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sábado, 22 de maio de 2010

Carta do Dia: 10 DE ESPADAS

                                                      ÉDIPO
     “… Mas ninguém mais me arrancou os olhos; fui eu mesmo!”
      “Desgraçado de mim! Para que ver, se já não poderia ver mais nada que fosse agradável a meus olhos?”
                                                  CORIFEU
     “Realmente! É como dizes!”
                                                     ÉDIPO
     “Que mais posso eu contemplar, ou amar na vida? Que palavra
poderei ouvir com prazer? Oh! Levai-me para longe daqui, levai-me depressa para bem longe. Eu sou um réprobo, um maldito, a criatura mais odiada pelos deuses, entre os mortais!”

                                       ……………………………

     “…..por que mostraste um dia um pai irmão de seus filhos, filhos irmãos de seu pai, e uma esposa que era também mãe de seu marido?! Quanta torpeza pôde ocorrer entre criaturas humanas! Vamos! Não fica bem relembrar o que é hediondo fazer-se; apressai-vos - pelos deuses! –em esconder-me longe daqui, seja onde for! Matai-me, atirai-me ao mar, ou num abismo onde ninguém mais me veja! Aproximai-vos: não vos envergonheis de tocar num miserável; crede, e não temais; minha desgraça é tamanha, que ninguém mais, a não ser eu, pode sequer imaginá-la!”

                         ………………………………………………….

                                                    CORIFEU
     “Habitantes de Tebas, minha Pátria! Vede este Édipo, que decifrou os famosos enigmas! Deste homem, tão poderoso, quem não sentirá inveja? No entanto, em que torrente de desgraças se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida.”

Édipo e Corifeu, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords10 (5) Se me perguntarem qual é o lado positivo do 10 de Espadas, creio que diria ser o fato que pior do que está não pode ficar. Chegamos ao fundo do poço. Descemos ao mais profundo da miséria humana. Chegamos ao limite das nossas forças. Mais não poderemos suportar. Então, o que nos resta fazer? Eu diria que a solução viável é firmar bem os pés no chão e utilizar a realidade como mola propulsora para nos reerguermos.

     Algumas pessoas têm grande dificuldade de ultrapassarem a barreira do 9 de Espadas. Só quando reconhecemos que chegamos ao limite e aceitamos o fato, sem ficarmos inventando desculpas do gênero “eu sou assim mesmo”, “eu nunca vou conseguir”, “não posso acreditar que tenha acabado”, eu não vou deixar isso acabar assim não”, “não é tão ruim como parece”, só mesmo quando aceitarmos o fato de que não há mais nada, naquela situação, pelo que lutar, é que vamos conseguir nos libertar da âncora que nos arrasta ao fundo do oceano e tomar impulso para emergirmos novamente.

     As cartas numeradas com o valor 10 encontram-se na base da Árvore da Vida cabalística, numa Sephirah (esfera) denominada Malkuth, ou o Reino. Malkuth é o plano terreno, o planeta Terra, nosso mundo, nossa realidade. O 10 de Espadas, como as demais cartas desse valor, representa o fim de um ciclo, mas não o nosso fim. Como a seiva de uma árvore, nós continuaremos a circular, pois os caminhos da Árvore da Vida tanto são ascendentes como descendentes. A cada ciclo nós nos renovamos, acumulando experiências que nos servirão na vivência de outros, e outros, e outros ciclos mais.

     A trágica história do rei Édipo chega ao seu final. Ele, cego, pede para Creonte, seu tio e cunhado, para ser banido de Tebas. Implora para ir para o monte Citerão, local onde, ainda bebê, havia sido abandonado, pois crê que deve ser lá o local onde deverá aguardar a morte, aquela que não aconteceu quando seus pais o quiseram:

     “Quanto a mim, não queiras que a cidade de meu pai me tenha como habitante, enquanto eu vivo for; ao contrário, deixa-me ir para as montanhas, para o Citéron, minha triste pátria, que meus genitores escolheram para meu túmulo, para que eu morra por lá, como eles queriam que eu morresse. Aliás, eu bem compreendo, que não será por doença, ou coisa semelhante, que terminarei meus dias; nunca foi alguém salvo da morte, senão para que tenha qualquer fim atroz.”

     Pede que Creonte enterre Jocasta e lastima a sorte dos filhos, que sofrerão o desprezo de todos, especialmente as filhas, Antígona e Ismênia:

    “… E quando atingirdes a idade florida do casamento, quem será... sim! - quem será bastante corajoso para receber todos os insultos, que serão um eterno flagelo para vós, e para vossa prole? Que mais falta para vossa infelicidade? Vosso pai? Mas ele matou seu pai, casou-se com sua mãe, e desse consórcio é que vós nascestes. Eis as injúrias com que vos perseguirão...
Quem vos quererá por esposa? Ninguém! Ninguém, minhas filhas!
Tereis de viver na solidão e na esterilidade…”

     Pede, finalmente, que Creonte permita que ele se faça acompanhar, no exílio, pelos filhos, para que lhe sirvam de guia e de consolo, obtendo do tio e cunhado a seguinte observação:

                                                  CREONTE
     “Não queiras satisfazer todas as tuas vontades, Édipo! Bem sabes que tuas vitórias anteriores não te asseguraram a felicidade na vida!”

     Com essa frase, Sófocles, há 2.500 anos, demonstrou seu conhecimento sobre a chamada Roda do Destino, onde as posições se alternam à medida que a roda gira e onde o único lugar de estabilidade e paz (nirvana) é o centro da mesma. As vitórias anteriores (derrotar a Esfinge) não garantiram a Édipo a permanência do seu status, a continuidade da sua glória, o equilíbrio do seu raciocínio, a harmonia das suas emoções.

