Mostrando postagens com marcador pensamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pensamento. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de maio de 2010

Carta do Dia: 6 DE ESPADAS

                                      JOCASTA
     “…Mas dize por que vieste, e que notícias nos queres anunciar.”
                                   MENSAGEIRO
     “Coisas favoráveis para tua casa, e teu marido, senhora.”
                                     JOCASTA
     “De que se trata? De onde vens tu?”
                                   MENSAGEIRO
     “De Corinto. A notícia que te trago ser-te-á muito agradável; sem dúvida que o será; mas pode também causar-te alguma contrariedade.
                                    JOCASTA
     “Mas que notícia será essa, que produz, assim, um duplo efeito?”
                                  MENSAGEIRO
     “Os cidadãos do Istmo resolveram aclamar rei a Édipo, segundo
dizem todos.”
                                    JOCASTA
     “Quê? O venerando Políbio já não exerce o poder?”
                                  MENSAGEIRO
     “Não... A morte levou-o à sepultura.”
                                    JOCASTA
      “Que dizes tu? Morreu Políbio?”
                                  MENSAGEIRO
     “Que eu pereça já, se não for a pura verdade!”

                 …………………………………………………….

                                       ÉDIPO
     “Ora eis aí, minha mulher! Para que, pois, dar tanta atenção ao solar de Delfos, e aos gritos das aves no ar? Conforme o oráculo, eu devia matar meu pai; ei-lo já morto, e sepultado, estando eu aqui, sem ter sequer tocado numa espada... A não ser que ele tenha morrido de desgosto, por minha ausência... caso único em que eu seria o causador de sua morte! Morrendo, levou Políbio consigo o prestígio dos oráculos; sim! os oráculos já não têm valor algum!”
                                   JOCASTA
     “E não era isso o que eu dizia, desde muito tempo?”
                                      ÉDIPO
     “Sim; é a verdade; mas o medo me apavorava.”
                                  JOCASTA
     “Doravante não lhes daremos mais atenção.”

Mensageiro, Jocasta e Édipo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

     Swords06 (5) Sófocles, há aproximadamente 2.500 anos, ao criar essa obra-prima da literatura mundial, esse magnífico exemplo de peça teatral, utilizou-se de todos os recursos para dar veracidade ao drama que queria retratar.

     Se olharmos “Édipo Rei” como uma peça sobre parricídio e incesto, estaremos fazendo uma leitura bastante superficial de todos os conflitos da alma humana apreendidos pelo sábio escritor em seu texto. Édipo é um homem com todos as virtudes e pecados, com todos os vícios e angústias, com todos os medos e egolatria que iremos encontrar na humanidade, de forma geral, em qualquer tempo. A maneira com que ele procura esquivar-se da verdade, ainda que, técnicamente a busque, é impressionante.

     A chegada do Mensageiro, vindo de Corinto com a notícia que seu pais (que era adotivo) havia falecido é o bastante para que ele acredite que o Oráculo de Delfos estivesse enganado a seu respeito. Imediatamente, ao ouvir a notícia ele desacredita as mensagens das pitonisas do célebre templo de Apolo, recebidas anos antes, que diziam que ele mataria seu pai e casar-se-ia com a própria mãe. Na época, fugiu, para evitar que a profecia se cumprisse e que ele viesse a assassinar o Rei Políbio, de Corinto, e casar-se com a Rainha Mérope, que acreditava ser sua verdadeira mãe. Nessa fuga, tomando rumo de Tebas, cruza com o Rei Laio, que era seu pai verdadeiro, e, numa discussão tola, mata-o, vindo, depois, desposar sua mãe biológica, a Rainha Jocasta, com quem teve 3 filhos.

     A notícia que o Mensageiro traz é o suficiente para que ele busque, desesperadamente, livrar-se de uma carga de culpa, de um medo que lhe é imenso de tornar-se assassino do homem que ama como pai e desposar a própria mãe. Esse conflito já é o bastante para que sua mente esteja obscurecida por confusos pensamentos. A notícia é uma esperança, uma porta de saída para uma situação. Uma possibilidade de mudança, de alteração dos fatos. O que ele ainda não sabe é que essa súbita reviravolta na história trará consigo ainda maiores angústias. Essa travessia que Édipo procura fazer, utilizando a notícia da morte por causas naturais de Políbio, não será tão tranquila quanto ele espera. Na margem oposta dessa pretensa passagem para dias melhores,  aguardam-lhe novidades que irão aumentar ainda mais a sua confusão mental e obscurecerão ainda mais a sua alma.

                                               MENSAGEIRO
     “Podes revelar-me esse oráculo, ou é vedado a outros conhecê-lo?”
                                                     ÉDIPO
     “Pois vais saber: Apolo disse um dia que eu me casaria com minha própria mãe, e derramaria o sangue de meu pai. Eis aí por que resolvi, muitos anos, viver longe de Corinto...”

                                             MENSAGEIRO
     “E foi por causa desses receios que te exilaste de lá?”
                                                   ÉDIPO
     “Também porque não queria ser o assassino de meu pai, ó velho!”
                                            MENSAGEIRO
     “Oh! Por que não te livrei eu de tais cuidados, eu, que sempre te quis bem?”

                                 …………………………………………..

                                           MENSAGEIRO
     “Sabes, por acaso, que esse receio absolutamente não se justifica?”
                                                ÉDIPO
     “Como não? Pois se eles foram meus progenitores...”
                                          MENSAGEIRO
     “Políbio nenhum parentesco de sangue tinha contigo!”
                                              ÉDIPO
     “Que dizes?!... Políbio não era meu pai?”

