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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Carta do Dia: 8 DE COPAS

Cups08      Quando abriu a porta do apartamento e seus olhos se acostumaram à penumbra da sala às escuras naquele fim de tarde, sentiu-se paralisar e o sangue gelar-se nas veias. Em pé, cercado de malas e com um copo de bebida na mão, ele esperava por ela.

     “Você?!?.. Aqui?… Quando… Como?”, balbuciara, incrédula. “Quando você voltou? Chegou agora?… Nem me avisou! Que surpresa!.. Ah, amor, que bom que você voltou!”, disse caminhando para ele, louca para abraça-lo, beija-lo, pedir-lhe perdão por ter sido tão tola. Jurar que nunca, nunca mais idéias bobas como as que tivera passariam novamente pela sua cabeça. Queria pedir perdão, dizer que se arrependera profundamente da atitude infantil e injusta. Queria beija-lo muito, queria ouvi-lo dizer, mais uma vez, mais um milhão de vezes que a amava, que estava tudo esquecido, que n…

     Enquanto caminhava para ele, braços estendidos para sentir novamente seu corpo, ele não se movera. Os olhos, baixos e taciturnos, evitavam os seus. Ao senti-la mais próxima, deu um passo atrás e levou o copo de bebida aos lábios. Ela parou, próxima, as mãos quase tocando seu corpo. Um frio gelado correu sua espinha e uma explosão de luz em seu cérebro pareceu cega-la momentaneamente. Sabia que algo estava errado. Sentia que algo estava muito errado. Ele, sem levantar o olhar para encara-la caminhou até a parede e, com um gesto nervoso, ascendeu o interruptor. As luzes da sala acenderam-se. Ela sentiu que em sua alma, seus sonhos, seus desejos, suas esperanças mergulhavam num mar de trevas.

     Ele, com um certo nervosismo a trair-lhe a calma estudada, o profissionalismo em conduzir argumentações, pediu-lhe que se sentasse. Ela, trêmula, sentindo-se nauseada, qual marionete obedeceu ao seu comando, deixando-se cair na poltrona. Então, com uma falsa e ensaiada tranquilidade, ele começou a falar. Desculpou-se por ter deixado a situação entre eles chegar a tal ponto. Contou-lhe que sim, ela tinha razão, ele viajara com sua ex-noiva e também colega de trabalho. Não era a primeira vez. Sempre que ela não pudera ou quisera ir com ele, a “ex” o acompanhara. Outras vezes, em que ele dissera que o escritório não pagaria a viagem da acompanhante e que seria melhor eles não gastarem esse dinheiro no momento, era mentira. Era apenas uma maneira que ele encontrara para poder estar com a ex-noiva. Sim, ele a amava. Achara, por uns tempos, que tudo estava acabado. Foi quando se conheceram e ele havia realmente se encantado por ela, achado-a linda, inteligente, interessante, sexy. Acreditara, sinceramente, que ela iria apagar definitivamente do seu coração o amor que ainda parecia nutrir pela ex-noiva, mas que com o passar dos meses, provou estar errado. Nem ela nunca deixara de ama-lo, nem ele a ela. Seu casamento foi um engano, pelo qual ele assumia total culpabilidade. O erro tinha sido dele. Ela tinha sido uma esposa perfeita nesse ano e pouco em que estiveram juntos, mas que ele não podia continuar mais.

     A sala parecia girar à sua volta e agarrou-se aos braços estofados da poltrona para não cair. A sensação de náusea parecia aumentar. Sentia frio. Sabia que a sua pressão estava caindo, mas parecia hipnotizada ouvindo-o falar. Seus pensamentos eram como ondas de um mar revolto onde ela parecia envolta, surfando num “tubo”, no meio da onda gigante, cercada pelas águas, sem conseguir ver o céu ou a praia. A voz dele ecoava ao longe e parecia falar de coisas que ela sempre soubera. Havia, naquele momento, uma sensação de déjà vu. O que aquele homem, seu marido, dizia soava como uma velha história cujo enredo ela conhecia. Ela, meio anestesiada pelo que ouvia, meio embriagada pelo vácuo que parecia formar-se à sua frente, olhava-o como quem parece reconhecer, num estranho, traços de semelhança com algum conhecido distante, alguém que não se sabe se é ou não real.