     O surgimento de um 10 de Espadas numa leitura de tarot, sempre levando-se em consideração a sua posição na jogada, bem como as das demais cartas, e a questão proposta pelo Consultante, pode simbolizar um momento de azar e de sofrimento. Um aviso de que a situação está para explodir sob seus pés. Medos, paranóia e pessimismo. Pesar, dor. O Consultante pode estar empregando muita energia com pensamentos destrutivos, ou mesmo, criando sua própria derrota. Reagir de maneira exagerada, extremamente dramática e muito teatral a uma situação. Um relacionamento que termina subitamente. Problemas a serem enfrentados em todas as áreas. As coisas caminham para o pior. Uma sequência de doenças inesperadas. O fim dos sonhos e das esperanças.

     Apesar de seu aspecto extremamente negativo, essa carta também pode, em determinadas situações, simbolizar o fim dos tempos difíceis, com a situação melhorando um pouco. Um sucesso temporário. Um favor recebido. O Consultante começa, vagarosamente, a sentir-se mais confiante e recomeça a sua caminhada para recuperar a força interior perdida, utilizando-se para tanto, o que aprendeu com os episódios passados. O Consultante pode ter uma pequena iluminação, uma breve revelação sobre o problema, que o ajudará a recomeçar. Pode significar uma significativa recuperação de problemas causados por terceiros. O pior já aconteceu, e para continuar o Consultante deve aceitar a sua dor, tendo o tempo como aliado em sua cura. Tal como um pássaro que sai da casca do ovo, o Consultante ainda tem que aprender (ou reaprender) a voar.

     Neste sábado, com Saturno como regente do dia e a Lua em Libra, é aconselhável que não nos envolvamos em confrontações de nenhuma espécie. Manter uma disposição mental bastante alerta e receptiva, cuidando para não cultivar pensamentos, definições ou decisões negativas, irreais ou precipitadas, conservar uma atitude equilibrada, harmoniosa, pacífica e bastante diplomática, só pode trazer benefícios, hoje e em qualquer outro dia das nossas vidas. Abra-se para o fluxo da vida e sinta a sua seiva percorrer o seu corpo!

     Um ótimo e muito esperançoso final de semana para todos!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Carta do Dia: 9 DE ESPADAS

                                                O CORO
     “… Ilustre e querido Édipo, tu que no leito nupcial de teu pai foste recebido como filho, e como esposo dize: como por tanto tempo esse abrigo paterno te pôde suportar em silêncio?
Só o tempo, que tudo vê, logrou, enfim, ao cabo de tantos anos,
condenar esse himeneu abominável, que fez de ti pai, com aquela de quem eras filho! Filho de Laio, prouvera aos deuses que nunca te houvéramos visto! Condoído, eu choro tua desgraça, com lamentações da mais sincera dor! No entanto, para dizer-te a verdade, foi graças a ti que um dia pudemos respirar tranqüilos e dormir em paz!”
(Entra um EMISSÁRIO, que vem do interior do palácio)
…………………………….
                                           EMISSÁRIO
     “Uma coisa fácil de dizer, como de ouvir: Jocasta, a nossa rainha, já não vive!”
                                            CORIFEU
     “Oh! Que infeliz! Qual foi a causa de sua morte?”
                                          EMISSÁRIO
     “Ela resolveu matar-se... E o mais doloroso vos foi poupado: vós não vistes o quadro horrendo de sua morte. Dir-vos-ei, no entanto, como sofreu a infeliz. Alucinada, depois de transpor o vestíbulo, atirou-se em seu leito nupcial, arrancando os cabelos em desespero. Em seguida, fechou violentamente as portas, e pôs-se a chamar em altos brados por Laio, recordando a imagem do filho que ela teve há tantos anos, o filho sob cujos golpes deveria o pai morrer, para que ela tivesse novos filhos, se é que estes merecem tal nome! Presa da maior angústia, ela se lastimava em seu leito, onde, conforme dizia tivera uma dupla e criminosa geração. Como teria morrido, não sei dizer, pois Édipo, aos gritos, precipitou-se com tal fúria, que não pude ver a morte da rainha.
Todos os nossos olhares voltaram-se para o rei, que, desatinado, corria ao acaso, ora pedindo um punhal, ora reclamando notícias da rainha, não sua esposa, mas sua mãe, a que deu à luz a ele, e a seus filhos. No seu furor invocou um deus, - não sei dizer qual, pois isto foi longe de mim! Então, proferindo imprecações horríveis, como se alguém lhe indicasse um caminho, atirou-se no quarto. Vimos então, ali, a rainha, suspensa ainda pela corda que a estrangulava... Diante dessa visão horrenda, o desgraçado solta novos e lancinantes brados, desprende o laço que a sustinha, e a mísera mulher caiu por terra. A nosso olhar se apresenta, logo em seguida, um quadro ainda mais atroz: Édipo toma seu manto, retira dele os colchetes de ouro com que o prendia, e com a ponta recurva arranca das órbitas os olhos, gritando: "Não quero mais ser testemunha de minhas desgraças, nem de meus crimes! Na treva, agora, não mais verei aqueles a quem nunca deveria ter visto, nem reconhecerei aqueles que não quero mais reconhecer!" Soltando novos gritos, continua a revolver e macerar suas pálpebras sangrentas, de cuja cavidade o sangue rolava até o queixo e não em gotas, apenas, mas num jorro abundante. Assim confundiram, marido e mulher, numa só desgraça, as suas desgraças! Outrora gozaram uma herança de felicidade; mas agora nada mais resta senão a maldição, a morte, a vergonha, não lhes faltando um só dos males que podem ferir os mortais.”