     Após um momento em que, acreditando que o Oráculo estivesse errado e que ele nada devesse temer, Édipo é confrontado com mais uma das peças do grande quebra-cabeças que ele precisa montar para saber exatamente quem é. Ao tomar conhecimento que o Rei cretense não era seu pai, ele perde a única fonte de identidade que conhecia até então. Quem é ele? De onde ele vem? A que está predestinado?  Convenhamos que essas são questões básicas que lidamos no curso de nossas vidas, e não são apenas recursos teatrais para nos manter interessados na história. Quem nunca se questionou qual a sua real função neste plano de vida? Se é, ou não, um joguete de um destino que pode ser, em alguns casos bastante cruel. O quanto de livre-arbítrio realmente possuímos e o que essa nossa capacidade de fazer determinadas escolhas pode, ou não, alterar um destino que pode ser (ou não) imutável. O quanto nos conduzimos e o quanto somos conduzidos por forças muito mais poderosas e arcaicas?

     Quando um 6 de Espadas surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua posição na jogada e das demais cartas que a acompanham, além da questão proposta pelo Consultante, pode significar que se ele irá ou não adiante com a situação que está vivendo naquele momento irá depender inteiramente da sua clareza mental e disposição para enfrentar desafios e encarar a verdade dos fatos. Pensamentos confusos, truncados, são como bagagens inúteis, pesos mortos,  que transportamos a cada porto da nossa vida. De nada nos servem. Quando abrimos nossos olhos e nossa mente, estabelecemos contato com a realidade, colocamos os pés no chão, conseguimos separar os eventos, os fatos, as pequenas peças que constituem o todo e analisa-las individualmente, conhecendo-as bem, não nos esquivando da dor ou do prazer que elas possam nos proporcionar. Assim sendo, tendo uma visão clara do conjunto e dos horizontes e caminhos disponíveis, estamos novamente prontos para assumirmos o leme desse barco que poderá nos conduzir, ainda que por águas turvas e agitadas, mas em segurança para uma margem mais ensolarada.

     O aparecimento do 6 de Espadas é um lembrete para que sejamos fiéis a nós mesmos e corretos em nossa conduta. Para que usemos a nossa flexibilidade mental, ainda que dentro de uma situação bastante difícil ou conflitante, para que possamos encontrar o que nos motiva, o que nos faz seguir adiante. É importante, também, que nos lembremos que a maneira com a qual comunicamos nossos desejos, nossas intenções, nossas dúvidas, angústias, medos, ou emoções é fundamental para que possamos compartilhar e, assim, diminuir nossa carga. O 6 de Espadas simboliza um “dar as costas” para o passado, em busca de um futuro melhor. Mas o passado não é uma mancha que possa ser lavada das mãos. Enquanto o Consulente não o enfrentar corajosamente e procurar aceitá-lo e, se for o caso, resolve-lo, ele acompanhará, como peso extra na bagagem que carregará para qualquer seja o futuro que pretenda que lhe aconteça.

     Édipo está num barco à deriva. Supostamente abandonou seus velhos temores, descartando a mensagem oracular recebida muitos anos antes, mas também não sabe o que lhe aguarda à frente. A notícia de que Políbio não era seu progenitor, destrói sua teoria de que a pitonisa do Templo de Apolo, em Delfos, enganara-se ao prever que ele o mataria. Políbio morrera de causas naturais e não pela sua espada… mas não era seu pai. A possibilidade do Oráculo estar certo ainda perdura.

     O dia de hoje, no antigo calendário romano, era consagrado a Apolo, que representava o Sol e era o inventor da música, das artes e da adivinhação. Seu templo, em Delfos, era local de peregrinação e até hoje estuda-se, geologicamente, as possíveis influências de gases emanados do interior da terra na indução ao transe das pitonisas residentes. A palavra “oráculo” significa “comunicação divina” ou “aquele que fala em lugar de deus”. Talvez fosse interessante, nesta data, meditarmos e procurarmos ouvir a nossa voz interior, a fala da nossa intuição, e nos permitirmos estabelecer uma comunicação com o Divino que nos habita. Usemos, como exemplo, a figura do sábio, e cego, Tirésias, o vidente de “Édipo Rei”, que, na sua cegueira física, conseguia enxergar muito mais do que aqueles que tinham seus olhos voltados apenas para o exterior. Olhar para dentro de nós mesmo é necessário. Os gregos tinham um nome para pessoas como Tirésias: enthousiasmós (entusiasmo), ou seja, aquele que tem Deus dentro de si. Busquemos esse entusiasmo dentro de nossas almas.

     Tenham todos uma excelente e transformadora terça-feira!

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

sábado, 15 de maio de 2010

Carta do Dia: 3 DE ESPADAS

                                                         TIRESIAS

     “Digo-te, pois, já que ofendeste minha cegueira, - que tu tens os olhos abertos à luz, mas não enxergas teus males, ignorando quem és, o lugar onde estás, e quem é aquela com quem vives. Sabes tu, por acaso, de quem és filho? Sabes que és o maior inimigo dos teus, não só dos que já se encontram no Hades, como dos que ainda vivem na terra? Um dia virá, em que serás expulso desta cidade pelas maldições maternas e paternas. Vês agora tudo claramente, mas em breve cairá sobre ti a noite eterna.

