo tem uma causa e um efeito. Que a cada momento estamos vivendo os créditos e os débitos que temos junto ao banco da Vida. Portanto, aproveitando que Saturno representa esse equilíbrio, esse balanço, e aproveitando as demais energias traduzidas por Vênus e pela Lua, procuremos nos harmonizar ao máximo e encontrar o que celebrar em cada conquista, por menor que possa nos parecer. Não há melhor remédio que viver em paz consigo próprio, sabendo-se cumpridor da missão a que se propos.

     A todos, um ótimo, saudável, consciente, pleno, feliz e irrestrito início de final de semana. Outra, ainda melhor, certamente está a nos aguardar.

Imagem: TAROT NAMUR, por Prof. Namur Gopalla e Marta Leyrós (Academia de Cultura Arcanum)