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sábado, 5 de junho de 2010

Carta do Dia: 10 DE OUROS

Minor-Discs-10Vaudeville      Levantou-se de um salto. Enquanto ia para o chuveiro, repassou, mentalmente, a agenda do dia. Como sempre, haveria gravação pela manhã, depois uma reunião com um empresário que desejava organizar uma turnê dela pelas mais importantes cidades japonesas, ministrando aulas de culinária típica brasileira. O editor estava esperando o envio do seu 2º livro para revisão e não parava de ligar, pois queria aproveitar para lança-lo na comemoração de 3 anos de seu programa de TV. Havia combinado com a tia e as primas que mandaria o motorista para apanha-las no comecinho da noite, para um jantar especialíssimo que iria fazer, só para a família. A irmã estava dormindo no quarto de hóspedes, recém chegada do interior e ainda entorpecida com as dimensões e a velocidade de tudo que havia visto no trajeto do aeroporto até o seu novo apartamento.

     Tornou a enumerar, enquanto se aprontava, quantas pessoas jantariam. De fora, só a jornalista, ex-patroa e mentora de tudo o que ela havia conseguido na vida. Estava excitadíssima, muito mais do que jamais estivera.  O compromisso marcado na cidade, para o meio da tarde era o mais importante de toda a sua vida.  Nada se igualava à expectativa e à ansiedade que sentia naquele momento. Antes de sair, passou pelo quarto anexo ao seu e olhou o trabalho feito pelo decorador. Estava realmente uma beleza. Parecia um sonho, coisa de revista de decoração, de conto de fadas…

     Nos últimos meses viveu intensamente todo o processo de concretização de seu maior sonho. Foram inúmeras entrevistas com psicólogos, assistentes sociais, juiz, advogado. Dezenas de documentos foram preenchidos e arquivados. Exames médicos solicitados foram feitos. Referências pessoais coletadas e fornecidas. Audiências. Encontros. Reuniões. Mas finalmente o grande dia chegara e nessa tarde, ela iria, finalmente, finalizar o processo de adoção da mais encantadora criança que a escolheu no orfanato. Sim, pois foi aquela menininha, pequenina, franzina, quase raquítica, com olhos enormes a tudo e a todos observando, que apontou-a e sorriu assim que ela entrou no berçário. Foi amor à primeira vista. Ela sabia que a filha que tanto desejava ali estava, esperando por ela. Única sobrevivente entre todos de uma mesma família que pereceu no deslizamento e queda de sua precária moradia na encosta de um morro, na estação da chuva, a criança não tinha ninguém, nem nome, nada. Mas agora, tinha a ela e ambas tinham uma à outra.

     Quando chegou ao estúdio para a gravação, esperavam por ela buquês e mais buquês de flores de todas as cores e espécies. Presentinhos para a “recém chegada” foram entregues às dúzias e uma das secretárias chegou a imprimir e encadernar os milhares de e-mails recebidos das telespectadoras. Ela fez o programa absolutamente emocionada. Agradeceu publicamente a todos e continuou seguindo para os outros compromissos que a aguardavam. À tarde, numa brevíssima cerimônia na Vara da Família, com a presença emocionadíssima de sua irmã mais velha e das testemunhas de praxe, o Juiz conferiu-lhe o Termo de Adoção da pequena Anna Luísa, nome de sua falecida mãe, que também falecera quando ela era criança.