     Que asilo encontrarás, que não ouça teus gemidos? Que recanto da terra não vibrará com tuas lamentações quando souberes em que funesto consórcio veio terminar tua antiga carreira? Tu não podes prever as misérias sem conta que te farão igual, na desdita, a teus filhos. E agora... podes lançar toda a infâmia sobre mim, e sobre Creonte, porque nenhum mortal, mais do que tu, sucumbirá ao peso de tamanhas desgraças!”


                                                           ÉDIPO
     “Quem poderá suportar palavras tais? Vai-te daqui, miserável!
Retira-te, e não voltes mais!”


                                                             ”Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.

        Swords03 (5) Quando Creonte retorna de Delfos com a mensagem de que os deuses estavam punindo Tebas pelo fato da cidade estar abrigando o homem que matou Laio, seu antigo rei e primeiro marido de Jocasta, Édipo exige que esse assassino seja capturado. Como ninguém parece saber quem ele possa ser, manda chamar Tirésias, cego vidente para lhe dizer quem possa ser esse homem. Tirésias recusa-se e Édipo, o Rei, ameaça-o. Enfurecido com a ousadia e prepotência real, o adivinho lhe responde que o homem que ele tanto busca está ali mesmo. Que é ele, Édipo, o assassino de Laio e o causador das desgraças que se abateram sobre Tebas. Édipo, por sua vez, acusa-o de estar unido a Creonte, seu cunhado, num complô para desestabiliza-lo e roubarem dele o poder. Expulsa o velho cego da sua frente e Tirésias, enfurecido, lhe diz:

                                               TIRÉSIAS
     “Vou-me embora, sim; mas antes quero dizer o que me trouxe
aqui, sem temer tua cólera, porque não me podes fazer mal. Afirmo-te, pois: o homem que procuras há tanto tempo por meio de ameaçadoras proclamações, sobre a morte de Laio, ESTA AQUI! Passa por estrangeiro domiciliado, mas logo se verá que é tebano de nascimento, e ele não se alegrará com essa descoberta. Ele vê, mas tomar-se-á cego; é rico, e acabará mendigando; seus passos o levarão à terra do exílio, onde tateará o solo com seu bordão. Ver-se-á, também, que ele é, ao mesmo tempo, irmão e pai de seus filhos, e filho e esposo da mulher que lhe deu a vida; e que profanou o leito de seu pai, a quem matara. Vai, Édipo! Pensa sobre tudo isso em teu palácio; se me convenceres de que minto, podes, então, declarar que não tenho nenhuma inspiração profética.”

     A essência das cartas do Naipe de Espadas é a dor que advém do fato de se encarar a verdade e, com isso, avançar no crescimento pessoal. Não é de se estranhar, então, que se considerarmos alguns aspectos religiosos que ao definirem nossa passagem por esta existência afirmam que nascemos neste “vale de lágrimas”, o 3 de Espadas é a quintessência do Naipe. Essa carta sugere problemas e dificuldades em quase todos os aspectos da vida.

     Para compreendermos melhor o aspecto positivo do 3 de Espadas é necessário que raciocinemos a respeito do que Espadas realmente significam, qual o seu propósito: O que é dor e para que serve? Como devemos lidar com as nossas angústias, nossas aflições, nosso desespero, nossas frustrações? Qual é a mais apropriada reação ao sofrimento?

     Quando surge a dor é também tempo de afligir-se, de lastimar-se, de lamentar. E o que é mais fascinante é que quando paramos de negar a dor, de recusar-nos a vê-la e vivenciá-la, de resistir a ela, quando permitimos que ela nos tome de assalto o coração, ela nunca vem sozinha. Alguma coisa sempre a acompanha. Algumas vezes é uma sensação de paz e de fé, de amor e de esperança. Uma sensação da Divina presença. A pior parte da experiência de vivenciar a dor é resistir a ela. Enquanto lutamos contra ela, só a tornamos mais forte, mais cruel e poderosa. Quando nos entregamos, quando decidimos aceitá-la como parte de estarmos vivos e do equilíbrio natural entre todos os aspectos que precisamos vivenciar em nossa evolução, algo acaba sendo liberado. provavelmente o pânico, o medo que sentimos em não conseguir continuar. O sofrimento, as feridas causadas pela dor acabam sendo limpas pelas nossas lágrimas, pelo sangue que escorre das nossas mágoas. Nada supura, nada estagna ou apodrece, tudo se limpa. Dói muito, e continua a doer bastante. Dói sem parar. E então… cicatriza.

     Não há como evitar a dor, nem há como ignorá-la ou adiá-la. Ela estará sempre lá, esperando por nós. O tempo não a dissolve. É a nossa forma de encará-la, de lidar com ela, de deixar que ela invada o nosso coração e promova a mudança da qual ela é o agente, só assim ela terá alguma razão de ter existido. É para isso que a dor serve: para nos transformar. Subitamente não somos mais as mesmas pessoas que éramos. Aceitando a dor, não nos tornamos amargos, cínicos, indiferentes ou duros. Nos tornamos sábios. O 3 de Espadas pode, então, ser visto como o cumprimento, a compleição, a realização, a verdadeira essência do Naipe de Espadas porque ele subentende a complacência, a coragem, a boa vontade, a honestidade de permitir-se vivenciar as dores, as perdas, os sacrifícios que naturalmente surgem em nossas vidas.