Corifeu e Emissário, “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords09 (5) Muitos consideram o 9 de Espadas uma das cartas mais cruéis do Tarot e, certamente, do naipe de Espadas. Costuma representar uma grande angústia ou aflição que sentimos por outra pessoa. É, por exemplo, a sensação de impotência que nos abate quando temos um ente querido sofrendo uma doença. Ou a terrível experiência dos pais que tentam resgatar um filho do submundo das drogas. A causa das nossas dores, do nosso pesadelo, no caso do 9 de Espadas, é provocado por algo ou alguém que não nós mesmos.

     Yesod, a 9ª esfera (Sephirah) da Árvore da Vida, é chamada de Fundamento, o lugar onde está a nossa parte inconsciente, dos pesadelos e dos medos, da depressão e dos grandes mistérios que parecem surgir dos recantos mais escuros de nós mesmos. É o local onde guardamos tudo aquilo que, no âmbito racional, nos é difícil de lidar. É de Yesod que os nossos pesadelos surgem, onde, pela influência lunar as nossas percepções são distorcidas e nubladas. A Lua é o planeta (sim, a Lua é um satélite, mas em termos de astrologia básica, a consideramos um planeta) associado a Yesod e, portanto, isso significa que todas as entidades, todas as divindades associadas a ela pertencem a essa Sephirah (esfera): Luna, Hécate, Diana, Hathor, Isis, Lilith, Astarte. As fases da lua (Nova, Crescente, Cheia, Minguante) também refletem aspectos do feminino: a Donzela, a Mãe, a Anciã. Como a Lua reflete a luz emitida pelo Sol, ela tem sombras que a cada dia são mais e mais reveladas. Basta-nos olharmos para uma Lua em seu Quarto-Crescente e veremos que, noite após noite ela revela um pouco mais de si. Ainda que ela fisicamente não se transforme, durante suas fases, e apresente o tempo todo a mesma face, o mesmo lado, os seus ciclos são meramente ilusórios. E Yesod é a esfera (Sephirah) das Ilusões.

     Jocasta e a Esfinge são as únicas figuras femininas de relevância em “Oedipus Rex”, e ambas escondem segredos lunares. Segredos que habitam uma zona de sombras dentro das almas humanas e que, dado o tempo devido do ciclo, eles necessitam vir à tona e, certamente, virão. A Esfinge resume as fases da vida de todo o ser humano, nascimento, vida e morte, em sua questão: “Qual é o animal que de dia tem 4 pernas, à tarde tem 2 e à noite, 3?”. Édipo, o representante solar, racionalmente esclarece, soluciona o enigma dizendo ser o homem, que ao nascer caminha com os 4 membros. Adulto, usa as 2 pernas para se locomover e, velho, necessita da ajuda de uma bengala. Mistério revelado significa o fim do monstro, do pesadelo: a Esfinge suicida-se atirando-se do alto do promontório onde habitava.

     Jocasta, por sua vez, tomando consciência de que o homem que desposara é seu filho e assassino do pai, seu falecido marido, o rei, tenta, inutilmente, evitar que Édipo confronte-se com a realidade. Procura, de alguma forma, iludi-lo, numa maternal, porém vã tentativa de protege-lo. Roga-lhe para que desista, sugestão que é refutada. Ela sabe, por instinto e objetivamente (Yesod + Malkuth) a verdade dos fatos. Tendo Édipo compreendido toda a real situação, toda a verdadeira tragédia que constitui sua vida, tendo, uma vez mais, solucionado o mistério, o que resta a Jocasta a não ser destruir-se, aniquilar-se, perdida em seu próprio desespero e culpa? Sua morte é a representação de mais uma fase lunar, de um ciclo de total escuridão, simbolizado na cegueira de Édipo que se vale das presilhas que prendiam a roupa da rainha morta para arrancar seus próprios olhos.

     Entre o último diálogo de Jocasta com o filho/esposo, e a sua entrada no palácio real, ela vive em profunda intensidade aquilo que o 9 de Espadas simboliza: preocupação, decepção, arrependimento, desespero, sofrimento, traição, medo. Qual será o destino de seus 3 filhos com Édipo? E o que será de Édipo?  Por razões semelhantes a essas, quando um 9 de Espadas aparece numa tiragem de tarot, sempre dependendo da sua localização na jogada e entre as demais cartas, bem como a questão proposta pelo Consultante, o 9 de Espadas pode simbolizar um tempo onde tudo parece voltar-se contra a pessoa. As pessoas agem com tal crueldade que ferem profundamente. O Consultante pode estar-se sentindo desprezado e alquebrado pelas circunstâncias que estão muito além do seu controle. Tristeza provocada por pesadelos e visões. A sensação de alguém irá cravar um punhal em suas costas. Pode, em alguns raríssimos casos, simbolizar um presságio de morte de um ente querido. As pessoas que cercam o Consultante agem com malícia e intrigas referindo-se ao Consultante. Pessoas estranhas e misteriosas parecem se aproximar. Os seus medos têm fundamento. Ações praticadas no passado finalmente apresentam suas terríveis consequências. Recusar-se a encarar o que fez. O Consultante, dependendo de muitas outras circunstâncias, pode sentir que a vida se esvai de si, ou então alimentar tolas idéias suicidas. Achar muito doloroso pensar na situação que está vivendo. Inabilidade de concentrar-se no assunto que deve ser resolvido. Uma grande confusão mental.