     “Quando você me ligou dizendo da sua desconfiança, eu me senti o pior dos homens. Sabia que você estava certa e que, de alguma forma, você havia descoberto a vida paralela que eu estava vivendo. Era chegada a hora de acabar com aquela situação. Não podia mais, para não magoa-la, por não querer frustrar os seus sonhos de amor, continuar ferindo a mim e à mulher que eu amo e a quem, e hoje eu vejo isso muito claramente, sempre amei. Não pense que não me é difícil e doloroso dizer-lhe isso ou que eu não tenha consciência de quanto eu estou lhe magoando dizendo-lhe a verdade, mas, creia-me, será muito melhor para nós dois.” _ Com as mãos ligeiramente trêmulas, serviu-se de uma nova dose de bebida. Enquanto colocava o gelo no copo, continuou _ “Gostei muito de você. Gosto muito de você, acredite. Tenho imenso carinho. Continuo a acha-la uma mulher incrível. Sua inteligência me encanta, sua conversa é sempre extremamente agradável e você é uma grande companheira de surf”, disse com um esboço de sorriso nos lábios.

     “Mas isso não é razão para que eu finja um amor que eu não sinto por você, apesar de você ter todas as qualidades, todos os predicados, ser tudo aquilo que a maioria dos homens buscam na tal da “esposa perfeita”. Mas eu amo outra mulher. Hoje, mais do que nunca, eu sei que sempre a amei e que esse sentimento é real, verdadeiro e eterno. Procurei esquece-la, quando terminamos, por influência da família dela que gostaria de vê-la namorando um homem mais bem sucedido, mais rico, em melhor posição que eu. Meu orgulho falou mais alto. Meu ego, minha auto-estima sentiu-se profundamente ferida e, como eu não podia enfrenta-los, ofende-los, feri-los, acabei magoando a mim e a ela, terminando e tentando reconstruir minha vida. Aí então, numa festa de aniversário à qual eu não queria ir e acabei me deixando levar por um amigo preocupado com o meu estado depressivo, acabei conhecendo você. O resto da história você conhece.”

     Sim, ela conhecia. Conhecia bem a paixão que surgira entre eles. Conhecia bem o jogo de conquista e sedução em que ambos se envolveram. Tinha lembrança de cada palavra trocada, de cada jura de amor dita, de cada carinho. Mas tudo, agora, parecia uma lembrança, como daquelas que se tem ao acabar de assistir a um filme: ainda estamos sob efeito das emoções, somos capazes de repetir as frases ditas ou de reviver as cenas protagonizadas pelos atores mas, fora do escuro da sala de projeção, tudo volta a parecer apenas… cinema. Luz e sombra pretendendo ser real. Aquele homem à sua frente, contando aquela história, narrando aqueles fatos, tentando justificar ou procurando dar sentido, parecia estar repetindo algo que verdadeiramente não lhe pertencia ou dizia respeito. Teve a vaga sensação de sentir-se aliviada, a mesma que sentia, quando criança, ao acender a luz de seu quarto e perceber que tudo estava bem, não haviam fantasmas.

     “Estou levando minhas coisas. Saio agora. Quero que você fique morando aqui enquanto sentir vontade. Vou pedir para nosso amigo advogado cuidar dos papéis.” _ Tomou mais um gole de bebida _ “Espero que sua mágoa por mim passe bem rápido. Sei que é horrível dizer isso, mas gostaria de continuar sendo seu amigo, ou que pelo menos pudéssemos nos encontrar sem constrangimentos, quando fosse inevitável. Ainda que você não acredite, quero-a muito bem, tenho um carinho enorme por você. Não agi corretamente, reconheço, assim como reconheço o quanto essa minha atitude possa ter lhe magoado e o quanto você possa estar me odiando neste momento, mas veja, isso também vai passar. Você é jovem, bonita, atraente, inteligente, uma super profissional… irá saber reconstruir sua vida com alguém que lhe dedique o amor que você merece receber. Conte comigo sempre. Lembre-se que sou seu amigo. Posso não ser o marido certo para você, mas sou seu amigo de verdade. Não titubeie um segundo se precisar de mim. Estarei sempre ao seu lado para ajuda-la no que for preciso.”