     Quando o 3 de Espadas aparece numa leitura de tarot, levando-se sempre em consideração a questão proposta pelo Consultante, as demais cartas que o acompanham na jogada e suas posições na disposição escolhida, essa carta pode simbolizar sofrimento emocional, amor não correspondido, interrupção de uma relação afetiva. Mágoas. Ressentimentos. Situações que ainda estão em andamento, que ainda não se completaram (faltam ainda mais 7 cartas para completar o Naipe). O Consulente pode estar passando por um momento de alta emotividade, de dor, de dificuldades, mas ele não está isolado e nem mesmo ele está acomodado à situação. Ele se move. Não é hora dele esconder seus verdadeiros sentimentos, mas também não deve usá-los para magoar os outros. O Consultante deve estar atento para não usar a espada para abrir velhas feridas. É sempre bom lembrar que o coração reina supremo. Quaisquer sejam os problemas que o Consultante possa estar vivendo, ele será capaz de resolvê-los com as armas da mente e com os olhos do amor. O coração e a espada devem relacionar-se bem e isso significa, também, amor pela verdade e pela honestidade. É hora de iluminar as memórias e clarear as expectativas, sem medo de encarar algumas verdades mais dolorosas. Todos os ferimentos se cicatrizam se não os ignorarmos e cuidarmos deles.

     Neste sábado, sob a influência de Saturno, o persistente, o disciplinador patrono do dia, a carta do 3 de Espadas nos recomenda não desistirmos facilmente. Que devemos arriscar sermos mais honestos e autênticos conosco e com as outras pessoas. É um bom momento para abandonarmos o preconceito, a pretensão e as limitações, permitindo-nos sentir o coração elevar-se e voar livremente.

     Tenham todos um ensolarado fim de semana! 

Imagem: BOSCH TAROT, por A. Atanassos

domingo, 9 de maio de 2010

Carta do Dia: REI DE ESPADAS

Título

Senhor dos Ventos e das Brisas

Elemento

Fogo (Chokmah) no Ar(Espadas)

Tetragramaton

Yod

Arcanjo

Ratzikiel

Nome Divino 

Yahveh

Mundo Cabalístico

Atziluth (mundo da Emanação)

Sephirah

Chokmah (Sabedoria)

Virtude

Devoção

Vício

nenhum

Obrigações em cada Sephirah

nenhuma

Divindade na Árvore

Pai, Sabedoria

Atividade Social

Administrador, Conservador

Arquétipo Social

Pai, Esposo

Correspondência Astrológica

Saturno em Touro, Júpiter em Gêmeos, Marte em Gêmeos

Planeta 

Zodíaco

Signo

Libra

Pedra

Turquesa

     Swords14 (5) Nos próximos 14 dias estaremos comentando as cartas do tarot pertencentes ao naipe de Espadas. Esse naipe refere-se ao Elemento Ar e Ar simboliza os pensamentos, constantemente em movimento. Nós não viveríamos se o Ar não estivesse intermitentemente movimentando os nossos pulmões, num processo que chamamos de respiração. Do mesmo modo, não conseguimos refrear o trabalho contínuo do nosso cérebro.

     Espadas é o naipe mais desafiador dos Arcanos Menores. Ele mostra como o “excesso” de pensamento, as grandes cismas, elucubrações ou conjecturas mentais, podem ser problemáticas, assim como, mesmo a lógica pode ser a sua própria ruína. Com o Elemento Ar nós vamos dissipando as névoas que encobrem a verdade, descobrindo que podemos enveredar pelo desconhecido, revelando-o à luz da razão. Mas não devemos nos esquecer que a espada é uma arma perigosa, de dois gumes, e quando usada para propósitos negativos o resultado pode ser a agressão, as brigas, as discussões acaloradas, os conflitos, a dor, as mágoas, o sofrimento e a crueldade.

        O Rei de Espadas é o grande líder. Ele é valente e reina através da força da autoridade. O castigo implícito na ameaçadora espada que carrega é raramente aplicado, pois ele simplesmente não necessita faze-lo, sendo muito diplomático e astuto. Ele é uma figura muito forte para ser ignorada ou subestimada e ele mesmo definiria o seu poder como “o direito divino dos reis”. Ele é muito esforçado, reconhecido como um grande trabalhador e lutará com todas as suas forças para construir o seu “reino”, de onde, naturalmente, espera ser admirado por todos. É o tipo de líder que as pessoas seguem facilmente.

     Esse Rei pode ser definido, em termos junguianos, como o Arquétipo do Guerreiro. As mais distintas características do tipo “guerreiro” são a sua agressividade, clareza de pensamento, estado de alerta, auto disciplina e habilidades adquiridas através do estudo e do treinamento, além da adaptabilidade e a consciência da morte. Também podemos incluir nessa lista a lealdade e a devoção a um ideal ou objetivo transpessoal, o que acaba fazendo com que ele se torne distanciado, inaccessível devido ao seu quase nulo envolvimento emocional. Mas ainda que ele possa parecer frio e severo demais, até mesmo inflexível, ele está apenas sendo justo à sua maneira e fiel às suas crenças e princípios. Ele é do tipo que destrói para abrir caminho para algo novo.