     Às vezes, quando questionado sobre os aspectos positivos desta carta, eu devo confessar que os desconheço em número suficiente para fazer contraponto aos seus sintomas negativos, mas, e sempre há um mas, uma possibilidade extra no tarot, e na vida, nós sabemos que “eles, como tudo, passarão”. Assim como os planetas passam pelos diversos signos do zodíaco, queiramos ou não, como as fases da Lua se alternam independente da nossa vontade, que os ciclos da vida acontecem com ou sem a nossa participação, nós podemos ter certeza de que esse momento também terá o seu fim. O Universo certamente não nos deixará presos em nosso desespero. Podemos contar como certo alternâncias e mudanças. O que está escondido em Yesod pode ser trazido à consciência a fim de ser trabalhado e solucionado.

     Nesta sexta-feira, com a Lua Crescente a nos estimular a resolvermos pendências, a trabalharmos assuntos que estão “engavetados” esperando por uma solução, é um ótimo momento para refletirmos sobre a palavra “responsabilidade”. Devemos aceitar as nossas responsabilidades e não nos deixarmos abater por obstáculos, empecilhos, impedimentos ou dificuldades temporárias. É hora de firmar bem os pés no chão, mas deixar que a cabeça esteja elevada, em busca das estrelas.

     Tenham todos um dia com novas possibilidades e horizontes se descortinando à sua frente!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Carta do Dia: 8 DE ESPADAS

                                              MENSAGEIRO
     “Eis aqui, meu amigo, aquele que era então um menino pequenino!”
                                                  O SERVO
     “Desgraçado! Por que não te calas?”

                     ……………………………………………………….

                                                   ÉDIPO
     “A criança de quem se trata, tu lhe entregaste?”
                                                 O SERVO
     “Sim! Melhor fora que nesse dia eu morresse!”
                                                   ÉDIPO
     “Pois é o que te acontecerá hoje, se não confessares a verdade!”
                                                O SERVO
     “Mas... com mais certeza ainda, se eu disser a verdade, estou perdido!”

                   ………………………………………………………….

                                                O SERVO
     “Pois bem! Aquele menino nasceu no palácio de Laio!”
                                                  ÉDIPO
     “Era um escravo? Era um descendente dele, ou de sua família?”
                                                O SERVO
     “Ai de mim! Isso é que me será horrível dizer!”
                                                  ÉDIPO
     ”E para mim será horrível ouvir! Fala, pois! Assim é preciso!”
                                                O SERVO
”     Diziam que era filho dele próprio. Mas aquela que está no interior de tua casa, tua esposa, é quem melhor poderá dizer a verdade.”
                                                  ÉDIPO
     “Foi ela que te entregou a criança?”
                                                O SERVO
     “Sim, rei.”
                                                  ÉDIPO
     “E para quê?”

                                                O SERVO
     “Para que eu a deixasse morrer.”
                                                  ÉDIPO
     “Uma mãe tez isso! Que desgraçada!”
                                                O SERVO
     “Assim fez, temendo a realização de oráculos terríveis...”
                                                  ÉDIPO
     “Que oráculos?”
                                                O SERVO
     “Aquele menino deveria matar seu pai, assim diziam...”
                                                  ÉDIPO
     “E por que motivo resolveste entregá-lo a este velho?”
                                               O SERVO
     “De pena dele, senhor! Pensei que este homem o levasse para sua terra, para um país distante... Mas ele o salvou da morte para
maior desgraça! Porque, se és tu quem ele diz, sabe que tu és o
mais infeliz dos homens!”
                                                  ÉDIPO
     “Oh! Ai de mim! Tudo está claro! Ó luz, que eu te veja pela
derradeira vez! Todos sabem: tudo me era interdito: ser filho de
quem sou, casar-me com quem me caseie e eu matei aquele a
quem eu não poderia matar!”
     (Desatinado, ÉDIPO corre para o interior do palácio.)

Édipo e o Servo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

   Swords08 (5)   O 8 de Espadas é uma carta que se refere a um aprisionamento de algum tipo, a um bloqueio de energias, inclusive as psíquicas. Um famoso humorista, referindo-se a essa carta, disse uma vez, parodiando a famosa frase de René Descartes (1596-1650): “Penso, logo eu… fico confuso!”.

     Na Árvore da Vida cabalística, todos os 8 correspondem a Hod, a Sephirah que simboliza a inteligência ativa, o intelecto. Hod está relacionado ao pensamento objetivo, analítico e de extrema rapidez, visto que o planeta Mercúrio também é associado à essa esfera situada quase na base do esquema da Árvore da Vida. Visto que o naipe de Espadas, em sua essência, simboliza as atividades mentais, podemos deduzir então que o 8 de Espadas, por situar-se na Sephirah Hod (Glória, Esplendor), soma os seus potenciais, exaltando-os, tornando a linha de pensamento muitas vezes confusa, dúbia, sem saber qual caminho seguir, qual decisão tomar.

     A maior virtude de Hod é a Veracidade e nós muito bem sabemos o quanto essa virtude é difícil de ser atingida, e o quão dolorosa ela pode ser! Não é apenas sermos verdadeiros com os outros, mas também com nós mesmos, e essa é a mais difícil, a mais agoniante verdade a ser aceita. A busca pelo conhecimento pode nos colocar em perigo, especialmente no aspecto psicológico, e é por isso mesmo que os cabalistas creditavam o Arcanjo Miguel, o chefe das milícias celestes, a Hod, junto com o Arcanjo Rafael, o curador, que deveria ser invocado em caso de grandes “ferimentos” psíquicos.

