MENSAGEIRO
“Eis aqui, meu amigo, aquele que era então um menino pequenino!”
O SERVO
“Desgraçado! Por que não te calas?”
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ÉDIPO
“A criança de quem se trata, tu lhe entregaste?”
O SERVO
“Sim! Melhor fora que nesse dia eu morresse!”
ÉDIPO
“Pois é o que te acontecerá hoje, se não confessares a verdade!”
O SERVO
“Mas... com mais certeza ainda, se eu disser a verdade, estou perdido!”
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O SERVO
“Pois bem! Aquele menino nasceu no palácio de Laio!”
ÉDIPO
“Era um escravo? Era um descendente dele, ou de sua família?”
O SERVO
“Ai de mim! Isso é que me será horrível dizer!”
ÉDIPO
”E para mim será horrível ouvir! Fala, pois! Assim é preciso!”
O SERVO
” Diziam que era filho dele próprio. Mas aquela que está no interior de tua casa, tua esposa, é quem melhor poderá dizer a verdade.”
ÉDIPO
“Foi ela que te entregou a criança?”
O SERVO
“Sim, rei.”
ÉDIPO
“E para quê?”
O SERVO
“Para que eu a deixasse morrer.”
ÉDIPO
“Uma mãe tez isso! Que desgraçada!”
O SERVO
“Assim fez, temendo a realização de oráculos terríveis...”
ÉDIPO
“Que oráculos?”
O SERVO
“Aquele menino deveria matar seu pai, assim diziam...”
ÉDIPO
“E por que motivo resolveste entregá-lo a este velho?”
O SERVO
“De pena dele, senhor! Pensei que este homem o levasse para sua terra, para um país distante... Mas ele o salvou da morte para
maior desgraça! Porque, se és tu quem ele diz, sabe que tu és o
mais infeliz dos homens!”
ÉDIPO
“Oh! Ai de mim! Tudo está claro! Ó luz, que eu te veja pela
derradeira vez! Todos sabem: tudo me era interdito: ser filho de
quem sou, casar-me com quem me caseie e eu matei aquele a
quem eu não poderia matar!”
(Desatinado, ÉDIPO corre para o interior do palácio.)
Édipo e o Servo, em “Oedipus Rex” _ Sófocles, Séc. V a.C.
O 8 de Espadas é uma carta que se refere a um aprisionamento de algum tipo, a um bloqueio de energias, inclusive as psíquicas. Um famoso humorista, referindo-se a essa carta, disse uma vez, parodiando a famosa frase de René Descartes (1596-1650): “Penso, logo eu… fico confuso!”.
Na Árvore da Vida cabalística, todos os 8 correspondem a Hod, a Sephirah que simboliza a inteligência ativa, o intelecto. Hod está relacionado ao pensamento objetivo, analítico e de extrema rapidez, visto que o planeta Mercúrio também é associado à essa esfera situada quase na base do esquema da Árvore da Vida. Visto que o naipe de Espadas, em sua essência, simboliza as atividades mentais, podemos deduzir então que o 8 de Espadas, por situar-se na Sephirah Hod (Glória, Esplendor), soma os seus potenciais, exaltando-os, tornando a linha de pensamento muitas vezes confusa, dúbia, sem saber qual caminho seguir, qual decisão tomar.
A maior virtude de Hod é a Veracidade e nós muito bem sabemos o quanto essa virtude é difícil de ser atingida, e o quão dolorosa ela pode ser! Não é apenas sermos verdadeiros com os outros, mas também com nós mesmos, e essa é a mais difícil, a mais agoniante verdade a ser aceita. A busca pelo conhecimento pode nos colocar em perigo, especialmente no aspecto psicológico, e é por isso mesmo que os cabalistas creditavam o Arcanjo Miguel, o chefe das milícias celestes, a Hod, junto com o Arcanjo Rafael, o curador, que deveria ser invocado em caso de grandes “ferimentos” psíquicos.
A força e o poder dessa obra-prima de Sófocles, “Oedipus Rex”, com suas emoções, sua beleza, sua coragem, sua tensão, continua, 25 séculos depois de ter sido escrita, a impressionar e emocionar platéias, a provocar debates, a ser usada como assunto para teses, a simbolizar um dos maiores “complexos” que a psicanálise identificou. Isso tudo deve-se a um homem, uma mente mortal que foi capaz de juntar palavras de tal forma que, ainda hoje, elas repercutem no mais fundo da alma humana. Isso é o que em cabala se chama de A Visão do Esplendor, que não por acaso, é o nome que se dá à experiência espiritual que obtemos nessa Sephirath.