       Quando um Rei de Espadas aparece numa leitura de tarot, dependendo sempre da atribuição que lhe demos previamente (representa o Consultante, ou uma pessoa das suas relações), das demais cartas que o acompanham e da questão proposta pelo Consultante, pode simbolizar alguém intelectualmente bem dotado e muito ativo, sendo bastante bem sucedido. Um líder nato. Alguém muito mais inspirador do que ameaçador. Uma pessoa que se dedica à sua comunidade, às leis, à ordem pré-estabelecida e ao cumprimento da autoridade. Faz escolhas rápidas e também é bastante veloz nos seus julgamentos. Pode até ouvir os conselhos que ou outros lhe dão, mas irá, quase sempre, agir ao seu próprio modo. Ele pode ser brilhante e destruidor com aqueles que ousam debater com ele. Arriscaria a própria vida por aqueles a quem ama, ou sente-se responsável, ou defende, mas pode também ser bastante dominador. É um profissional destacado em sua área, experiente, controlado, analítico,  esforçado e acostumado a fazer as coisas à sua maneira. Pode ser alguém antiquado e que se recusa a mudar, preferindo seguir padrões estabelecidos e testados anteriormente. Ele não é o tipo de pessoa que alguém gostaria de ter como inimigo…

     Se, dependendo de como a leitura de uma determinada tiragem de tarot se desenvolve, notarmos os seus aspectos negativos, poderemos encontrar no Rei de Espadas a figura do sádico ou do masoquista, ambos envolvidos com a crueldade. Pode representar aquela pessoa que é mal intencionada, que causa conflito e é egoísta, pouco se importando com o bem estar dos seus semelhantes. Sabe o tipo que “põe lenha na fogueira” só para ver o estrago que causa? Ele é o cara. Obstinado e arrogante, ele, negativamente, é o protótipo do inquisidor. Ele também pode ser aquela pessoa viciada no trabalho, que não se permite um minuto de descanso, sacrificando-se pelos outros. Quando projetamos esse arquétipo nas outras pessoas, acabamos nos acovardamos e vamos adiando as ações necessárias, nos sentindo vencidos e intimidados antes mesmo de começar.

     Neste domingo, sob a reveladora regência do Sol, procure usar a sua capacidade mental para melhor compreender as suas necessidades e a maneira de satisfaze-las. É a maneira consciente com a qual nós lidamos com nosso inconsciente que nos permite um melhor entendimento de nós mesmos e nos ajuda a ultrapassar as meio-verdades, superstições e descrenças. E, mesmo que sejamos frequentemente abençoados com uma lufada de novas idéias, é necessário que as coloquemos em prática, através de ações concretas, partilhando-as com os outros. De nada adianta vivermos sonhando acordados, divagando numa esfera meramente mental.

     Um Feliz Dias das Mães para todas!

Ilustração: BOSCH TAROT, por A. Atanassov

domingo, 11 de abril de 2010

ARCANOS MENORES: 56 retratos da vida

     Terminada a série das 22 lâminas correspondentes aos Arcanos Maiores, que são os passos evolucionários de um processo de transformação que vivemos ao longo da nossa jornada, começo hoje a fazer uma leitura pessoal sobre as 56 cartas chamadas de Arcanos Menores.

     Os Arcanos Menores correspondem às peças que constituem os nossos mundos, tanto interiores como exteriores. Como tal eles poderiam serem comparados a átomos ou moléculas, algo universal, abstrato e bastante impessoal. Para interpretá-los e aplicarmos as suas qualidades à condição humana, iremos necessitar usar nossa intuição além dos significados tradicionais das cartas, suas associações com astrologia, numerologia, cabala e demais símbolos como um ponto de partida. Eles representam a maneira pela qual os Arcanos Maiores, com suas figuras arquetípicas, atual em nossa vida.

     São divididos em 4 grupos, Fogo, Água, Ar e Terra, retratando as qualidades atribuídas a esses elementos: a Intuição, os Sentimentos, o Intelecto e as Sensações, respectivamente.  Além disso, as 56 cartas são separadas entre as 16 Cartas da Corte, que simbolizam o caráter ou tipos diversos de personalidade de pessoas reais (inclusive o Consulente) que possam estar envolvidas no assunto da leitura de uma jogada de tarot. As restantes 40 cartas, numeradas de 1 (Ás) a 10, representam acontecimentos e experiências, atos e consequências de decisões das quais o Consulente tem alguma forma de participação e podem ser associadas às 10 esferas (Sephirot) da Árvore da Vida .

     Os naipes, representando os 4 Elementos, são os instrumentos que transformam possibilidades em realidade.

4 PAUS: O naipe de Paus (Bastões, Varas, Cetros) expressa o elemento Fogo e os conceitos derivados tais como espírito, energia, assertividade. As características desse elemento, em sua forma ígnea e iluminadora, estão concentrados na 2ª Esfera (Sephira) da Árvore da Vida, chamada Chokmah e considerada masculina: energia dinâmica, origem da força vital e da polaridade. É a paixão, o nosso poder de realização, o nosso interesse, nossa individualidade, aquilo que nos motiva e colabora para que tenhamos ou não sucesso. É nossa autoconfiança, nosso entusiasmo, nossa criatividade, o que nos faz ter vontade de viver. Fogo é expansão. Paus refere-se à nossa necessidade de crescermos, evoluirmos e assumirmos um papel ativo em nossos destinos. Um certo “jeitinho”, um pouco de “jogo de cintura” podem nos ajudar muito no caminho.