     A força e o poder dessa obra-prima de Sófocles, “Oedipus Rex”, com suas emoções, sua beleza, sua coragem, sua tensão, continua, 25 séculos depois de ter sido escrita, a impressionar e emocionar platéias, a provocar debates, a ser usada como assunto para teses, a simbolizar um dos maiores “complexos” que a psicanálise identificou. Isso tudo deve-se a um homem, uma mente mortal que foi capaz de juntar palavras de tal forma que, ainda hoje, elas repercutem no mais fundo da alma humana. Isso é o que em cabala se chama de A Visão do Esplendor, que não por acaso, é o nome que se dá à experiência espiritual que obtemos nessa Sephirath.

     O trecho grifado acima, extraído de passagens da peça “Oedipus Rex”, nos mostram o momento em que, finalmente, Édipo encontra a verdade que tanto procurava. Sim, ele era filho de Laio e Jocasta. Sim, ele era tebano e não coríntio, como pensava. Sim, o oráculo se cumprira e ele matara seu pai e casara-se com sua mãe. Sim, sua própria mãe o entregara ao seu Servo de confiança para que o matasse, mal acabara de nascer. Sim, seu nome, Édipo (oedipus = pés inchados), e o defeito que tinha em seus pés, devia-se ao fato de ter sido amarrado pelos pés a uma árvore e abandonado à mercê da própria sorte, para ser devorado pelos animais. Sim, ganhara o título de rei e a mão de Jocasta derrotando o enigma da Esfinge (“Qual é o animal que pela manhã tem 4 pernas, à tarde, 2 e à noite tem 3?”) mas não fora capaz de decifrar seu próprio enigma. Talvez a Esfinge fosse uma cilada dos deuses para que a profecia finalmente se cumprisse integralmente. O quebra-cabeças está formado e Édipo sente-se só, perdido, vítima de um destino cruel. Sabe (ou pelo menos presume) que será abandonado por todos, que todos se horrorizarão de estarem à sua presença. Ele, o parricida e o filho incestuoso.

     Quando um 8 de Espadas surge numa leitura de tarot, sempre dependendo da sua posição na jogada e das demais cartas que o acompanham, bem como do assunto de interesse do Consultante, pode significar bloqueios, obstáculos, aprisionamento, restrições, isolamento. Censura e auto-censura. Temer a liberdade pessoal. Pode simbolizar o fato do Consultante ter erguido um muro que o separa dos seus sonhos. Um momento de crise. Obsessão. Desespero. Não conseguir livrar-se do confuso emaranhado de fatos em que a situação parece ter-se tornado. O Consultante pode estar permitindo que outras pessoas interfiram, seja por inveja ou por trivialidades, no seu equilíbrio psíquico. Doença. Estar impossibilitado de deixar o leito ou locomover-se. Imobilidade. Preguiça. Insatisfação, muitas vezes injustificada, com conquistas obtidas no passado. Sentir-se abandonado pelos outros.

     É muito comum, pessoas que são alcoólatras, ou que tenham algum tipo de vício ou dependência, inclusive sexual, se considerarem banidas, párias sociais, indignas do convívio com o grupo. É exatamente esse o alerta que o 8 de Espadas faz: não se isole, nas se restrinja, não crie limitações, amarras, obstáculos, impedimentos ou desculpas. Peça ajuda. Estenda a mão e peça o auxílio de seu semelhante. Inúmeras são as associações, os grupos de terapia, os profissionais qualificados que podem remover essas falsas amarras que nos impomos. O grande problema enunciado por essa carta é a idéia de “pré-conceber” algo, ou seja, presumir que não conseguirá livrar-se, presumir que ninguém lhe dá atenção, presumir que todos lhe virarão as costas, presumir que está perdido sem um guia que possa ajudar. Companhia e contato humano são essenciais pois necessitamos de outras pessoas que possam nos apontar uma nova perspectiva para aquilo que chamamos de “meu problema”.

     Quando, numa jogada, o 8 de Espadas sai bem localizado, ou bem dignificado, como se usa dizer, podemos perceber que o Consultante está apto para viver a sua própria liberdade. Que o caminho à sua frente está menos acidentado. Que a sua forma de pensar está mais clara. Que há um súbito desaparecimento dos problemas que pareciam persistirem. Pode, sob determinadas circunstâncias, significar que o Consultante apercebeu-se que estava se dedicando em demasia a algo ou a alguém que não valia o esforço, e está com um novo projeto de vida. Alegria, felicidade. Retorno ao convívio social. Comportamento mais liberal. As coisas se movem, caminham, ainda que muito trabalho e empenho pessoal sejam necessários. Significa, também, a solução de um problema pois o Consultante encontrou “a chave” do mistério. As recompensas ainda estão bastante distantes e ainda resta muito a caminhar, mas há uma sensação de que alguns obstáculos já foram ultrapassados e as pessoas, que poderiam estar impedindo o caminhar, afastam-se, abrindo passagem. O Consultante começa a olhar a vida sem ter “areia” para lhe embaçar a visão. Depois de muito quebrar a cabeça, de muito raciocinar, de muito pensar em busca de soluções, a mente parece clarear-se, iluminar-se. A verdade triunfa.

