terça-feira, 4 de maio de 2010

Carta do Dia: 6 DE COPAS

Cups06      Levantou-se cansada. A noite tinha sido de pesadelos. Sonhara com a mãe, ainda bastante jovem, chorando e estendendo a mão para uma porta que se fechava. Queria ajudá-la mas as imagens desmanchavam-se e ela se via agora segurando seu bouquet de noiva em meio à festa de aniversário de sua melhor amiga. Uma mão de mulher tenta arrancá-lo das suas enquanto, no fundo da sala, um homem faz sinal para que não o entregue. Acordou encharcada de suor.

     Decidiu vencer toda a depressão que a dominava e saiu para caminhar na praia. Viu a manhã de sol atrair mães com seus filhinhos e babás. Pessoas levavam seus cachorros para andarem no calçadão. Caminhou até o alto das pedras e avistou alguns surfistas esperando por melhores ondas no mar azul que se estendia à sua frente. Lembrou-se quando ele e ela saiam de manhã, com suas pranchas, prontos para cavalgarem as ondas, vendo o oceano escorrer sob seus pés e a praia aproximar-se. O vento, os respingos de água salgada, a sensação indizível de liberdade, o saber que seu parceiro, seu amor, estava ao lado, sentindo o mesmo, fazia com que senti-se plena de felicidade. Sorriu da lembrança.

     Como estava próxima, resolveu fazer uma visita surpresa aos sogros que a receberam com alegria e um farto café da manhã. Esta era a primeira vez que estava sozinha com eles e então, pais-coruja que eram, aproveitaram para lhe mostrar álbuns de fotos dele. Seu coração sentia-se fraquejar a cada imagem dele criança, brincando, jogando com os amiguinhos, abraçado com o cachorro vira-latas, no primeiro dia de aula, tocando na banda do colégio, soprando velinhas em seus primeiros aniversários, dormindo agarrado a um brinquedo… Seus olhos encheram-se, mais uma vez, de lágrimas. Agora a saudade lhe doía. Abraçou os sogros e disse que tinha muito a fazer e saiu. No caminho de casa o celular tocou. Era a mãe convidando-a para almoçarem juntas.

     Quase não comeu, tão abatida estava depois de ter-se desabafado com a mãe. As lágrimas ainda escorriam por suas faces quando a mãe resolveu dizer-lhe:

     _”Antes de engravidar de você seu pai e eu nos separamos. Eu pensava, quando o conheci, que conseguiria entender e superar o assédio das suas alunas da faculdade, mas falhei nas minhas intenções. Mesmo sem ter nenhum motivo real, nenhuma situação que me confirmasse que ele não me era fiel, eu morria de ciúmes daquelas moças, jovens, bonitas, charmosas, inteligentes, que viam nele um mestre, um guru, e que pareciam tudo fazer para seduzi-lo. Comecei a ficar irritada, a ser controladora, a ter sempre uma palavra agressiva em relação ao seu trabalho na faculdade, a ficar “chateada” pelos cantos da casa, sem assunto para conversarmos, sem vontade de cuidar ou gostar de mim. Isso tudo chegou a um extremo que, uma noite, depois de eu ter falado pela milésima vez das minhas suspeitas, ele, sem nada dizer, arrumou uma mala com algumas roupas e saiu. Pensei que fosse morrer. Mas eu também era orgulhosa o suficiente para não pedir que voltasse. Na verdade, minha querida, eu era a mais tola das mulheres. Eu amava aquele homem como poucas pessoas amaram alguém, mas eu mesma não me amava. Eu não via como, ele, tão inteligente, tão culto, tão preparado, tão charmoso, tão sedutor pudesse sentir-se feliz ao meu lado.” Ela parou de falar por uns instantes enquanto o garçom lhes servia a comida.

     _” Ele me procurou quando soube que eu estava grávida de você” _continuou_ “ e nunca mais nos separamos, porque eu nunca mais cometi os mesmos erros que haviam feito com que nossa relação ficasse frágil. Não cometa o mesmo erro que eu, minha querida. Perdoe-se. Se você errou criando essas fantasias sobre o seu marido, não há porque continuar com o erro. Diga a ele que você errou, espere que ele compreenda e a desculpe, mas, sobretudo, esse perdão é preciso que você conceda e você mesma. Pense nisso. Não há razão para não ser feliz. Sei que você o ama, mas permita que ele saiba disso também através de atitudes positivas, construtivas, que reforcem nele o amor que sente por você. Não imponha o seu amor, a sua pessoa, os seus sentimentos questionando os do outro. Ele poderia ter escolhido qualquer pessoa e no entanto preferiu a você. Foi uma escolha consciente, segura, séria, bem intencionada. Isso tem um valor inestimável. Não vire as costas para o que pode ser a sua verdadeira felicidade”.

     Despediram-se com muitos beijos, ela novamente sentindo-se a menininha que a mãe cuidava, orientava, vestia, penteava, ensinava e protegia. Sabia que tinha sido educada com muito amor e isso lhe dava segurança e conforto. Voltou para casa sentindo-se renovada. Era chegado o momento de rever a situação, pensar sobre as possibilidades que lhe restavam e, se possível, procurar corrigir os erros e transmutar essa experiência ruim em algo que pudesse ser regenerador e benéfico para ambos.

     Por um momento parou, admirando o azul do céu e do mar, unindo-se numa tênue linha. O sol brilhava em seu percurso pelo céu.

     Quando o 6 de Copas surge numa leitura de tarot, dependendo da questão proposta pelo Consultante e pela sua localização e relação entre as demais cartas da jogada, pode significar a alegria que os simples prazeres nos causam. Da certeza que existe uma ligação cármica com pessoas que nunca havíamos encontrado antes. Situações e experiências vividas no passado estão influenciando seus julgamentos e decisões e, então, é preciso avaliar se isso é ou não vantajoso. A possibilidade de reencontrar amigos ou amores antigos. Uma sensação de plenitude que o trabalho realizado no passado possa trazer. Recordar-se, com alegria, de um tempo passado. Lembranças memoráveis. Harmonia e equilíbrio. Olhar para o futuro. Associações e trabalhos em grupo que são muito prazerosos. As esperanças de sucesso tornam-se realidade. Sentir-se protegido e seguro.

     Numa posição negativa, o 6 de Copas pode indicar vaidade e orgulho. Nostalgia. Saudades de como as coisas eram antigamente. Não conectar-se com o presente. Não querer amadurecer. Estar egoisticamente dependente de pessoas ou situações que ficaram no passado. Querer desesperadamente aplicar métodos ou regras antigas a situações atuais. Não se importar com a felicidade alheia. Impor resistências à felicidade. Momentos felizes podem estar findando.

   Nesta terça-feira, sob a proteção de Marte, e com Mercúrio retrógrado, há uma sugestão de que podemos encontrar forças e recursos para esclarecermos situações que tenham ficado pendentes, mal-interpretadas ou resolvidas. A Lua Cheia, passando por Aquário, reforça as energias que nos fazem mais receptivos, fraternos, amigos, sociáveis. É um bom momento de procurar entrar em contato com amigos distantes ou que não vemos há muito. Mas também nos faz refletir o quanto continuamos apegados às lembranças do passado impedindo de viver plenamente o presente.

     Tenham todos um excelente dia e que as memórias de outros tempos venham complementar a felicidade do momento!

Imagem: TAROT OF THE RENAISSANCE, por Giorgio Trevisan

2 comentários:

  1. eita, quer me fazer viajar quanto tempo mais eim...toa adorando as historias, vc e nota 1000!

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