1 COPAS: Esse naipe (Taças, Conchas, Corações, Cálice) corresponde ao elemento Água e estabelece uma relação de como compreendemos a água como algo fluido, que se espalha, vazando e penetrando sem oferecer resistência mas também sem conhecer obstáculos, assumindo a forma do recipiente que a contém. Portanto é muito facilmente comparada às forma como vivemos nossas emoções, como sentimos, como amamos. São os nossos relacionamentos, nossos envolvimentos românticos, nossa capacidade de sermos receptivos e nos moldarmos às situações. Binah, a 3ª Sephira (Esfera) na Árvore da Vida, representa essa água primal, onde as forças do inconsciente se agitam. É considerada fonte de uma energia receptiva, portanto feminina, origem das formas e das estruturas. Normalmente o naipe de Copas nos favorece com alegrias e felicidade e nos ensina a deixarmos nossos problemas escorrerem pelo ralo.

3 AR: Este é o elemento representado pelo naipe de Espadas (Lanças, Pássaros, Punhais, Vento, Nuvens) e diz respeito aos nossos pensamentos. Como os dois elementos simbolizados nos naipes anteriores, o Ar está sempre em movimento, assim como estão constantemente se movendo, muitas vezes de maneira inconstante e imprevisível, as nossas idéias, os mecanismos que acionam o nosso raciocínio lógico. Com o Ar nós rompemos a neblina que recobre as verdades, descobrimos que podemos incursionar na escuridão do desconhecido, da ignorância, e dercortiná-la, trazendo-a à luz da razão, da lógica, da clareza mental. São as nossas intenções, ideologias, a nossa percepção, a capacidade de diferenciar, selecionar, catalogar e criticar. Ocupando a esfera (sephira) de Tiphareth, no centro da Árvore da Vida, é o núcleo do processo de criação. Aqui as energias se harmonizam, iluminando as ilimitadas e indefinidas possibilidades de Kether. Como uma espada que perfura e corta, o naipe de Espadas também estampa as lutas, as questões, as discussões, os conflitos e a agressividade. As cartas desse naipe tanto podem representar a construção de elaborados projetos mentais, como colapsos nervosos.

2 OUROS: (Discos, Moedas, Pedras, Pentáculos) Chegamos ao Elemento Terra e à lei de causa e efeito que rege o mundo material. O naipe de Ouros é pura energia em movimento e incorpora a estrutura atômica de toda a matéria. Malkuth, a 10ª sephira (esfera) da Árvore da Vida, é o quartel-general desse elemento e simboliza o mundo físico, o mundo da ação, da realidade exterior. É da terra que retiramos os alimentos que nos nutrem e é nela que nos sentimos assentados, enraizados. Nela concentramos e consolidamos os nossos valores materiais, nossas posses, nossas aquisições. A Terra, representando nosso corpo físico, fornece sustentabilidade para que a alma experimente a realidade. As cartas desse naipe se relacionam com dinheiro, carreira, posses. Podemos nos surpreender admirando tudo o que conseguimos amealhar através de muito trabalho, ou então, horrorizados, vermos tudo escapar-nos por entre os dedos e espatifar-se no chão.

     Se os Arcanos Maiores significavam os “grandes segredos”, esta viagem que iniciamos hoje nos levará a descobrirmos juntos os “pequenos segredos”.

     De uma maneira bastante simplista e generalizada, podemos dizer que quando numa leitura de tarot temos uma maioria de cartas dos Arcanos Menores, a resposta a ser encontrada junto com o Consulente está baseada em assuntos e energias bastante terrenos. Esse tipo de resposta é, frequentemente, muito fácil de ser percebida, intuída, mas apresenta muito mais desafios. Os Arcanos Menores tendem a explicarem as coisas em termos bastante humanos, pois a estória que essas cartas contam é a respeito de estarmos vivos e vivendo neste plano, neste planeta, nesta época. Elas não pretendem atingirem conceitos muito abstratos ou filosóficos mas, ao contrário, vão fundo naquilo que significa ser humano. Nós comemos, bebemos, amamos, trabalhamos, lutamos, rimos e choramos. É com isso que os Arcanos Menores se ocupam. Eles são a base, o apoio, o alicerce das leituras de tarot, fornecendo respostas práticas sobre o que, quando e como fazer, quando se trata de assuntos terrenos, da vida cotidiana. Assim como necessitamos de substantivos, adjetivos e verbos para podermos construir sentenças com algum significado, também precisamos dessas importantes 56 lâminas para usá-las para detalhar e complementar os assuntos e temas abordados pelos Arcanos Maiores.

     Sejam todos bem vindos a mais esta viagem!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Carta do Dia: 8 DE ESPADAS

    db_NS-8 de espadas Às vezes nossa vida parece ser uma extensão local de Guantánamo. Tudo complicado demais, enorme demais, pesado demais. Arrasador demais. Vivemos um desespero semelhante àquele dos pesadelos, quando queremos correr do perigo e parece que nossos pés estão grudados ao chão. Nessas ocasiões estamos vivendo aquilo que no tarot chamamos de um 8 de Espadas.

     Há determinadas ocasiões em que precisamos tomar importantes decisões que irão ter um impacto muito grande em nosso futuro. Pode ser ter-se que decidir por qual carreira seguir, por qual profissão optar. Seja autorizar a cirurgia de um parente nosso que pode não resistir à mesma. Às vezes vem na forma de uma gravidez que surge no momento errado, quando estamos com outros planos de vida, quando estamos construindo uma carreira que pode exigir mudanças, viagens, etc. Pode ser, também, que venha como o assinar ou não uma escritura de venda de um imóvel que pode representar nossa única segurança patrimonial no futuro. Enfim, são situações que podem surgir do nada ou então serem construídas lentamente, por nós mesmos, através do tempo e que, num determinado momento, eclodem exigindo uma solução. E rápida!