     Ela sorriu pela primeira vez, pensando no que ele dizia. Parecia-lhe texto de novela de TV, daqueles cheios de “chavões”, quando se nota que o dramaturgo estava sem nenhuma inspiração. Já ouvira aquilo, dito por vozes outras, em cenários diversos, dentro de teatros, nas salas de cinema, nas páginas dos livros, nas histórias contadas por amigas e amigos chorosos. Tudo parecia tão impessoal, tão supérfluo, que bastaria, se houvesse, que ela desligasse o interruptor para que acabasse. É, essa era uma boa idéia. Chegara a hora de mudar de canal, virar a página, usar o controle remoto, devolver o livro à estante. Pela primeira vez o via com outros olhos. Parecia que uma névoa começara a desfazer-se e que ele podia ser visto como o homem comum que era, com os mesmos defeitos e qualidades dos demais. O brilhante e famoso advogado que defendia, conciliava ou vencia grandes causas internacionais era incapaz de lidar claramente com suas próprias emoções. Era capaz de trair-se e trair os outros. Era capaz, como qualquer outra pessoa, de errar. Olhou mais uma vez para ele. O Super Homem tinha voltado a ser Clark Kent.

     “Bem, estou saindo agora. As chaves estão sobre a mesa. Quando os papéis do divórcio estiverem prontos, nosso amigo liga para você. Vou ficar num hotel até arranjar outro apartamento. Devo passar no final de semana pela casa dos seus pais para conversar com eles. Lembre-se: o que precisar, não deixe de me telefonar.” _ Tomou o último gole do copo quase vazio _ “Acredite, gosto muito de você e estarei sempre ao seu lado, se você permitir, e torcendo para que você seja muito feliz.”

     Ela ficou olhando para ele enquanto pegava suas malas e atravessava a sala em direção à porta. Por um segundo teve vontade de erguer-se da poltrona e correr até ele e dizer que o amava, que ainda o amava, que não a deixasse, que não fosse embora, que ela compreendia a confusão dos seus sentimentos, que tudo iria passar, que ela iria ajuda-lo. Que eles iriam ser novamente felizes. Mais foi só por um segundo. Viu-o sair e o som da porta fechando-se pareceu desperta-la daquele torpor. Olhou o apartamento. Deixou que os olhos passeassem pelas paredes, móveis, objetos. Parou quando fixou o olhar no porta-retratos com a fotografia de ambos. Levantou-se e caminhou até ele. Segurou-o e olhou bem a foto, como que estudando as fisionomias e cada detalhe da mesma. Sorriu tristemente, os olhos cheios de lágrimas. Deitou o porta-retratos, com a foto para baixo, sobre o móvel. Sentindo-se profundamente cansada e ainda um pouco tonta e nauseada, caminhou lentamente até a sacada. A brisa da noite estava fria. A cidade recortava-se contra a noite em milhões de pequenos pontos luminosos. Olhou em direção ao mar. Não havia lua. Encostou-se contra a parede e chorou, sozinha na escuridão.

     Quando o 8 de Copas aparece numa leitura de tarot, dependendo sempre das demais cartas que também saíram na jogada, da sua posição no esquema do jogo e da pergunta formulada pelo Consultante, pode significar que o Consultante está saindo de uma fase para começar uma nova etapa. Que é o momento de fazer mudanças, alterações, modificações em nossas atividades se estivermos nos sentidos exauridos, desmotivados e desenergizados por elas. Pode também ser sinal de instabilidade, de sucesso temporário, de sentimentos que se acabam, de solidão. Sentir-se emocionalmente esgotado, com o coração partido. Desistir dos planos. Ser muito tímido para agir. Sentir que está dando mais do que recebe em troca. Não ter esperanças. Problemas que se encontram encobertos por enganos, mentiras, ilusões, medos, descaso, desatenção, incoerência, mas que precisam serem revelados. Falta de desejo. Abandonar um relacionamento significativo. Um momento na vida do Consultante quando ele precisa tomar uma decisão e escolher um novo caminho.