     Já era tarde da noite quando a tia, as primas e a amiga jornalista, e agora comadre pois ira ser a madrinha da sua filha, se retiraram. A irmã, acostumada com a vida no sítio, havia ido deitar mais cedo. Ela apagou as luzes da sala e dos corredores e entrou, na penumbra do quarto, para uma vez mais olhar sua filha. Debruçou-se sobre o bercinho e ajeitou melhor os lindos lençóis bordados com rendas e fitas. Mais uma vez a emoção tomava conta dela e deixou que as lágrimas corressem livremente pelo seu rosto. Era feliz. Era feliz por ter realizado todos os seus sonhos. Era feliz por sempre ter feito o que sabia e amava fazer. Era feliz por saber-se uma excelente profissional. E agora, mais do que nunca, essa felicidade se completava ao ver, dormindo, aquela criancinha a quem ela iria amar com toda a intensidade, retribuindo o amor que havia recebido de todos, sem distinção, em todos os momentos da sua vida. Iria estender, àquela criaturinha, todas as oportunidades que tivera na vida para crescer, conhecer-se como ser humano, sentir-se útil, saber que havia colaborado para que os seus semelhantes vivessem melhor. Claro que Anna Luísa teria a sua própria vida, suas prioridades, suas necessidades, sua personalidade, mas ela estaria sempre ao seu lado para ensina-la, caso precisasse, a ouvir a voz do seu coração e seguir os seus sonhos.

     Deitou-se, apagou o abajur e agradeceu por aquele dia e por todos os outros da sua vida. Adormeceu agradecendo pela filha que o Universo a ajudara a encontrar. Começou a sonhar com a mãe, que lhe sorria e lhe entregava Anna Luísa, que carregava nos braços. Ela abraçava a mãe e a menina, num abraço longo, suave, carinhoso… e… acordara imediatamente ao ouvir o choro da sua filhinha reclamando atenção. Sentiu-se mãe, feliz em poder estar ali, presente às necessidades da sua cria. Levantou-se e num segundo estava ao lado do bercinho.

     A vida não poderia ser melhor!

     Quando um 10 de Ouros surge numa leitura de tarot, dependendo sempre da sua localização entre as demais cartas do tabuleiro e da questão proposta pelo Consultante, pode significar que a riqueza de possuir família, amigos e os entes queridos próximos a si, fazem o Consultante sentir-se feliz e pleno. Uma celebração de volta ao lar. Sentir-se rei no castelo que construiu com suas próprias mãos. Uma possível herança pode estar a caminho. Amar e proteger a família. Ter construído em bases sólidas. Conscientizar-se de que a sua vida é cheia de riquezas e tesouros vários. Aceitar e retribuir a bondade e o amor. No fato do Consultante mostrar-se para os outros como ele realmente é, ele acrescenta riquezas e sucesso à sua pessoa. Uma boa vida, com saúde e segurança. Solidez nos negócios. A materialização das esperanças e desejos do Consultante.

     Numa posição menos favorecida, de obstáculo, o 10 de Ouros pode significar que o potencial merecido de coisas boas ainda não se revelou para o Consultante. Um outro significado dessa carta é que a fortuna, o conforto, o bem estar, a saúde, a riqueza material e a segurança estão lá, à disposição, mas o Consultante não se apercebe desse fato ou não lhes aprecia ou reconhece o valor. Muita atenção ou expectativa foram direcionadas aos aspectos exteriores das coisas, dos fatos ou das situações, sem uma dimensão interior, uma consciência da Fonte que nos abastece, aquilo que dá sentido e significado à palavra “Abundância”.

     Neste sábado, dia da semana sob a regência do sábio, disciplinador e consolidador Saturno, com a Lua Minguante em Peixes e o representante astrológico da nossa Carta do Dia, Mercúrio transitando em Virgem, devemos evitar sermos muito críticos ou excessivamente exigentes e cooperar mais, ajudar mais, nos envolvermos mais, enfim, com as nossas relações, desde que isso não interfira de forma alguma nas escolhas individuais de ninguém. Use seus dons pessoais para contribuir com que toda pessoa que cruzar seu caminho possa seguir o dela, de forma individual, com alegria e realização. Assim procedendo, uma verdadeira benção, em forma de boas intenções compartilhadas, irá se estabelecer e desenvolver-se entre todos nós.

     Tenham todos um excelente e renovador final de semana!