     A imagem que primeiro me ocorre sempre que o 8 de Espadas surge numa leitura de tarot é a de uma teia de aranha: fina, delicada, quase invisível, mas muito bem fixada, bem trançada, muito aderente, na qual a vítima se prende por si própria e, quanto mais se debate na busca de uma possível fuga, mais enrodilhada, mais presa fica. Assim somos nós, vítimas das nossas próprias construções mentais, prisioneiros de uma verdadeira tessitura de detalhes, de opções, de experiências bem ou mal aprendidas, de tantas opiniões alheias, de medos implausíveis, de sentimentos mal resolvidos que qualquer chance de libertação parece-nos tão impossível ou desesperadora quanto o próprio mal que nos aflige.

     Quando temos que optar, a idéia de fazermos a escolha errada nos apavora a tal ponto que, muitas vezes, perdemos o foco principal e ficamos derivando entre detalhes de menor importância, engessados em preconceitos, em pensamentos negativos, em auto-piedade, dando ouvidos a qualquer coisa que nos digam a tal ponto que isso pode acabar mal e todas aquelas fantasias mórbidas que tivemos acabam se realizando. Parece que nos recusamos a pensar. Nosso cérebro parece não corresponder à nossa necessidade de sermos lógicos, claros, criativos e encontrarmos em nós mesmos as melhores saídas para os problemas que se apresentam. Sim, em nós mesmos, já que cada um de nós constrói o seu próprio labirinto é de se esperar que então saibamos onde se encontra a saída do mesmo.

     As espadas, que poderiam representar, neste caso, opções de libertação, de ruptura, de corte de situações, de armas de fuga, estão, ao invés, nos cercando, nos isolando, nos impedindo de prosseguir e de nos desvencilharmos das nossas barreiras e amarras. Essas espadas representam pensamentos não conclusivos, idéias esparsas, fantasias pessimistas, medos, angústias e ansiedades que envolvem num manto de obscuridade cada escolha que precisamos fazer. Confusão acaba gerando mais confusão à medida que acabamos tendo idéias estapafúrdias a fim de nos livrarmos dos problema, nublando ainda mais as nossas perspectivas.  Isso acaba fazendo que, muitas vezes, nos fechemos em nós mesmos e nos retiremos. E, essa retirada pode ser fisicamente mesmo, pois quantas histórias conhecemos de pessoas que acabaram fugindo, desaparecendo, mudando-se de cidade, de país e até de identidade, apenas para não ter que enfrentar situações que demandavam decisões transformadoras?

     Nesses momentos, em que nos sentidos com os pés e as mão atadas, vendados e cercados de perigos iminentes, o melhor a fazer é dar um tempo. Parece impossível, não é mesmo? Difícil parar, relaxar, deixar a mente clarear, respirar fundo, dar uma trégua no campo de batalha da sua mente e descansar. É difícil, sim. Complicado. Mas fundamental. Tudo o que precisamos neste momento já encontra dentro de nós. Não adianta esperar, com os ouvidos externos atentos,  escutar o som da corneta e do tropel da cavalaria que, no último momento vem nos salvar. Esse grupo de resgate vem de dentro de nós. Do mesmo local onde os pensamentos confusos, as idéias assustadoras e nebulosas tomaram formas assustadoras. É do nosso interior, agindo através da nossa intuição, do nosso bom senso, da lógica e da razão tão cortante quanto as espadas retratadas na carta, que virá nossa salvação, nossa redenção.

     É nesse momento que percebemos que os ventos da mudança já começaram soprar, desviando as negras nuvens e deixando a luminosidade do sol brilhar novamente. Tudo fica claro, nítido, evidente, permitindo que foquemos a nossa atenção e  analisemos de forma honesta e imparcial as nossas reais opções. É chegada a hora de parar de pensar em termos de limitações para pensarmos em termos de possibilidades. Lembre-se que a aranha tem 8 patas e caminha lépida sobre a mesma teia que aprisiona suas vítimas, porque ela mesma a construiu e, portanto, sabe onde pisar, qual caminho fazer.

     As importantes decisões que você tenha que tomar, no dia de hoje, viva-as de maneira tranquila, aberta a soluções que possam parecer, à primeira vista, descartáveis, mas que podem ser exatamente aquilo que você precisa aprender a respeito de como solucionar seu problema. Distraia-se. Mude o foco. Passeie. Cante. Vá ao cinema. Distraia sua mente para que ela possa descansar da sobrecarga que você está lhe impondo. E depois, mais leve, com mais jogo de cintura, volte a elaborar um plano concreto de ação, lembrando-se que paciência e persistência derrotam qualquer obstáculo, sobrepujam qualquer situação.

     Tenha um excelente dia!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Carta do Dia: ÁS DE ESPADAS

 36-Minor-Swords-Ace-newage     Durante muitos anos me senti frustrado nas minhas tentativas de meditação, sozinho ou acompanhado de um mestre, porque nunca conseguia atingir aquilo que sempre me pareceu o propósito mais básico dessa prática: o silenciar da mente. Um estado que, para mim, era de um absoluto vazio, um não pensar total, uma total ausência de formas, cores, ausência de lembranças, paralisia completa. Quanto mais eu tentava esse vazio absoluto, mais minha mente me atormentava com verdadeiros tsunamis de pensamentos desconexos. Frustração total.