     Édipo, finalmente, tem à sua frente um quadro da sua tragédia pessoal. Todos os elementos que ele necessitava para conhecer a sua verdade foram expostos. Cabe a ele decidir como utilizar essa verdade que tanto buscou. Como esse conhecimento irá, ou não, libertá-lo da cegueira, da escuridão mental em que viveu toda a sua vida adulta, dependerá exclusivamente dele e do quanto os que lhe são próximos estarão dispostos a ajudá-lo nessa crise. Ele, o herói que libertara toda uma nação das garras impiedosas da Esfinge, usando o seu brilhante raciocínio, uma vez mais desvendou um mistério: o seu próprio.

     Hoje a Lua Crescente está em Virgem, o que pode significar ser um ótimo período para nos organizarmos, inclusive mentalmente, abandonando medos, tensões e permitindo um novo fluxo de idéias. É um convite para que sejamos mais realistas, que não desviemos os nossos olhos e os nossos pensamentos da verdade que se nos apresenta, mas que procuremos, inclusive com a ajuda alheia, a superar nossa possível falta de confiança pessoal, nossos receios, e nos abramos, confiantes, para tempos melhores.

     Tenham todos uma ótima quinta-feira, livre das falsas ilusões!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Carta do Dia: 7 DE ESPADAS

                                                        ÉDIPO
     (A Jocasta.) “Senhora, acreditas que o homem a quem mandamos há pouco chamar, seja o mesmo a quem este mensageiro se refere?”
                                                     JOCASTA
     “De quem te falou ele? Ora... não penses nisso; o que ele diz não tem importância alguma.”
                                                       ÉDIPO
     “É impossível que com tais indícios eu não descubra, afinal, a verdade acerca de meu nascimento.”
                                                     JOCASTA
     “Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação. (À parte.) Já é bastante o que eu sei para me torturar.”
                                                      ÉDIPO
     “Tranqüiliza-te! Mesmo que eu tivesse sido escravo desde três gerações, tu não serás humilhada por isso!”
                                                   JOCASTA
     “Não importa! Escuta-me! Eu te suplico! Não insistas nessa indagação!”
                                                      ÉDIPO
     “Em caso algum desistirei de elucidar esse mistério.”
                                                   JOCASTA
     “No entanto, é para teu bem que assim te aconselho.”

                                                       ÉDIPO
     “Acredito... mas esses conselhos teus há muito me importunam!”
                                                   JOCASTA
     “Infeliz! Tomara que tu jamais venhas a saber quem és!”

Édipo e Jocasta, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

    Swords07 (5) Um dos pontos altos da peça “Édipo Rei” é o momento em que Édipo manda buscar o Pastor a quem ele fora entregue, recém-nascido, para ser abandonado no campo, para morrer e assim não cumprir a profecia do Oráculo de Delfos que havia avisado a Laio e Jocasta, seus pais, que um dia o filho mataria o Rei e desposaria a Rainha, sua mãe.

     Édipo percebe que será o depoimento daquele pastor que elucidará os fatos e, principalmente, fará com que ele finalmente compreenda a sua origem. Jocasta, sua esposa e mãe biológica (fato que Édipo ainda não sabe), já consciente da tragédia que estão vivendo, tendo juntado as informações e percebido a terrível verdade que se escondera por tantos anos e que agora, tal qual uma espada, pende sobre suas cabeças, faz o possível para convencer o esposo (e filho) a desistir de seu intento de descobrir a verdade. Sabe que o pastor a quem ela entregara o seu filho para que fosse abandonado à própria sorte, irá fornecer a Édipo subsídios suficientes para que ele solucione a sua crise de identidade. Além disso, ela teme a reação de seu filho e consorte ao saber que ele assassinara o próprio pai e vive como marido e mulher com sua mãe. Ela, agindo mais maternalmente do que como esposa, quer evitar a ele tal sofrimento. Quer evitar que ele saiba que foi mandado à morte, ainda bebê, por ela e por seu pai, Laio. Quer impedir que a verdade venha à tona, porque bem sabe as consequências dessa descoberta. Édipo recusa-se a ouvi-la e, inclusive, acusa-a de dar-lhe conselhos equivocados e, com isso, subtraindo dele a possibilidade de conhecer a sua própria verdade.

     Quando um 7 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que o acompanham, além da questão formulada pelo Consultante, pode simbolizar que, ainda que o Consultante esteja se esforçando, ele não está chegando a nenhum resultado, além de existir uma sensação de que não importa o que ele faça ou deixe de fazer, ele não obtém resultados. Pode ser que o Consultante queira fazer uma mudança em sua vida, mudando-a para melhor, ou mesmo, saber qual é o seu lugar, a sua posição na situação que possa estar vivenciando. Sentir-se inseguro, pessimista ou inquieto em relação aos seus propósitos de vida. Sentir-se deprimido pela sua falta de habilidades, de utilidade. Sente-se dispensável. Sentir-se vivendo uma situação misteriosa. Sentir-se traído. Ser roubado, seja material ou intelectualmente. Também uma mudança física, de residência, de cidade, de estado pode ser considerada.

     Num aspecto positivo, o 7 de Espadas, sempre dependendo da sua posição na jogada, pode significar que o Consultante está se permitindo pensar mais claramente, mais realisticamente, a respeito da situação que está vivendo. Começar novos planos, sentindo que existe um novo propósito em sua vida. Procurar conselho e optar por modificar a vida para melhor. Sentir-se bem consigo mesmo. O mistério que pairava sobre determinada situação começa a se dissipar. O Consultante sente-se, novamente, inteiro, com uma mente aguçada e ágil. As pessoas passam a considera-lo como indispensável.