O trecho grifado acima, extraído de passagens da peça “Oedipus Rex”, nos mostram o momento em que, finalmente, Édipo encontra a verdade que tanto procurava. Sim, ele era filho de Laio e Jocasta. Sim, ele era tebano e não coríntio, como pensava. Sim, o oráculo se cumprira e ele matara seu pai e casara-se com sua mãe. Sim, sua própria mãe o entregara ao seu Servo de confiança para que o matasse, mal acabara de nascer. Sim, seu nome, Édipo (oedipus = pés inchados), e o defeito que tinha em seus pés, devia-se ao fato de ter sido amarrado pelos pés a uma árvore e abandonado à mercê da própria sorte, para ser devorado pelos animais. Sim, ganhara o título de rei e a mão de Jocasta derrotando o enigma da Esfinge (“Qual é o animal que pela manhã tem 4 pernas, à tarde, 2 e à noite tem 3?”) mas não fora capaz de decifrar seu próprio enigma. Talvez a Esfinge fosse uma cilada dos deuses para que a profecia finalmente se cumprisse integralmente. O quebra-cabeças está formado e Édipo sente-se só, perdido, vítima de um destino cruel. Sabe (ou pelo menos presume) que será abandonado por todos, que todos se horrorizarão de estarem à sua presença. Ele, o parricida e o filho incestuoso.
Quando um 8 de Espadas surge numa leitura de tarot, sempre dependendo da sua posição na jogada e das demais cartas que o acompanham, bem como do assunto de interesse do Consultante, pode significar bloqueios, obstáculos, aprisionamento, restrições, isolamento. Censura e auto-censura. Temer a liberdade pessoal. Pode simbolizar o fato do Consultante ter erguido um muro que o separa dos seus sonhos. Um momento de crise. Obsessão. Desespero. Não conseguir livrar-se do confuso emaranhado de fatos em que a situação parece ter-se tornado. O Consultante pode estar permitindo que outras pessoas interfiram, seja por inveja ou por trivialidades, no seu equilíbrio psíquico. Doença. Estar impossibilitado de deixar o leito ou locomover-se. Imobilidade. Preguiça. Insatisfação, muitas vezes injustificada, com conquistas obtidas no passado. Sentir-se abandonado pelos outros.
É muito comum, pessoas que são alcoólatras, ou que tenham algum tipo de vício ou dependência, inclusive sexual, se considerarem banidas, párias sociais, indignas do convívio com o grupo. É exatamente esse o alerta que o 8 de Espadas faz: não se isole, nas se restrinja, não crie limitações, amarras, obstáculos, impedimentos ou desculpas. Peça ajuda. Estenda a mão e peça o auxílio de seu semelhante. Inúmeras são as associações, os grupos de terapia, os profissionais qualificados que podem remover essas falsas amarras que nos impomos. O grande problema enunciado por essa carta é a idéia de “pré-conceber” algo, ou seja, presumir que não conseguirá livrar-se, presumir que ninguém lhe dá atenção, presumir que todos lhe virarão as costas, presumir que está perdido sem um guia que possa ajudar. Companhia e contato humano são essenciais pois necessitamos de outras pessoas que possam nos apontar uma nova perspectiva para aquilo que chamamos de “meu problema”.
Quando, numa jogada, o 8 de Espadas sai bem localizado, ou bem dignificado, como se usa dizer, podemos perceber que o Consultante está apto para viver a sua própria liberdade. Que o caminho à sua frente está menos acidentado. Que a sua forma de pensar está mais clara. Que há um súbito desaparecimento dos problemas que pareciam persistirem. Pode, sob determinadas circunstâncias, significar que o Consultante apercebeu-se que estava se dedicando em demasia a algo ou a alguém que não valia o esforço, e está com um novo projeto de vida. Alegria, felicidade. Retorno ao convívio social. Comportamento mais liberal. As coisas se movem, caminham, ainda que muito trabalho e empenho pessoal sejam necessários. Significa, também, a solução de um problema pois o Consultante encontrou “a chave” do mistério. As recompensas ainda estão bastante distantes e ainda resta muito a caminhar, mas há uma sensação de que alguns obstáculos já foram ultrapassados e as pessoas, que poderiam estar impedindo o caminhar, afastam-se, abrindo passagem. O Consultante começa a olhar a vida sem ter “areia” para lhe embaçar a visão. Depois de muito quebrar a cabeça, de muito raciocinar, de muito pensar em busca de soluções, a mente parece clarear-se, iluminar-se. A verdade triunfa.
Édipo, finalmente, tem à sua frente um quadro da sua tragédia pessoal. Todos os elementos que ele necessitava para conhecer a sua verdade foram expostos. Cabe a ele decidir como utilizar essa verdade que tanto buscou. Como esse conhecimento irá, ou não, libertá-lo da cegueira, da escuridão mental em que viveu toda a sua vida adulta, dependerá exclusivamente dele e do quanto os que lhe são próximos estarão dispostos a ajudá-lo nessa crise. Ele, o herói que libertara toda uma nação das garras impiedosas da Esfinge, usando o seu brilhante raciocínio, uma vez mais desvendou um mistério: o seu próprio.
Hoje a Lua Crescente está em Virgem, o que pode significar ser um ótimo período para nos organizarmos, inclusive mentalmente, abandonando medos, tensões e permitindo um novo fluxo de idéias. É um convite para que sejamos mais realistas, que não desviemos os nossos olhos e os nossos pensamentos da verdade que se nos apresenta, mas que procuremos, inclusive com a ajuda alheia, a superar nossa possível falta de confiança pessoal, nossos receios, e nos abramos, confiantes, para tempos melhores.
Tenham todos uma ótima quinta-feira, livre das falsas ilusões!