     Como alguém controla a sua mente? Como alguém controla o inexorável fluxo de pensamentos? Como você decide o ritmo ou as condições do que pensar, se a simples opção por uma forma de pensamento já significa a construção mental daquela que lhe opõe?

     O Ar é elemento que associado ao raciocínio, às elaborações que a nossa mente cria, surgindo do nada, impalpável, às vezes brisa suave, nos transportando a lembranças alegres, a projeções de sonhos a serem um dia realizados. Noutras, verdadeiros tornados, nos trazendo fortes e arrasadoras emoções e reações, momentos obsessivos, raiva incontida. Tudo isso criado nesses poucos centímetros cúbicos que abrigam nossa mente de dimensões universais.

     O Ás de Espadas, como todos os ases, significa começo. É sempre o símbolo de uma idéia que parece surgir do nada, do Grande Vazio, e que, dada a devida atenção e circunstâncias favoráveis, poderá se desenvolver num plano completo e perfeitamente realizável. O pensamento é um poder, uma primeira elaboração de um desejo concretizável. Digamos ser ele uma maquete invisível de algo que queremos, desejamos, temos vontade ou, mesmo, tememos, venha a se realizar. Não é um fim e sim mesmo, mas o germinal de algo extremamente poderoso.

     Vivemos a energia dessa carta quando temos uma boa idéia, quando idealizamos algo ou inventamos uma nova forma de lidar com alguma situação. A dona de casa que cria uma nova receita, o aluno que escreve de maneira sensível e coerente uma redação escolar, o artista que depois de horas de considerações refinando uma idéia, opta por uma combinação de cores, um tipo de técnica e executa um trabalho artístico de valor. Quando, depois de longos meses consultando diversos prospectos de viagens optamos por uma que venha a suprir ao máximo os nossos interesses, ou mesmo quando agimos com justiça, honestidade e clareza ao resolvermos uma pendência legal, na elaboração de um contrato, numa partilha de bens.

     O símbolo da Carta do Dia é, hoje, a espada, com seus dois gumes, a nos lembrar que os nossos pensamentos, a nossa razão, nossa lógica, nossa inteligência pode ser usada tanto para o bem (paz) ou para o mal (sofrimento). Faltando uma dose de intuição à lógica ela pode acabar distanciando-se da realidade, e com isso nos levando pelos caminhos da pura fantasia obsessiva, das confusões mentais, da ansiedade, raiva, negatividade. Se lhe faltar compaixão, estaremos lidando com uma força altamente destrutiva, arrogante, juiz e carrasco numa só pessoa. As cartas do naipe de Espadas nos remetem, quase sempre, à idéia de conflitos, até mesmo porque nossa mente é um grande campo de batalha, um grande laboratório onde idéias são testadas, onde dúvidas, anseios, esperanças e desilusões são vividos em pé de igualdade. Onde novas idéias chocam-se com outras mais antigas e, até que essa energia transformadora se manifeste, maiores ou menores lutas são travadas.

     Num sentido simplesmente de predições, o aparecimento do Ás de Espadas, dependendo de sua localização e das cartas que o acompanham, pode também significar, ferimentos, cirurgias, internações hospitalares, estados depressivos, esgotamento nervoso, autoridade, busca da verdade, facilidade de comunicação. Aliás, vemos na comunicação o uso mais concreto da energia de Espadas, especialmente quando sabemos que as palavras ferem muitas vezes mais intensamente que as ações. Fofocas, malidicências, mentiras, sugestões inapropriadas podem ser, literalmente, fatais, acabando com relacionamentos, carreiras e, até mesmo, a própria vida. Por outro lado, lembremos sempre da frase que inicia o Gênesis: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus”. Deus, o Criador, como palavra (Logos = a palavra de Deus). A palavra, expressão de uma atividade inteligente, tem o poder de criar, de dar forma e sentido. De trazer luz ao caos.

     Voltando ao início deste texto, devo dizer que hoje, com muitos anos de prática continuada, eu entendo que meditar não é fechar uma torneira ou estancar um rio de pensamentos e idéias, mas deixá-los fluir livremente, sem apego, sem análise, sem utilizar aquele tempo para desenvolver novas idéias ou debater antigas. Deixar as imagens passarem, como num filme que você assiste na TV, mas sem estar prestando a mínima atenção.  É manter a mente em estado de alerta, mas silenciosa, procurando nessa não-discussão, nessa aceitação, nesse desapego, procurar compreender o que eu realmente quero da vida, educando-a a ser mais receptiva, mais contemplativa, sem cair no fácil engôdo das ilusões ou alucinações.

     Hoje promete ser um dia para deixarmos de lado o medo do novo, experimentando novos caminhos, outras maneiras de realizarmos determinadas funções, procurando sermos claros em nossos pensamentos, analisando ambos os lados de uma mesma situação e, melhor ainda, dividindo-a em partes para examinarmos cada aspecto com bastante lógica. Mas, tudo isso, sem perder contato com a nossa emoção, com a nossa intuição, com os nossos sentimentos. E, se uma frase bastante conhecida pode ser relida sob uma nova luz, aqui vai:

“Hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas”.   Ernesto “Che” Guevara

     Tenham um excelente dia e início de final de semana.

Ilustração: NEW AGE TAROT