     Nesta quarta-feira, sob a regência de Mercúrio e com a Lua Nova em Leão, poderíamos usar o conselho expresso pelo 7 de Espadas de encerrarmos velhas lutas, antigos argumentos, discussões ultrapassadas, desavenças mesquinhas. É uma ótima ocasião para afugentarmos os fantasmas do passado, de uma vez para sempre. Tempo de dizer adeus a ambições e objetivos que já não representam mais nada em nossas vidas e prestar mais atenção aos nossos sonhos, nossas intuições, nossa voz interior.

     Que o dia de hoje traga o abandono de velhos hábitos que são nocivos ao nosso estágio de desenvolvimento atual e nos libere para alçarmos vôos mais altos. Tenham todos um ótimo dia!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

terça-feira, 18 de maio de 2010

Carta do Dia: 6 DE ESPADAS

                                      JOCASTA
     “…Mas dize por que vieste, e que notícias nos queres anunciar.”
                                   MENSAGEIRO
     “Coisas favoráveis para tua casa, e teu marido, senhora.”
                                     JOCASTA
     “De que se trata? De onde vens tu?”
                                   MENSAGEIRO
     “De Corinto. A notícia que te trago ser-te-á muito agradável; sem dúvida que o será; mas pode também causar-te alguma contrariedade.
                                    JOCASTA
     “Mas que notícia será essa, que produz, assim, um duplo efeito?”
                                  MENSAGEIRO
     “Os cidadãos do Istmo resolveram aclamar rei a Édipo, segundo
dizem todos.”
                                    JOCASTA
     “Quê? O venerando Políbio já não exerce o poder?”
                                  MENSAGEIRO
     “Não... A morte levou-o à sepultura.”
                                    JOCASTA
      “Que dizes tu? Morreu Políbio?”
                                  MENSAGEIRO
     “Que eu pereça já, se não for a pura verdade!”

                 …………………………………………………….

                                       ÉDIPO
     “Ora eis aí, minha mulher! Para que, pois, dar tanta atenção ao solar de Delfos, e aos gritos das aves no ar? Conforme o oráculo, eu devia matar meu pai; ei-lo já morto, e sepultado, estando eu aqui, sem ter sequer tocado numa espada... A não ser que ele tenha morrido de desgosto, por minha ausência... caso único em que eu seria o causador de sua morte! Morrendo, levou Políbio consigo o prestígio dos oráculos; sim! os oráculos já não têm valor algum!”
                                   JOCASTA
     “E não era isso o que eu dizia, desde muito tempo?”
                                      ÉDIPO
     “Sim; é a verdade; mas o medo me apavorava.”
                                  JOCASTA
     “Doravante não lhes daremos mais atenção.”

Mensageiro, Jocasta e Édipo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords06 (5) Sófocles, há aproximadamente 2.500 anos, ao criar essa obra-prima da literatura mundial, esse magnífico exemplo de peça teatral, utilizou-se de todos os recursos para dar veracidade ao drama que queria retratar.

     Se olharmos “Édipo Rei” como uma peça sobre parricídio e incesto, estaremos fazendo uma leitura bastante superficial de todos os conflitos da alma humana apreendidos pelo sábio escritor em seu texto. Édipo é um homem com todos as virtudes e pecados, com todos os vícios e angústias, com todos os medos e egolatria que iremos encontrar na humanidade, de forma geral, em qualquer tempo. A maneira com que ele procura esquivar-se da verdade, ainda que, técnicamente a busque, é impressionante.

     A chegada do Mensageiro, vindo de Corinto com a notícia que seu pais (que era adotivo) havia falecido é o bastante para que ele acredite que o Oráculo de Delfos estivesse enganado a seu respeito. Imediatamente, ao ouvir a notícia ele desacredita as mensagens das pitonisas do célebre templo de Apolo, recebidas anos antes, que diziam que ele mataria seu pai e casar-se-ia com a própria mãe. Na época, fugiu, para evitar que a profecia se cumprisse e que ele viesse a assassinar o Rei Políbio, de Corinto, e casar-se com a Rainha Mérope, que acreditava ser sua verdadeira mãe. Nessa fuga, tomando rumo de Tebas, cruza com o Rei Laio, que era seu pai verdadeiro, e, numa discussão tola, mata-o, vindo, depois, desposar sua mãe biológica, a Rainha Jocasta, com quem teve 3 filhos.

     A notícia que o Mensageiro traz é o suficiente para que ele busque, desesperadamente, livrar-se de uma carga de culpa, de um medo que lhe é imenso de tornar-se assassino do homem que ama como pai e desposar a própria mãe. Esse conflito já é o bastante para que sua mente esteja obscurecida por confusos pensamentos. A notícia é uma esperança, uma porta de saída para uma situação. Uma possibilidade de mudança, de alteração dos fatos. O que ele ainda não sabe é que essa súbita reviravolta na história trará consigo ainda maiores angústias. Essa travessia que Édipo procura fazer, utilizando a notícia da morte por causas naturais de Políbio, não será tão tranquila quanto ele espera. Na margem oposta dessa pretensa passagem para dias melhores,  aguardam-lhe novidades que irão aumentar ainda mais a sua confusão mental e obscurecerão ainda mais a sua alma.