     Dependendo sempre da posição da carta e de como a leitura esteja sendo conduzida. o 8 de Copas também pode significar que a sensação de perda terminou e  que a alegria e felicidade estão retornando à vida do Consultante. Necessidade de estar diretamente envolvido, sem deixar a mente divagar, numa determinada situação. Reconectar-se com suas mais profundas emoções. Estar no lugar certo, na hora certa. Querer explorar novas possibilidades. Sucesso obtido através de esforços específicos. Recusar-se a mover, a seguir em frente. Tomar decisões errôneas. Ficar preso ao passado.

     Nesta quinta-feira, sob a regência de Júpiter, sempre expansivo, otimista, esperançoso, e com a Lua entrando em sua fase Minguante, facilitando o término de assuntos inacabados, ajudando-nos a dar solução para problemas do passado que teimam em se arrastar até o presente, podemos nos valer dessas energias para concluirmos ciclos já esgotados e nos prepararmos, com muita fé e disposição para vivermos novas realidades.

     Tenham todos um excelente dia, vivido conscientemente, longe das ilusões.

Imagem: TAROT OF THE RENAISSANCE, de Giorgio Trevisan

quinta-feira, 4 de março de 2010

Carta do Dia: 9 DE ESPADAS

   Nine-of-Swords   Janeiro passado, um casal de primos meus mandaram seus filhos para um acampamento de férias promovido pela escola que frequentam. Passaram semanas checando as condições do local, em termos de segurança, higiene e conforto; conversaram com diversos outros pais cujos filhos lá estiveram anteriormente; falaram com professores e conselheiros da própria escola e, finalmente, despacharam a garotada para duas semanas no tal acampamento.

     Foram, na verdade, duas semanas de noites insones, com os dois acordados, preocupadíssimos, sentindo as piores intuições sobre o que poderia vir a acontecer às crianças “naquele fim de mundo!”, como não paravam de repetir. Trocaram acusações, se auto-flagelaram ao máximo, sentindo-se culpados por tudo o quanto os jovem pudessem vir a sofre, pelas profundas marcas que aquelas duas semanas causariam em suas vidas como adultos.

     As crianças voltaram felizes, alegres, cheias de aventuras para contar. Meus primos estavam em frangalhos. Arrasados, dormindo algumas horas à base de poderosos calmantes, cansados de discutirem e se acusarem reciprocamente.

     O marido de uma grande amiga desde os tempos de faculdade é piloto de avião comercial. Passa a maior parte do tempo fazendo as linhas internacionais de uma companhia aérea brasileira. Desde o 11 de Setembro, quando houve aquele “ataque aéreo”, como ela costuma descrever os ataques terroristas às torres gêmeas em Nova Iorque, ela não encontrou mais paz. Não consegue dormir, não relaxa em lugar algum, largou o curso de línguas que fazia devido à ansiedade que não a deixa ficar parada num único lugar por mais de 15 minutos e quintuplicou a conta de telefone, checando o marido onde quer que ele esteja.

     O marido sente-se infeliz por ser o causador de tamanho estresse na mulher que ama. Entretanto, seria uma atitude inconsequente, neste momento da sua carreira e dos compromissos de vida de ambos, que ele largasse a aviação comercial. A mulher chora, ora e vigia os telejornais aguardando por notícias de catástrofes. Dia e noite.

     Todas essas pessoas viveram, ou vivem, à sua maneira, seus mais terríveis pesadelos convivendo com a idéia de perda, de sofrimento, abandono, culpa, sofrimento e dor o tempo todo.

     O 9 de Espadas é uma carta que simboliza, entre outras coisas, a angustiante e opressora sensação de que algo terrível está por acontecer e essa idéia fixa acaba sendo alimentada pela própria mente que a cria. Perde-se a noção da realidade, da plausibilidade, da dimensão exata do problema ou da situação. Tudo cresce a tal ponto que ocupa praticamente toda a mente, garantindo que se instale a confusão, as contradições, o desentendimento, a falta de direcionamento e a recusa em ver os fatos como realmente são. A pessoa, com medo de enfrentar seus terrores face a face, procurando clareá-los à luz da razão e da lógica, torna-se vítima de sua própria mente predadora.

     Essa carta tem uma conexão muito grande com a idéia de ciclos que se repetem, voltando sempre à idéia original. Basta que peguemos o seu número, 9 (nove) e o multipliquemos por qualquer outro número (experimente!), reduzindo-o em seguida à unidade. Voltaremos, sempre, a obter o 9 original!

     7 x 9 = 63 (6=3=9) = 9

     81 x 9 = 729 (7+2+9=18  1+8=9) = 9

     258 x 9 = 2322 (2+3+2+2=9) = 9

     Interessante, não é mesmo? Esse ciclo energético em conjunto com as chaves simbólicas do naipe de Espadas, jogam uma luz sobre como vivenciamos a natureza repetitiva e cíclica dos nossos mais profundos pensamentos. E por falar em “jogar uma luz” esse também é o número da carta do Eremita, o Arcano que simboliza uma busca interior, um estado de isolamento em busca do auto-conhecimento, de procurar em si mesmo as respostas, da necessidade de saber a verdade a todo o custo. O 9 de Espadas é uma verdadeira distorção da simbologia desse Arcano Maior, na sua ânsia de esconder-se da luz clara da razão e permitir que apenas um torvelinho de imagens, conjecturas, suposições e análises distorcidas sobreponham-se à realidade.

     Portanto, quando essa carta surge numa tiragem de tarot, dependendo sempre da sua posição e das demais cartas que a acompanham, além da questão que gerou a consulta, pode, também significar isolar-se com os seus problemas; desiludir-se; não ser flexível na maneira de pensar e agir; preocupações exageradas; sentir-se vulnerável; arrepender-se de algo feito ou dito no passado; discussões com a mãe ou a sogra; insônia; possibilidade de aborto; sofrimento; sofrimento. O aparecimento dessa carta quase sempre é um aviso para estarmos atentos ao fato que as preocupações demasiadas com as pessoas amadas e os sofrimentos da alma são comuns quando o Ego-Mente se investe de tanto controle e dominação que não leva em conta o fator humano. É a carta que nos recorda que é necessário acordarmos desse pesadelo e tratá-lo como tratamos os pernilongos que possam incomodar o nosso sono:

  • Localize-os e encare-os,
  • Elimine-os de seu sistema e de seu ambiente,
  • Previna-se de outro surto substituindo esses pensamentos ou crenças por outros muito mais límpidos e elevados.

     Aproveitem a claridade do dia de hoje para se deixarem iluminar pelo sol e fazer uma verdadeira limpeza mental. Todo mundo, inclusive você, tem o direito à felicidade. Construí-la é um trabalho individual. Comece-o agora.

Bom dia!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Carta do Dia: 3 DE ESPADAS

 3 de espadas1    Querida Rosa,

     Encontrei essa carta de baralho por acaso, numa dessas minhas andanças revirando velhos sebos em busca de livros e revistas, cartões antigos. Fico feliz quando encontro aqueles com anotações à margem, dedicatórias escritas em letra trêmula de quem não quer rasurar o presente.

     Essa velha carta de baralho, com sua imagem colorida à mão e rasurada pelo manuseio e pelo próprio tempo, eu acabei juntando com aquela nossa conversa sobre estarmos envelhecendo que tivemos, semana passada, no aniversário do nosso amigo.

     Olhando as três “moçoilas” da carta não posso evitar imaginar a ocasião em que a foto foi tirada. Onde estavam? Quando foi isso? Porque estavam com essas roupas, meio caubói meio passeio na fazenda? Quem são? Irmãs? Primas? Amigas? Amigas sim, certamente. Pode-se ver o sorriso de felicidade e o carinho na proximidade com que posaram para o fotógrafo. Joviais, seguras de si, felizes por estarem juntas, naquele instante, compartilhando a sua alegria, afeto, companheirismo que, mal sabiam elas, viria muito tempo depois acabar em minhas mãos e me provocar essa melancolia.

     Estive pensando, nos últimos dias, olhando para essa carta, o quanto vamos deixando de nós pela vida, em papéis, velhos instantâneos, uma medalhinha, um cartão de natal, um telegrama de pêsames, tudo  mais ou menos retidos nos guardados e na memória de pessoas que um dia fizeram parte das nossas relações, com quem dividimos afetos, segredos, esperanças. Com quem rimos e choramos, brigamos e fizemos as pazes. Ou brigamos e… nunca mais fizemos as pazes.

     Quantos parentes, amigos, professores, colegas de escola, companheiros de trabalho e amantes levaram consigo algo nosso e, em troca, nos deixaram as recordações de uma música, um restaurante predileto, um autor que citavam sem parar, o cheiro de um perfume daqueles que nem são mais fabricados, ou um velho poema, de “própria lavra” como se usava dizer, que guardamos através de décadas, nem sabemos direito porque, junto com as velhas fotos. Quantas juras de amor, de amizade eterna, foram trocadas e registradas em kodachrome só para ficarem amareladas e desbotadas com o tempo.

     Também eu, Rosa, guardo essas imagens do meu passado em caixas de papel, em velhos álbuns de retrato (daqueles que ainda tinham a capa em madeira, lembra-se?) São rolos de velhos filmes que nunca mais assistirei, até mesmo porque mofaram dentro de suas latas; santinhos de primeira comunhão com um Jesus de papelão, encostado numa das paredes do estúdio, entregando a hóstia; envelopes com rebuscada caligrafia e enfeitados com selos vindos do Liechtenstein (ah, como eu achava que o Liechtenstein deveria ser o lugar mais fantástico da Terra. Afinal, com esse nome quase impronunciável…). Dentro do pequeno missal revestido em baquelita, imitando madrepérola, uns amores-perfeitos ainda mantém um resto de roxo e de amarelo. Lembro perfeitamente da tarde em que minha mãe os colheu no jardim da casa em que morávamos.

     Há também, nessas caixas já muito gastas, não tanto por serem velhas como eu, mas por terem sido abertas e fechadas milhares de vezes nestes anos, lembranças de pessoas com quem eu nunca mais quis encontrar. De gente que um dia foi tão importante para mim e que, quando tudo se acabou, entre meus cacos recolhi também o quase nada que deixaram para trás e que pudesse me fazer lembrá-las. Estranho , não é? Eu sei que você também deve estar pensando isso. Afinal, se o meu ressentimento, a minha decepção com elas foi assim tão grande, por que mante-las junto a outras recordações tão mais felizes?

     Não sei, minha amiga, não sei explicar. Pelo menos não coerentemente. Talvez eu as guarde como algumas pessoas guardam em vidrinhos de remédio pedras expelidas pelos rins, numa estranha maneira de perpetuar a memória do sofrimento passado. Talvez seja para “balancear” tantas outras lembranças bem mais felizes. Ou talvez eu espere, um dia, realmente perdoar o fato de terem me traído, me decepcionado, me feito chorar desesperadamente, destruindo ilusões, sonhos, fantasias. Muito provavelmente seja para que eu consiga um dia olhar para esses velhos tesouros e reconhece-los todos meus, parte do que eu sou, todos com a mesma importância e valor, ao invés de ficar repetindo, como estou fazendo nesta carta _ “Ah, se eu soubesse naquele tempo o que sei agora”. Coisa de gente rancorosa e que não se perdoa também, não é mesmo, amiga?

     Como é penoso perceber quantas mágoas carregamos pela vida. Velhas feridas que nem mesmo o tempo as faz cicatrizar porque lá estamos, todos os dias, a abrí-las novamente, numa espécie de êxtase masoquista: sofro, logo existo. Triste inversão. Por que não utilizei todos esses anos para refletir a respeito, compreender os pontos de vista, o momento em que vivíamos e aceitar a situação como uma técnica didática, dentre as muitas de que dispõe, que o destino usou para me ensinar algo que me fizesse crescer? Mas não. Foi mais fácil contentar-me com a situação de vítima a transcender a dor.

     Só espero, minha querida, que esses três sorrisos antigos estampados nessa velha carta tenham despertado em mim algo mais do que tristeza, melancolia e solidão. Olho para a alegria registrada em sal de prata nesse pedaço velho de cartolina e aguardo que algo se transforme dentro de mim, curando esse mal crônico através da compreensão e do perdão. Da minha própria absolvição. E, quando alguém, olhando uma dessas fotos que há muito guardo em caixas, me perguntar _ “Quem é?” _ eu consiga dizer, com o coração mais aliviado e sem que a dor de tristes memórias voltem a afligir este velho e safenado coração _ “Ah, essa é Fulana. Fomos grandes amigos, fizemos faculdade juntos. Frequentávamos a mesma turma e nos divertimos muito. Casou-se.  Sabe como é, perdi contato. Nunca mais ouvi falar dela”.

     Espero que você, Rosa, também goste dessa carta, desse 3 de Espadas tão antigo. Que ele lhe inspire lembranças menos lacrimosas que estas minhas.

     Beijos!

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Carta do Dia: 5 DE ESPADAS

    40-Minor-Swords-05 Nós vivemos numa sociedade em que vencer parece ser o objetivo máximo e exclusivo de todos. Passamos a vida tentando não apenas sobreviver ou vivê-la, mas vencendo metas cada vez mais inatingíveis, mas sofisticadas, mais impossíveis, como se o desafio de nos provarmos vencedores justificasse nossa passagem por este planeta.

     Vencer sempre parece vicioso: quanto mais se tem, mais se quer; quanto mais conquistamos, mais longe ficamos do nosso ideal de segurança; quanto mais bonito e cuidado o nosso gramado, mais sedutoramente verde nos parece o gramado do vizinho. E nessa nossa ânsia para satisfazermos nosso ego, para fornecermos a ele todos os subsídios que ele necessita para ficar inflado, voando mais alto que todos, acabamos por nos envolver em situações muitas vezes catastróficas.

     Lembra-se daquela vez que resolveu comprar a maior TV de plasma que havia na loja? Aquela que nem é proporcional ao tamanho da sua sala e cujo preço estava anos-luz de distância do que você poderia pensar em pagar? Mas, mesmo assim, decidiu levar porque sabia que a família iria adorar. Afinal, você trabalha tanto, se sacrifica tanto, faz tudo pelos outros, pelo menos a compensação de assistir a um futebolzinho em 50 e não sei quantas mais polegadas você merece, não é mesmo? E o prazer de ver a cara espantada da sogra? E aquele cunhado chato, que sempre está contando vantagens, finalmente iria calar a boca… por algum tempo, mas só isso já compensa. Os vizinhos iriam comentar e pedir para assistirem “só um pouquinho” tal maravilha tecnológica. E o pessoal do escritório, então? Ah, esses quando soubessem iriam ficar mortos de inveja e, no fundo, considerando-o um campeão. Você, por alguns momentos, viveria a sensação de ser o centro das atenções, o grande vitorioso, o senhor todo poderoso. Pois é. O que ninguém desconfia é o quanto você se comprometeu com cheques “voadores”, carnês intermináveis, empréstimos… Isso é o que se chama de uma “vitória de Pirro”. Pirro foi um general grego que, ao final de uma sangrenta e violentíssima batalha onde seu exército foi vencedor, mas onde ambas as partes tiveram baixas consideráveis ficando reduzidas a quase ninguém, disse o seguinte: “Mais uma vitória como esta, e eu estarei perdido”.

     Às vezes, como forma de uma gratificação emocional, para nos compensarmos de uma perda ou simplesmente para alimentarmos nossa ambição desmedida, agimos irracionalmente, não reconhecendo nossos limites, ou o dos outros, e nos envolvemos em situações que acabam tornando-se verdadeiras guerras a serem vencidas. É o caso de quem empresta dinheiro de agiotas ou de bancos, a juros extorsivos, para fazer uma viagem que poderia, por exemplo, ter sido melhor planejada. Ou realizar uma festa de casamento com os requintes, muito além do seu orçamento, como as que costuma ler nas colunas sociais ou nas revistas fartamente ilustradas que recobrem as bancas de revistas pretendendo mostrar “como vivem os ricos e famosos”. Isso sem se dar conta que esse tipo de “ricos e famosos” que se deixam fotografar em ilhas que não são suas, em festas para as quais imploraram por um convite usando contatos e mil telefonemas, que usam roupas de griffe e vão a restaurantes que não pagam a conta em troca de merchandise, também vivem uma situação de 5 de Espadas. Situação essa que reflete uma falta de aceitação da realidade e, portanto, geradora de grandes conflitos mentais e emocionais, desencadeando uma série de ansiedades, desilusões, derrotas, perda de respeito social.

     Aquele que também, considerando-se “o esperto”, procura levar vantagem em tudo, aproveitando-se das derrotas alheias, das situações de dificuldades pelas quais os outros passam, esse também terá que enfrentar-se no espelho e, ao coroar-se vencedor pelas suas conquistas sobre os despojos de vidas alheias, deverá refletir no que Montaigne, há séculos, escreveu: “Há perdas mais triunfantes que certas vitórias”. Isso, numa interpretação bem prosaica quer dizer que existem estados vitoriosos que são tão vergonhosos que só fazem realçar o valor real do perdedor.

     Numa tiragem de tarot, dependendo da sua posição e das cartas que o rodeiam, além da questão a ser respondida, o 5 de Espadas pode estar a nos alertar para situações como o consulente estar sofrendo abusos físicos ou mentais por parte de seu parceiro, ou de outrem; de estar sendo alvo de fofocas, calúnias, injúrias, maledicência; uma forte possibilidade de perder numa batalha judicial; brigas entre os membros da família; sentir-se hostilizado no trabalho ou pelas pessoas de maneira geral;  problemas de esgotamento mental; possibilidade de ser roubado. Pode também significar o fim de uma longa batalha, indicando algum alívio e descanso com o fim de tantos desgastes físicos e emocionais, porém não significa que o consulente seja o vencedor.

     Abandonar o falso orgulho, reconhecer seus próprios limites, saber até aonde está capacitado a seguir, enfrentar honestamente somente aquilo que é possível no momento, evitar confrontações desnecessárias; não insistir em idéias que são comprovadamente inúteis, defasadas, inseguras; saber retirar-se quando o momento ou a ocasião não é oportuna e aceitar aquelas restrições que são naturalmente impostas pelo destino são excelentes paliativos para as dores causadas pelas afiadas e impiedosas lâminas dessa carta. É arriscadíssimo acreditar que, exclusivamente por milagre, as coisas irão se arranjar e o dinheiro comprometido hoje, impensadamente, irá chegar amanhã através de um sorteio de loteria, uma aposta nos cavalos, uma inesperada herança de um rico e desconhecido parente, um não aguardado aumento salarial. Milagres acontecem, sim, as dependem de uma fé inabalável e de uma causa absolutamente justa, magnânima e, sobretudo, humildade por parte do querente.

     É preciso saber perder. Saber que nem sempre se pode vencer. Aprender que as lutas não são necessariamente o modo mais fácil de se resolverem as disputas, pois os custos acabam sendo muito altos para ambas as partes.  Aceitar que, às vezes, somos deixados sem nenhuma outra opção a não ser admitir a derrota e seguir em frente. E aí, sim, opera-se o milagre. Passamos a corrigir o que está errado, a consertar o que está quebrado, desvencilhados que estamos das amarras do ego, da vaidade, do orgulho, da prepotência, do barbarismo de quem só quer vencer pela exclusão do outro. Aí começa-se a reconstruir uma nova e mais sólida reputação. Inicia-se um processo de recuperação paulatina, pensada, elaborada em termos reais e concretos, dentro das nossas reais capacidades.

     Aproveite o dia de hoje para meditar sobre isso. Pense em quantas vezes nos envolvemos em situações dificílimas por teimosia, por não querermos “dar o braço a torcer”. Se você estiver vivenciando uma situação de conflito, pare tudo, isole-se por algum tempo, e pergunte-se o que é que você vai sair ganhando ou perdendo, realmente? Vai valer a pena tanto desgaste, tanta preocupação, tantas lágrimas, tantas perdas pelo caminho? O que faz dessa situação algo tão importante a tal ponto que você se desgaste tanto para provar que todos os demais envolvidos estão errados? O que é que você vai sair aprendendo dessa incômoda experiência? Responda isso com sinceridade, sem precipitação, sem deixar-se levar pela emoção incontida, sem perder a lógica, a clareza mental, a capacidade de análise fria, distanciada. E se a idéia lhe agradar, ore. Procure relaxar e meditar, religando-se ao Criador (dê-lhe o nome que melhor lhe aprouver). Milagres acontecem nesses momentos, em forma de esclarecimentos, de iluminação, de forças para reconhecer e aceitar e, sobretudo, fé para seguir em frente, ressuscitada para tempos mais brandos.

     Tenha um ótimo dia!