Em Julho:
 CURSO DE TAROT: ARCANOS MENORES
Duração: 16 aulas (4 meses) / Turmas às Terças e Sábados
Local: JARDIM DOS SENTIDOS – ESPAÇO HOLÍSTICO & LIVRARIA
 (R. Barão de Ipanema, 94  Loja 103, em Copacabana – Rio de Janeiro)
Pré-Requisito: conhecimento básico dos 22 Arcanos Maiores
Informações: (21) 2547-8939  e contato@jardimdossentidos.com.br
Imagem: VAUDEVILLE TAROT, por F.J. Campos

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Carta do Dia: PAJEM DE OUROS

Título

Trono do Ás de Pentagramas

Elemento

Terra (Malkuth) da Terra(Ouros)

Tetragramaton

He (final)

Arcanjo

Sandalphon

Nome Divino 

Adonai Ha Aretz

Mundo Cabalístico

Assiah (mundo da Matéria)

Sephirah

Malkuth (Reino)

Virtude

Discriminação

Vício

Inércia

Obrigações em cada Sephirah

Integridade

Divindade na Árvore

Terra, Grão

Atividade Social

Catalisador das Mudanças

Arquétipo Social

Mensageiro, Enviado

Planeta 

Terra

Signo

Touro, Virgem, Capricórnio

Pedra

Cristal de Rocha

    Minor-Discs-PageVaudeville  O Pajem de Ouros é uma carta que nos desafia a redescobrirmos e reavaliarmos as nossas habilidades práticas, os nossos talentos e a nossa postura em relação ao mundo em que habitamos. Aquilo que muitas vezes parece comum, simples demais, frequentemente acaba-se revelando como o essencial, o indispensável, o que é singular, o que realmente importa. Não raro, temos que peneirar entre tudo o que nos parece familiar até descobrirmos algo que se destaque, que seja especial. E isso acontece conosco, com a nossa atitude a respeito dos nossos próprios talentos, capacidades, reais interesses, aptidões. Muitos de nós somos críticos demais, julgando-nos inaptos, sem nada que nos destaque ou que possa despertar o interesse alheio. Muitos de nós não conseguem sequer perceber qualquer dom. Isso acontece quando não nos levamos suficientemente a sério ou porque não sabemos exatamente o que é um dom, um jeito especial, uma capacidade, uma habilidade. Tendemos a acreditar que raríssimas pessoas os possuem, apenas aquelas que são “abençoadas” pelas musas, “bafejadas” pelos deuses. Nos fixamos nos exemplos de artistas, atores, profissionais de destaque, de desportistas famosos e acabamos nos sentindo como verdadeiras nulidades frente à contribuição que eles demonstram dar à humanidade, à história.

     O que nos esquecemos é que todos, inclusive nós e esses famosos personagens, todos sem exceção, temos algum tipo de aptidão que nos destaca, que é única, que é fruto das nossas experiências pessoais. Tudo o que temos a fazer é simplesmente aprender a compreender o valor e a singularidade das nossas habilidades e vivências. Olhar-nos com um olhar infantil, de quem descobre pela primeira vez que consegue pegar o brinquedo que está sobre a mesa, ou que pode, engatinhando, aproximar-se da sua mãe, ou que consegue, usando ambas as mãos, levar um copo de líquido à boca. O Pajem de Ouros é uma criança (não necessariamente no sentido etário) e, portanto, ele precisa ser estimulado a descobrir o mundo, conhecer o ambiente onde atua, reconhecer signos, códigos, sons, cores, sinais, marcas, sem idéias pré-concebidas, mas deixando-se encantar e seduzir a cada novidade.

     O motivo pelo qual frequentemente as pessoas bloqueiam esse estado de espírito que os induzem a serem novamente crianças, é o medo de se reencontrarem com os fantasmas do passado, que estão mal sepultados, e que irão, novamente, exigir uma confrontação. O que não devemos é nos atemorizar por isso, e sim manter a nossa procura, e a nossa avaliação das próprias experiências e dos seus resultados. Na maioria das vezes, encontramos as respostas certas para as nossas questões apenas examinando o nosso sistema de valores. O que foi que, com o tempo, perdeu a sua importância? O que é que agora ocupa um lugar de destaque nos nossos desejos, ambições, metas, planejamentos? O que foi que aprendemos e que podemos utilizar em nosso benefício e para a satisfação das pessoas que nos são queridas? O que é que sabemos fazer que nos dá imenso prazer e cujo resultado beneficia aos outros e a nós, da mesma maneira? Tudo pode ser valioso e especial em nós mesmos e em  nossa vida, desde que nós consigamos identificar o que realmente nos distingue dos demais.

     Quando, numa leitura de tarot, o Pajem de Ouros surge entre as demais cartas, sempre dependendo da sua localização na jogada, da sua relação simbólica com as outras, e da questão do Consultante, ele pode significar gravidez ou nascimento; novos projetos e novas oportunidades de ganhos materiais. Significa também a chegada ou anúncio de novidades, especialmente a respeito de assuntos financeiros ou de negócios. Uma nova oferta de trabalho ou uma nova posição dentro do trabalho atual são assuntos a serem considerados quando nos deparamos com essa carta. Ela, também, significa um treinamento, uma adaptação a um novo emprego, um novo aprender de regras ou ofício. Seguir novas instruções. Tudo isso porque o Pajem de Ouros é o arquétipo do aprendiz, da criança, da criança interior, do aluno, do estudante, do empregado, do mensageiro, do enviado, do correspondente.

     Negativamente, qual mal posicionada, a carta do Pajem de Ouros pode evidenciar dificuldades na aprendizagem, falta de interesse, insegurança, abandonar uma situação, indolência, cansaço, sobrecarga, exaustão. Acontece em situações em que as pessoas sentem-se e agem de forma rebelde, pródiga, esbanjadora, sem perspectivas,  presos a detalhes tolos ou inúteis, ou agindo de forma altamente crítica consigo próprio. Um dos aspectos mais negativos dessa carta pode ser encontrado nas pessoas que prejudicam a Natureza, desrespeitando-a, abusando de seus recursos, devastando florestas, secando e sujando rios, dizimando espécies animais e, até mesmo, deixando cair “disfarçadamente” aquele inocente papel de bala, seja nas cidades ou nos campos. Lembram-se da figura criada pelo governo na intenção de educar a população nos cuidados da higiene pessoal e na preservação do meio-ambiente, o “Sujismundo” ? Pois é: ele é o protótipo da pessoa que também pode ser identificada com as péssimas más qualidades do Pajem de Ouros, quando sai numa posição de obstáculo numa jogada.

     Nesta quarta-feira, dia regido pelo célere mensageiro dos deuses, Mercúrio, e com a Lua vivendo os seus últimos momentos do Quarto-Crescente, ainda na casa de Escorpião, seria ideal que encontrássemos um tempo para darmos um passeio pela nossa cidade, ou pelo campo, e encarar isso como uma agradável aventura, cheia de pequenas e grandes descobertas maravilhosas. Da mesma forma que nos permitimos olhar para as ruas, jardins, animais, edifícios, campos, nuvens, mar, monumentos, repitamos o processo com a forma que conduzimos as nossas relações, com os nossos deveres, tarefas e obrigações. Tudo isso com o mesmo espírito de redescoberta. Tudo isso com o mesmo olhar atento e encantado de uma criança olhando e percebendo o mundo.

     Que todos possam, hoje e sempre, cuidar do seu mundo, do seu “jardim pessoal” com todo o carinho e desvelo que ele merece, que nós merecemos. Nós e as futuras gerações agradecemos.

Imagem: VAUDEVILLE TAROT, por F. J. Campos

domingo, 28 de março de 2010

Carta do Dia: O EREMITA

     Eremita Neste domingo, enquanto fazia minha caminhada tendo o prazer de ver o sol nascer e o céu, qual caleidoscópio trocando de cores rapidamente, aproveitei, como sempre  faço, para meditar sobre o meu momento atual. Gosto de fazer esse tipo de meditação dinâmica, pois creio que a razão conduzindo meus movimentos, minha coordenação motora cuidando para que eu não tropece, não perca o ritmo da caminhada, respire fundo e coordenadamente, acaba liberando o outro hemisfério do meu cérebro para que eu possa mais facilmente permitir que as imagens venham e possam ser contempladas, sem grandes julgamentos, sem me ater muito a elas. Entre muitos e rápidos pensamentos que perpassaram me cérebro durante aquela hora do amanhecer, um deles trouxe consigo algumas respostas para questões que, ainda que eu não as tivesse formalmente formulado, precisava ouvi-las, ou melhor, senti-las neste momento da minha vida. 

     Sempre gostei de “tirar um tempo” para mim. Costumava, desde adolescente, fazer o que na época chamávamos de retiro espiritual. Não pensávamos naquilo como um mergulho em nós mesmos, mas simplesmente um tempo em que passávamos tentando nos silenciar, aparentando uma seriedade e expressões taciturnas que não combinavam com o dinamismo que a nossa idade impunha. Entretanto voltávamos desses retiros mais calmos, menos briguentos, mais atenciosos, e provavelmente um pouco mais espiritualizados.

     Com aquelas imagens brotando da memória, além da saudade daquele tempo e das amizades feitas então, fiquei pensando como isso tornou-se um hábito em minha vida. Algo que faço de maneira quase que automática, sem grandes rituais, tão costumeiro e simples quanto escovar os dentes, fazer a barba, tomar banho, cortar as unhas. Eu diria que, no meu caso, é higiênico, salutar, benéfico e imprescindível. É absolutamente prazeroso, para mim, permitir-me momentos maiores ou menores de isolamento para poder refletir nas minhas questões pessoais. Não necessariamente preciso isolar-me num local deserto, nem parar de trabalhar ou de estar com os amigos. Necessito apenas de algum tempo exclusivo para mim. Isolar-me do ritmo que eu mesmo me imponho, do nível de exposição que eu mesmo me permito, da necessidade de estar sempre produzindo para justificar não sei o que. E talvez seja esse “não sei o que” que eu vá buscar, dentro de mim, ao ficar sozinho comigo mesmo.

     Ouvi uma vez, de um cliente, que ele detestava estar só consigo mesmo. Que precisava sempre de muito movimento ao seu redor e que quando, porventura tivesse que ficar por algum tempo mais isolado, ligava a TV, falava ao telefone até com pessoas para quem nunca pensara em telefonar, tudo para preencher o tempo. Dizia ele que tinha horror a ficar entregue a si próprio. Temia descobrir-se como alguém que ele desconhecesse, que fosse totalmente diferente da imagem que ele havia construído dele para uso pessoal e como máscara para enfrentar o mundo. Lastimável, penso eu, pois ele acabou perdendo grandes oportunidades de remontar seu próprio quebra-cabeça, elucidar-se sobre si mesmo e sobre as questões que pudessem lhe ser importantes.

     O Eremita, Arcano Maior de número IX do tarot, é uma lâmina que simboliza esse intervalo de tempo que dedicamos a nós mesmos, buscando respostas para os nossos mais profundos questionamentos. É o tempo, muitas vezes necessário, que precisamos nos conceder após alguma perda. Uma morte de um ente querido ou o fim de uma grande história de amor merece considerações especiais. Há um tempo de luto, e cobrir-se de luto quer dizer abster-se  da claridade exterior e de seus apelos para encararmos aquele momento como o fim de mais um ciclo natural da vida. Compreender a aceitar. Rememorar lembranças felizes, perdoar erros cometidos e ser agradecido pela oportunidade de ter experimentado essas emoções todas, vivenciado todo o seu ciclo, sepultá-las e seguir em frente.

     Qual é o sentido da vida? Por que determinadas coisas acontecem comigo? Quem sou eu? Quando estamos vivendo o Eremita nos fazemos perguntas que não têm respostas claras, precisas ou pré-determinadas. Nós precisamos de liberdade, de espaço e independência para podermos descobrir nossas próprias respostas e termos a clareza mental necessária para nos aprofundarmos em busca das nossas próprias verdades, sejam elas espirituais, filosóficas ou de âmbito social. Essas são perguntas difíceis, especialmente por se referirem ao significado que os eventos, as casualidades, os golpes de sorte,  as coisas enfim que vivemos no dia a dia e que nos leva a crer que há uma conexão entre o nosso “eu” e aquilo que enfrentamos. Isso pode ser um processo, muitas vezes, doloroso pois somos forçados a admitir que que não podemos transferir a culpa do que nos acontece aos outros, exatamente por haver essa conexão nos ligando intimamente aos eventos. E frequentemente repetimos os mesmos padrões, fazendo com que as mesmas situações voltem a se repetir, possivelmente com pequenas variações.

     O sábio é aquele que possui uma luz própria. As figuras representativas do Eremita, em quase todos os tarots, mostra um ancião (tempo, prudência, paciência), coberto por um manto (introspecção, estado meditativo), apoiado num cajado (experiências anteriores, a maturidade) e portando uma lanterna (a luz da verdade, a luz da ração, a pesquisa em busca do auto-conhecimento), parado num local deserto (sozinho consigo mesmo e liberto das ilusões).  Em nossa vida, ele representa o nosso lado mais secreto e a nossa necessidade de procurarmos em nós mesmos as respostas que muitas vezes buscamos nos outros. É tempo de nos afastarmos um pouco da sociedade ( e isso não significa abandonar tudo e isola-se no alto de uma montanha) e interrogar a nossa alma, procurando saber o que ela precisa e o que já sabe e possui.

     Quando aparece numa jogada de tarot, dependendo da sua posição e das demais cartas à sua volta, além da questão aventada pelo consulente, o Eremita pode significar que é chegado o momento de refletirmos cuidadosamente antes de fazer uma escolha, sem precipitações e medindo as consequências dos nossos atos, inclusive como ele irá se refletir nas demais pessoas envolvidas ou não. É um aviso de que devemos parar ( o Eremita é representado por um velho, portanto é uma das cartas mais “lentas” do tarot), analisar os padrões de comportamento, as emoções e os sentimentos, desculpando-nos, e aos outros, por erros cometidos e aguardar até que a resposta surja, límpida feito um cristal, de dentro de nós. É aguardar para ver como vai ficar. Essa carta é sempre uma sugestão para que reavaliemos o passado para que possamos compreender o presente e prosseguir no futuro. Por ser uma figura de aspeto bem idoso, pode significar a possibilidade de ser ajudado, ou buscar ajuda, com pais, parentes mais velhos, amigos mais idosos, professores, juízes, psicólogos, geriatras, filósofos, conselheiros e mestres espirituais. Recomenda manter uma atitude de prudência, de cautela, de austeridade, humildade e lucidez. Pode ser indicativo da necessidade de se guardar, ou revelar, um segredo, mas isso sempre de maneira muito consciente. Lembra-nos de que é preciso ser paciente, solícito, atencioso e compreensivo para com os outros, auxiliando-os com a nossa experiência e saber.

   09-Major-Hermit   Muitos associam a figura bíblica de Moisés ao Eremita, pois guiou seu povo pelo deserto ( o deserto da vida) para a terra prometida ( o paraíso espiritual). Na Árvore da Vida cabalística o Eremita encontra-se no 20º caminho, ligando Tipharet, que significa “beleza” e representa o equilíbrio, a Chesed, que simboliza a misericórdia, o estado de graça. O Eremita volta, assim, as costas para o que muito do que o mundo tem a oferecer e parte em busca da sua integridade. Conscientizando-se do que busca, é hora de estender a mão ao próximo. É usar de sua luz, de sua lanterna, de seu conhecimento para iluminar o caminho daqueles que ainda estão escalando a montanha.

     A Lua, em sua fase crescente, no signo de Virgem, pode ser traduzida como um bom momento para nos renovarmos através de uma análise mental bem detalhada. Organizar idéias e pensamentos, refletir sobre questões e estar aberto a ouvir a sua voz interior está na pauta do dia. Procure ficar mais reservado, ou pelos menos, tire algumas horas para estar sozinho, seja no seu quarto, seja caminhando pelas ruas ou mesmo passeando por uma praça ou jardim. Reflita calma e tranquilamente sobre os seus sentimentos e só então tome atitudes, desde que ponderadas, razoáveis e sensíveis.

     Aproveitem bem o domingo e tenham todos um ótimo início de semana.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Carta do Dia: O EREMITA

      Passei ma09-Major-Hermit5l à noite com uma séria crise de hipertensão que, pela madrugada, me levou ao hospital para a mesma rotina que já conheço bem.
     Nessas ocasiões em que a gente se apercebe que a vida pode estar sendo vivida “por um fio” (mais uma expressão da minha sábia avó…) o medo nos induz a uma espécie de recolhimento e avaliamos os nossos dias na terra com um olhar mais complacente. Nem tudo foi tão ruim quanto pareceu naquele momento; poderia ter feito mais, ter sido mais, ter buscado mais, ter oferecido mais. Deveria ter tido mais paciência, me estressado menos com coisas que, ali naquela inócua sala hospitalar me pareceram tão sem importância…
     Cheguei há pouco em casa e resolvi, antes de sair para agendar exames e novas consultas, fazer a tiragem da Carta do Dia para este blog e eis o que o Eremita se apresentou como a personificação em papel de tudo aquilo sobre o que eu deveria meditar hoje. Este arcano, em seu aspecto iconográfico bastante vetusto, carrega consigo a experiência que só o tempo acumula e a curiosidade dos exploradores em conhecer a si próprio e daí prosseguir.
     É claro que esse “acerto na mosca”  com que o destino me presenteou logo cedo me faz repensar as palavras do médico de plantão que me atendeu: prudência. Hipertensão é um mal muito mais comum do que se pensa mas que poucos controlam efetivamente exatamente por não terem a necessária prudência em seus hábitos alimentares, no descuido com o bem estar físico, na não obediência às rotineiras visitas ao cardiologista, à recusa em tomar a medicação diária, etc
     Vou aproveitar o repouso forçado de hoje para refletir muito conscientemente nisso tudo que a carta do Eremita nos propõe: um mergulho dentro de nós mesmos, um afastamento de tudo e de todos sem que esse distanciamento seja físico, tudo em busca de um tempo de reflexão de de auto-conhecimento. Procurar compreender melhor as limitações da vida, onde tudo é absolutamente provisório e nada é imutável. Compreender que a paciência e a solidão devem ser aceitas e assimiladas em seus melhores aspectos, sendo as grandes companheiras que temos nessas viagens interiores, em nossa busca de auto-conhecimento.
   Viver o Eremita é permitir-se ser fiel a si mesmo. É saber que toda forma de progresso é obtida através da coragem, prudência,  cautela, reflexão, do planejamento e, sobretudo, da aceitação do nosso lado “sombra”. É não temer enfrentar nossos próprios demonios para que possamos, conhecendo e aceitando nossas fraquezas, nossos aspectos menos evoluidos, diminuirmos o seu potencial e termos perfeito autocontrole e domínio sobre os mesmos.
     Esse acerto de contas pessoais que vivi nas horas em que passei hospitalizado talvez tenham influenciado nos aspectos da interpretação da Carta do Dia de hoje. Provavelmente eu a esteja lendo através da ótica de quem está se questionando motivado pela conscientização de uma situação real e que, confesso, me assusta. Mas certamente o Universo conspirou para que ela caísse em minhas mãos, logo hoje. Certamente há um motivo, uma razão. Vou pegar minha lanterna, meu cajado, envolver-me em meu manto  e aproveitar essa reclusão providencial para aprender um pouco mais de mim, comigo mesmo e na companhia espiritual desse despojado senhor.

Bom dia a todos!
A carta usada na ilustração é do ALCHEMICAL TAROT, de Robert M. Place