                                               MENSAGEIRO
     “Podes revelar-me esse oráculo, ou é vedado a outros conhecê-lo?”
                                                     ÉDIPO
     “Pois vais saber: Apolo disse um dia que eu me casaria com minha própria mãe, e derramaria o sangue de meu pai. Eis aí por que resolvi, muitos anos, viver longe de Corinto...”

                                             MENSAGEIRO
     “E foi por causa desses receios que te exilaste de lá?”
                                                   ÉDIPO
     “Também porque não queria ser o assassino de meu pai, ó velho!”
                                            MENSAGEIRO
     “Oh! Por que não te livrei eu de tais cuidados, eu, que sempre te quis bem?”

                                 …………………………………………..

                                           MENSAGEIRO
     “Sabes, por acaso, que esse receio absolutamente não se justifica?”
                                                ÉDIPO
     “Como não? Pois se eles foram meus progenitores...”
                                          MENSAGEIRO
     “Políbio nenhum parentesco de sangue tinha contigo!”
                                              ÉDIPO
     “Que dizes?!... Políbio não era meu pai?”

     Após um momento em que, acreditando que o Oráculo estivesse errado e que ele nada devesse temer, Édipo é confrontado com mais uma das peças do grande quebra-cabeças que ele precisa montar para saber exatamente quem é. Ao tomar conhecimento que o Rei cretense não era seu pai, ele perde a única fonte de identidade que conhecia até então. Quem é ele? De onde ele vem? A que está predestinado?  Convenhamos que essas são questões básicas que lidamos no curso de nossas vidas, e não são apenas recursos teatrais para nos manter interessados na história. Quem nunca se questionou qual a sua real função neste plano de vida? Se é, ou não, um joguete de um destino que pode ser, em alguns casos bastante cruel. O quanto de livre-arbítrio realmente possuímos e o que essa nossa capacidade de fazer determinadas escolhas pode, ou não, alterar um destino que pode ser (ou não) imutável. O quanto nos conduzimos e o quanto somos conduzidos por forças muito mais poderosas e arcaicas?

     Quando um 6 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que a acompanham, além da questão proposta pelo Consultante, pode significar que se ele irá ou não adiante com a situação que está vivendo naquele momento irá depender inteiramente da sua clareza mental e disposição para enfrentar desafios e encarar a verdade dos fatos. Pensamentos confusos, truncados, são como bagagens inúteis, pesos mortos,  que transportamos a cada porto da nossa vida. De nada nos servem. Quando abrimos nossos olhos e nossa mente, estabelecemos contato com a realidade, colocamos os pés no chão, conseguimos separar os eventos, os fatos, as pequenas peças que constituem o todo e analisa-las individualmente, conhecendo-as bem, não nos esquivando da dor ou do prazer que elas possam nos proporcionar. Assim sendo, tendo uma visão clara do conjunto e dos horizontes e caminhos disponíveis, estamos novamente prontos para assumirmos o leme desse barco que poderá nos conduzir, ainda que por águas turvas e agitadas, mas em segurança para uma margem mais ensolarada.

     O aparecimento do 6 de Espadas é um lembrete para que sejamos fiéis a nós mesmos e corretos em nossa conduta. Para que usemos a nossa flexibilidade mental, ainda que dentro de uma situação bastante difícil ou conflitante, para que possamos encontrar o que nos motiva, o que nos faz seguir adiante. É importante, também, que nos lembremos que a maneira com a qual comunicamos nossos desejos, nossas intenções, nossas dúvidas, angústias, medos, ou emoções é fundamental para que possamos compartilhar e, assim, diminuir nossa carga. O 6 de Espadas simboliza um “dar as costas” para o passado, em busca de um futuro melhor. Mas o passado não é uma mancha que possa ser lavada das mãos. Enquanto o Consulente não o enfrentar corajosamente e procurar aceitá-lo e, se for o caso, resolve-lo, ele acompanhará, como peso extra na bagagem que carregará para qualquer seja o futuro que pretenda que lhe aconteça.

     Édipo está num barco à deriva. Supostamente abandonou seus velhos temores, descartando a mensagem oracular recebida muitos anos antes, mas também não sabe o que lhe aguarda à frente. A notícia de que Políbio não era seu progenitor, destrói sua teoria de que a pitonisa do Templo de Apolo, em Delfos, enganara-se ao prever que ele o mataria. Políbio morrera de causas naturais e não pela sua espada… mas não era seu pai. A possibilidade do Oráculo estar certo ainda perdura.

     O dia de hoje, no antigo calendário romano, era consagrado a Apolo, que representava o Sol e era o inventor da música, das artes e da adivinhação. Seu templo, em Delfos, era local de peregrinação e até hoje estuda-se, geologicamente, as possíveis influências de gases emanados do interior da terra na indução ao transe das pitonisas residentes. A palavra “oráculo” significa “comunicação divina” ou “aquele que fala em lugar de deus”. Talvez fosse interessante, nesta data, meditarmos e procurarmos ouvir a nossa voz interior, a fala da nossa intuição, e nos permitirmos estabelecer uma comunicação com o Divino que nos habita. Usemos, como exemplo, a figura do sábio, e cego, Tirésias, o vidente de “Édipo Rei”, que, na sua cegueira física, conseguia enxergar muito mais do que aqueles que tinham seus olhos voltados apenas para o exterior. Olhar para dentro de nós mesmo é necessário. Os gregos tinham um nome para pessoas como Tirésias: enthousiasmós (entusiasmo), ou seja, aquele que tem Deus dentro de si. Busquemos esse entusiasmo dentro de nossas almas.

     Tenham todos uma excelente e transformadora terça-feira!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov